Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Caso Monark/Kim Kataguiri: a soberba da idiotia também está no ar

Com a ampliação dos conceitos de imprensa, mídia, informação e jornalismo, falta inteligência e sobra conexão direta com o microfone sem o filtro do cérebro

Com sua performance no podcast “Flow”, o “idiota” Monark comprova tese do filósofo Umberto Eco sobre as redes sociais | Foto: Reprodução

A frase tem sete anos apenas, mas já foi tão repetida que parece ser do século passado. Mas é também tão presente, tão assertiva e tão adequada ao texto que se segue que não tem como não citá-la mais uma vez.

É um trecho da fala do filósofo Umberto Eco, feita em 2015, ao receber o título de doutor honoris causa da Universidade de Turim:

“As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho, e não causavam nenhum mal para a coletividade.”

Eco morreria poucos meses depois, em 2016, e não teve a chance de, por alguma ironia do destino, participar de “reacts” a novas mídias como o Flow Podcast ou, pelo menos, dentro desse “debate”, do episódio que resumiria de modo perfeito a previsão sombria que fizera a seus concidadãos italianos: a ode à idiotia promovida na segunda-feira, 7, pelo apresentador Monark e pelo convidado Kim Kataguiri (DEM), deputado federal por São Paulo e líder mais conhecido do Movimento Brasil Livre (MBL).

Foi uma noite trágica, mas também pedagógica para a comunicação social. Na perspectiva do próprio Flow, foi também histórica, como epílogo das várias ocorrências em que Bruno Monteiro Aiub, o Monark, testava os limites da própria liberdade ou, mais precisamente, da liberdade de expressão, fosse desafiando teses já consolidadas com sua “opinião”, seja acendendo um baseado na frente de um convidado, como fez ao receber o ex-juiz, ex-ministro e pré-candidato Sergio Moro (Podemos)

Para quem perdeu o “debate” fatal da semana passada, a questão girava em torno de uma pergunta que havia sido feita a Kim por um internauta, sobre genocídios e crimes contra a humanidade cometidos por regimes marxistas no século 20. O assunto bandeou para liberdade de expressão, “hipocrisia” da esquerda e a comparação entre proibição de partidos nazistas versus existência de partidos comunistas.

Kim discutia tudo isso com a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), também convidada, mas o tema parecia interessar muito mais a Monark, que tentava “entrar” na conversa quente da dupla de políticos. Até que o youtuber achou a brecha e soltou a pérola, se dirigindo a Tabata: “As duas [ideologias, nazismo e comunismo] tinham de ter espaço, na minha opinião. Eu sou mais louco que todos vocês: tinha de ter o partido nazista reconhecido pela lei!”.

E isso foi só a primeira das pérolas de Monark. A seguir: “A verdade é que você não vai calar os preconceituosos Se você banir eles (sic) de estar no público, eles vão pro subsolo e lá vão proliferar de um jeito muito mais eficiente”; “Eu acho que dentro da [liberdade de] expressão a gente tem que liberar tudo”; “Se o cara quiser ser um antijudeu, ele tinha (sic) o direito de ser”; “Questionar é sempre válido, você pode questionar o que você quiser. Desde que você não fira ninguém, quem liga?”.

Mas não é só Monark quem acaba dizendo atrocidades. Momentos depois, Tabata pergunta a Kim: “Você acha que é errado a Alemanha ter criminalizado o nazismo?”. O líder do MBL responde seco, se derrubando com uma só palavra: “Acho!”.

As consequências vieram, para ambos. Monark foi demitido do próprio podcast no dia seguinte. A mesa vai seguir apenas com seu sócio, Igor 3k. O Flow perdeu também vários de seus patrocinadores. Kim Kataguiri já tem contra si duas representações por quebra de decoro, uma do PT e outra do colega, antigo aliado e hoje desafeto Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O processo vai correr na Comissão de Ética, onde não tem apoio nem simpatia de praticamente ninguém.

Curiosamente, Kim e Monark se dizem contra o “politicamente correto”. O político fez seu nome rumo ao Congresso baseado em ataques à esquerda e a favor da “liberdade de expressão”. Como ocorreu na conversa fatídica, o youtuber várias vezes já havia se manifestado a favor de liberdade total para falar o que quiser. A ponto ter tido esse diálogo no Twitter, com o advogado Augusto Botelho:

A discussão digital entre o advogado Augusto e o youtuber Monark | Foto: Reprodução

E, nas várias vezes em que ele ultrapassou a barreira com seus convidados e convidadas, tentando encaixar sua visão absurda do ponto de vista civilizatório, quem estava do outro lado tentou fazê-lo entender que a coisa não poderia ser assim.

