Jukov, o general soviético que desafiou Stálin e derrotou Hitler
01 agosto 2026 às 21h00

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Há duas grandes biografias de Jukov, o general russo que foi decisivo para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
“Stalin’s General — The Life of Georgy Zhukov” (Icon Books, 413 páginas), de Geoffrey Roberts, não foi traduzida no Brasil. Professor de História na Universidade College Cork, o autor publicou um livro muito bom: “A Biblioteca de Stálin — Os Livros Quem Formaram o Poder e a Mente do Ditador” (Matrix, 375 páginas, tradução de Daniela Belmiro).
Em setembro, para a alegria dos segundoguerrófilos — como Marcelo Franco, Irapuan Costa Júnior, Urano Guimarães e Reinaldo Barreto —, chega às livrarias patropis a biografia “Jukov — O Homem que Venceu Hitler” (Record, 856 páginas, tradução de Pedro Sette-Câmara), de Jean Lopez e Lasha Otkhmezuri.
Jean Lopez e Lasha Otkhmezuri tiveram acesso a documentos inéditos sobre a União Soviética e alguns de seus principais personagens, como Ióssif Stálin, Béria, Mólotov e Jukov.

“Le Figaro Littéraire” não economizou ao elogiar: “Uma biografia magistral de Jukov, o marechal soviético que derrotou os exércitos do Terceiro Reich”.
Destemido, Jukov disse o que ninguém tinha coragem de dizer: “Camarada Stálin, temos permissão para continuar com nosso trabalho?” Saindo em defesa de Stálin, Béria gritou: “Nós também somos capazes de dar ordens”. Jukov não recuou: “Se você acha que pode, faça-o”
“L’Union” seguiu pela mesma seara: “Um livro ainda mais fascinante por revelar uma riqueza de informações que antes eram mantidas em segredo”.
Gueorgui Konstantinovich Jukov era tão importante que o ditador Ióssif Stálin chegou a temê-lo. Apesar de duro, chegava a esbofetear oficiais, era popularíssimo entre oficiais e soldadesca. Por isso o ditador não ousou enviá-lo para o Gulag, embora, depois da guerra, tenha operado para esvaziá-lo.
A coragem de contestar Stálin
Jukov era dos poucos generais que tinham coragem de contestar Stálin e, confrontado, manter sua posição.
Jukov morreu em 1974, aos 77 anos. Sobreviveu a Stálin (morreu em 1953, aos 74 anos).

Não há um livro sério sobre a Segunda Guerra Mundial e Stálin que não mencione Jukov como figura militarmente relevante. Listo quatro: “Lênin, Stálin e Hitler — A Era da Catástrofe Social” (Record, 796 páginas, tradução de Vítor Paolozzi), de Robert Gellately; “Mestres e Comandantes — Como Roosevelt, Churchill, Marshall e Alan Brooke Ganharam a Guerra no Ocidente” (Record, 797 páginas, tradução de Márcio Ferrari) e “Tempestade da Guerra — Uma Nova História da Segunda Guerra Mundial” (Record, 811 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), ambos de Andrew Roberts; “Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler” (José Olympio, 836 páginas, tradução de Marcos Santarrita).
A biografia “Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (Companhia das Letras, 860 páginas, tradução de Pedro Maia Soares), do historiador britânico Simon Sebag Montefiore, contém passagens importantes sobre Jukov.
Em 1941, com a União Soviética à deriva, Stálin indicou Jukov para a chefia do Estado-Maior. O general tentou recusar, conta Montefiore. Mas o homem de aço não pedia — convocava e exigia.
“Baixo, atarracado, infatigável, com traços grosseiros e mandíbula preênsil, Gueorgi Jukov tinha a mesma brutalidade implacável de Stálin”, anota Montefiore.

Corajoso, Jukov frequentemente discordava de Stálin. O ditador, de rara sagacidade, o “perdoava”, por reconhecer seu talento militar.
Ao lado do marechal Timochenko, Jukov tentou “persuadir Stálin a mobilizar o país, convencidos de que Hitler iria invadi-lo”. O ditador relutava.
Pragmático, Stálin sabia que Jukov e seus generais eram a única esperança para derrotar Hitler. Daí sua relativa condescendência. O general Kóniev caiu em desgraça e Stálin mandou prendê-lo. Jukov teve a ousadia de interceder e disse ao ditador que “precisava dele como auxiliar”
Stálin disse a Jukov: “Eles [alemães] têm medo de nós”. Mas, afinal, o nazista Adolf Hitler, poderoso chefão da Alemanha, enganou o líder comunista, ou o veterano bolchevique se deixou enganar? Talvez as duas coisas.
Em junho de 1941, tropas alemãs invadiram Minsk, a capital da Bielorrússia. A derrota soviética, fragorosa, assustou e enfureceu Stálin.
Numa reunião, o ditador acusou Timochenko de não lhe passar informações precisas sobre a Minsk. Stálin vociferou: “Você está com medo de nos dizer a verdade”.
Destemido, Jukov disse o que ninguém tinha coragem de dizer: “Camarada Stálin, temos permissão para continuar com nosso trabalho?”

