Há entrevistas que terminam quando o gravador é desligado. Outras permanecem na memória de quem as fez. A conversa com Lourdes das Neves e Lucimar das Neves, publicada pelo Jornal Opção em 26 de março deste ano, foi uma delas.

Em uma casa marcada pela maior tragédia radiológica da história do Brasil, fomos recebidos com um carinho que contrastava com o peso das lembranças. Lourdes abriu as portas da intimidade de uma família que aprendeu a conviver com uma dor permanente. Ao lado dela, Lucimar nos recebeu com a mesma generosidade. Era um homem gentil, educado, sempre disposto a explicar cada detalhe da história que atravessou sua vida.

Tinha um senso de humor muito próprio, daqueles que surgem quase como um mecanismo para aliviar o peso da existência. Em alguns momentos fazia uma brincadeira, arrancava um sorriso e deixava o ambiente mais leve. Mas bastava olhar um pouco além para perceber que, por trás daquele jeito acolhedor, existia um luto que nunca encontrou descanso.

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Lucimar jamais escondeu que a perda da irmã, Leide das Neves, morta aos seis anos em consequência da contaminação pelo césio-137, continuava presente em sua vida. A tragédia não ficou em 1987. Ela o acompanhou durante décadas, aparecendo, como ele próprio descreveu naquela entrevista, em forma de uma tristeza que chegava sem aviso. “Do nada, vem uma tristeza”, confidenciou.

Lucimar das Neves | Foto: Rafael Messias/Jornal Opção

Ainda assim, impressionava sua capacidade de falar sem alimentar rancor. Preferia explicar a acusar. Contar a história para que ela não fosse esquecida. Compartilhar memórias para que outras pessoas compreendessem que o acidente não terminou quando as manchetes desapareceram.

No último sábado, 25, Lucimar partiu. Sua morte representa mais do que a despedida de um sobrevivente do césio-137. Goiânia perde uma testemunha viva de um dos capítulos mais dolorosos de sua história; perde alguém que carregou, durante quase quatro décadas, a missão de lembrar o que nunca deveria ter acontecido.

À dona Lourdes, familiares e amigos, fica a solidariedade da equipe do Jornal Opção. E a Lucimar, nossa gratidão pela confiança, pela receptividade e pela generosidade com que nos permitiu conhecer não apenas sua história, mas também sua humanidade.

Que sua memória permaneça viva. Assim como ele fez questão de manter viva a memória de Leide.

Assista a entrevista abaixo:

 “A mulher do Césio. Meu nome hoje é esse”, Lourdes das Neves afirma que perdeu identidade após desastre radiológico