Em maio do ano passado, a advogada e apresentadora de TV Gabriela Prioli procurou mostrar a ele, de forma bem didática – e até socrática –, que não poderia simplesmente falar qualquer coisa sem ter dados sobre o que dizia diante de um microfone.

Em outubro, o ator, humorista, empresário e comunicador Antônio Tabet, do grupo Porta dos Fundos, da mesma forma, tentou fazer Monark entender a diferença entre uma fake news ou distorção divulgada e compartilhada pelas redes sociais e portais da internet de uma mentira contada de uma pessoa a outra.

Tabet também mostrou a ele a diferença entre uma opinião que pode causar a morte de alguém por homofobia ou racismo em relação à de alguém que ingeriu refrigerante em excesso incentivado por terceiros (exemplo dado pelo youtuber). Ou, ainda, sobre o perigo de usar “liberdade de expressão” para emplacar um discurso antivacina no meio de uma pandemia:

Mas os alertas dados à dupla do Flow, especialmente a Monark, já vinham de muito tempo, antes do podcast chegar à centésima edição. O multiartista carioca Rogério Skylab, no Flow 92, alertou sobre o perigo de transformar algo visto por centenas de milhares – ou mesmo milhões de pessoas – em uma conversa de botequim. Veja o vídeo, e abaixo dele, a transcrição do essencial do diálogo:

Skylab: Este é um programa de conversa e é fundamental esta conversa que estamos tendo. Mas você tem de concordar comigo: esta conversa, por mais espontânea que seja, é assistida por uma multidão de pessoas (…) O que eu iria falar mesmo? (pensativo)

Monark: Era uma defesa de que o Lula foi importante…

Skylab: Ah sim, do japonês do MBL!

Monark: Isso, que ele falou que o Lula é ladrão…

Skylab: O PT é um partido muito sofrido, não desiste, não. Vai disputar na Justiça o tempo todo para provar essa questão.

Monark: É que eu gosto muito mais do brasileiro do que gosto do PT, tá ligado? Quero que partidos em geral… meu… não gosto, grupos… tira a identidade do humano!

Skylab: Mas não dá para despolitizar.

Monark: Mas não é despolitizar, é desagrupar…

(…)

Skylab: Se você está no botequim e eu estou conversando com você, a gente fala qualquer coisa. Mas aqui não, aqui é um programa…

Monark: Mas a gente não gosta disso, na verdade, Sky… a gente gostaria que aqui fosse igual uma conversa de botequim.

Skylab: Mas não é um botequim!

Monark: Ah…

Skylab: (…) porque tem uma multidão vendo lá fora, cara! Isto aqui, querendo ou não, você sendo formado ou não, isto aqui é um programa jornalístico, porra!

Monark: Eu não gosto disso…

Skylab: A forma do programa é de conversa livre, ok, não tem problema. Mas é um programa jornalístico!

Monark: Precisa ser? A gente não pode ser só dois moleques idiotas?

Igor (o outro apresentador do Flow): Eu sou meio idiota, na real. 

Skylab: Foda-se! (se irritando) Mas é um programa jornalístico, tem uma multidão vendo!

Monark: Mas o BBB, também. O BBB é um programa jornalístico? Não é…

Skylab: Não é uma conversa de botequim, porra! Então, tudo que se fala aqui tem uma responsabilidade, sacou, cara? O cara para chegar e falar “ele é ladrão”, tem de provar isso! (…) Um deputado federal não pode fazer isso, cara, ele pode responder um processo!

Monark: Eu penso ao contrário de você, acho que as pessoas tem de ter a liberdade de falar exatamente o que elas pensam, do jeito que elas pensam!

Skylab: Aqui não é um botequim!

Monark: Eu queria que aqui fosse, cara!

Skylab: Aqui não é um botequim, aqui não é um botequim! Aqui é um programa jornalístico. Se vocês não são formados em Jornalismo? Foda-se!

Ancorado nas palavras de Umberto Eco e com a confissão do próprio youtuber, Monark é um idiota, mas não mais o idiota do bar da aldeia. O botequim dele – o que ele tinha no Flow e o que provavelmente ele vai passar a ter em outro canal – leva para a mesma mesa milhões de pessoas por semana.

Milhões de pessoas que ouvem o que diz esse idiota, algumas com preguiça, outras com atenção, algumas céticas, outras à procura de um bando que pense igual a elas, umas terceiras querendo ser convencidas. Parte dessas pessoas é, também, idiota. E, como disse o próprio Monark na presença de Kim e Tabata, “as pessoas não têm direito de serem idiotas?”.

Sim, elas têm. O problema é que, na maioria dos casos, elas não sabem que estão usufruindo desse direito. Quem sofrem são as outras.

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