Saindo em defesa de Stálin, Béria gritou: “Nós também somos capazes de dar ordens”. Jukov não recuou: “Se você acha que pode, faça-o”.
A pressão continuou e, chorando, Jukov deixou a sala. Mólotov o trouxe de volta. “Stálin estava muito deprimido”, relatou Mikoian.
Por fim, Stálin convidou seus asseclas a deixarem os generais definirem os caminhos para enfrentar a invasão alemã.
A depressão de Ióssif Stálin
“Tudo está perdido. Eu desisto. Lênin fundou nosso Estado e nós fodemos com tudo. Lênin nos deixou uma grande herança e nós, seus sucessores, cagamos tudo”, lamentou Stálin.
De acordo com Mikoian, “Stálin disse que não podia mais ser o líder”. Na verdade, falava em parte a verdade, mas também fazia teatro, com o objetivo de testar seus aliados.

Depois, quando Stálin perguntou sobre Kiev, Jukov sugeriu que deveria ser abandonada, ante a força das tropas alemãs.
Stálin inquiriu: “Por que diz esse absurdo?” Jukov reagiu, aos gritos: “Se pensa que o chefe do Estado-Maior diz absurdos, então peço que me dispense de meu posto e me mande para a frente de guerra”.
A guerra não foi vencida só pelos ingleses e americanos. Os soviéticos foram decisivos. A tendência a superestimar o Dia D tem o objetivo de reforçar o papel da Inglaterra e do Estados Unidos. Mas não houve só um Dia D. Houve vários — a batalha de Kursk é um deles
Pedindo calma, Stálin retirou-o do Estado-Maior. Mas o manteve como um dos comandantes da reação aos alemães. Os dois tomaram um chá. “Ele gostava do general”, assinala Montefiore.,
Pragmático, Stálin sabia que Jukov e seus generais eram a única esperança para derrotar Hitler. Daí sua relativa condescendência.
O general Kóniev caiu em desgraça e Stálin mandou prendê-lo. Jukov teve a ousadia de interceder e disse ao ditador que “precisava dele como auxiliar”.
O sucessor de Lênin vociferou: “Se Moscou cair, as cabeças de vocês vão rolar. Organize a frente ocidental rapidamente e aja!”.
Dois dias depois dessa conversa, Mólotov advertiu que, se os alemães não fossem contidos, Jukov seria fuzilado.
Intimorato, Jukov, frisa Montefiore, retrucou que, “se Mólotov era capaz de fazer melhor, era bem-vindo para tentar”. Irritado, o “porta-voz” de Stálin desligou o telefone.

Jukov liderou a resistência e os alemães foram contidos. A defesa foi organizada com apenas 90 mil homens.
Em Leningrado, apoiado por Stálin, Jukov liderou a resistência e barrou o avanço alemão. Era impiedoso tanto com seus homens quanto com os alemães.
O general continuou se impondo ante Stálin. De acordo com Vóronov, Jukov falava com Stálin num “tom brusco de comando, como se fosse ele o oficial superior, e Stálin aceitava isso”.
Batalha de Kursk é o Dia D soviético
Em 1943, quando Stálin e seu séquito queriam atacar os alemães, mas sem um planejamento eficaz, Jukov e Vassilevski “conseguiram persuadi-los a esperar e esmagar os alemães numa posição defensiva”.
Em Kursk, na maior batalha de tanques da história, se deu o começo do fim da Alemanha nazista de Hitler. Os generais soviéticos não eram nada aloprados. Pelo contrário, apesar do receio em relação a Stálin, tiveram certa autonomia para, digamos, ganhar a guerra.
Em seguida, os soviéticos invadiram Berlim e, junto com os demais Aliados — Estados Unidos e Inglaterra —, derrotaram, de vez, o governo nazista, o que levou Hitler ao suicídio, em 1945. Jukov entrou pessoalmente em Berlim, comandando seus oficiais e soldados.
Biografias têm valorizado o papel de Jukov na história soviética e global. A história de Stálin, por seu turno, só piora. Não há uma biografia — séria — que o avalie positivamente. Ainda assim, a democracia mundial deve muito a Stálin, um ditador que nada tinha de democrata.
(A guerra não foi vencida apenas pelos ingleses e americanos. Os soviéticos foram decisivos. A tendência a superestimar o Dia D, na Normandia, tem o objetivo de reforçar o papel da Inglaterra e, sobretudo, do Estados Unidos na guerra. Mas, a rigor, não houve só um Dia D. Houve vários — a batalha de Kursk é um deles.)
Quando os generais, com seus oficiais e soldados — nenhuma força militar de outros países perdeu tantos homens quanto a soviética —, praticamente haviam destruído as tropas alemães, o velho conspirador e paranoico Stálin voltou a pôr as manguinhas de fora.
Denunciando delírios de grandeza, Stálin convocou Jukov ao Kremlin e o advertiu que “Béria e Abakúmov estavam reunindo provas contra ele”.
“Não acredito em todo esse absurdo, mas fique longe de Moscou”, alertou Stálin. As glórias, afinal, deveriam ficar com o generalíssimo, o “guia genial dos povos”.
Montefiore conta que, na comemoração da vitória contra a Alemanha, Stálin havia decidido comparecer montado num cavalo. Acabou caindo e se machucou. Ao se levantar, disse, aparentemente magnânimo: “Jukov vai comandar a parada. Ele é um cavalariano”.
Stálin possivelmente queria que Jukov caísse do “indomável cavalo árabe do qual havia caído. Talvez para desmoralizá-lo publicamente… ou até para que se machucasse. Mas Jukov dominou o cavalo e não caiu.
Jukov fica melhor na história do que Stálin
Depois da guerra, Stálin disse a Jukov: “Sou uma pessoa muito infeliz, tenho medo de minha própria sombra”. Se o ditador tinha medo, imagine os demais soviéticos, mesmo os amigos.
Montefiore relata que Stálin “tinha ciúmes do prestígio de Mólotov e de Jukov” e “suspeitava do poder de Béria”.
Quando “Stálin sofreu um ataque cardíaco grave”, a cúpula logo especulou sobre o sucessor. “Que Viatcheslav [Mólotov] assuma agora. Ele é mais jovem”, disse o ditador.
Na ausência do adoentado Stálin, os Quatro do Politburo — Mólotov, Béria, Mikoian e Malenkov — governaram a União Soviética.
De longe, Stálin observava tudo, querendo saber, por certo, se seus companheiros de jornada planejavam substitui-lo.
Quando leu no “Chicago Tribune” que havia dois substitutos possíveis para o comando da União Soviética, Stálin assustou-se. Porque sabia que, se perdesse o poder, estaria liquidado. Poderia até ser preso ou fuzilado.
“As suspeitas do generalíssimo aumentaram quando leu uma entrevista com Jukov em que o marechal assumia o crédito pela vitória na guerra, dignando-se a elogiar Stálin apenas no final”, conta Montefiore. O ditador buscou a “fonte” das reportagens e comentários de que poderia ser substituído. Ele continuava um político de imensa sagacidade.
A Budiony, Stálin disse: “Estou ficando velho. O que acha de Jukov me suceder?”
Seguida, Stálin autorizou uma operação contra Jukov. Sua casa foi invadida. Buscava-se menos os despojos de guerra e mais desmoralizá-lo. Abakúmov disse a Stálin: “A datcha de Jukov é um museu”.
Sugerindo que Jukov estava “escrevendo” a história da luta da União Soviética na Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de “aumentar” seu papel e reduzir o do ditador, Stálin o advertiu: “Deixe a escrita da história para os historiadores”.
Acusado de “bonapartismo”, Jukov “admitiu que havia exagerado sua importância”. Stálin não teve coragem de prender ou matar Jukov, porque os tempos eram outros. Então, o removeu para o Distrito Militar de Odessa. Era uma maneira de rebaixá-lo. Stálin não queria um possível substituto por perto.
Montefiore relata: “Jukov foi expulso do CC, teve seus troféus [de guerra] confiscados, amigos torturados e depois foi removido para os Urais”.
Jukov “sofreu um ataque cardíaco, mas Stálin nunca deixou Abakúmov prendê-lo por planejar um golpe bonapartista”.
“Não confio em ninguém que diga que Jukov poderia fazer isso. Conheço-o muito bem. Ele é uma pessoa franca, impetuosa, capaz de falar claramente com qualquer um, mais jamais iria contra o CC”, disse o espertíssimo Stálin.
As biografias têm valorizado o papel de Jukov na história da União Soviética e, dada sua participação na Segunda Guerra Mundial, na história global. A história de Stálin, por seu turno, só piora. Não há uma biografia — séria — que o avalie positivamente.
Ainda assim, a democracia mundial deve muito a Stálin, um ditador que nada tinha de democrata. O totalitarismo nazista foi derrotado devido, em larga escala, ao governo (totalitário) do soviético. Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt, mesmo anticomunistas, nunca deixaram de reconhecer a importância do veterano bolchevique na vitória contra o nazismo de Hitler.


