Euler de França Belém
Euler de França Belém

Carta de Primo Levi para sua família no Brasil antecipa literatura sobre Auschwitz

Pra escapar do nazismo, familiares do escritor italiano se exilaram em Santa Catarina e em São Paulo. A missiva é de 1945, antes do livro “É Isto um Homem?”, de 1947

Primo Levi: seus testemunhos são cruciais para compreender Auschwitz e o Holocausto

Aislan Camargo Maciera, doutor em Letras pela USP, e Maurício Santana Dias, doutor em Teoria Literária pela USP, publicam, na revista “Cult”, o artigo “A experiência, a memória e a necessidade de narrar” e uma carta inédita do escritor italiano Primo Levi (1919-1987) para parentes exilados no Brasil. A missiva, de 26 de novembro de 1945, antecipa a história contada no livro “É Isto um Homem?” (Rocco, 175 páginas, tradução de Luigi del Re), de 1947, sobre o tempo que passou no campo de concentração-extermínio de Auschwitz, na Polônia.

A carta, traduzida por Maurício Santana Dias, “foi enviada” por Primo Levi “a tios e primos refugiados no Brasil, após as leis raciais de 1938 na Itália. O documento, que estava no arquivo pessoal da família, permaneceu inédito até fevereiro de 2019, quando foi cedido pelos filhos Lisa e Renzo Levi para as comemorações do centenário de nascimento do autor. A carta veio a público no jornal ‘La Stampa’, de Turim, e é de suma importância para reconstruir o itinerário de Primo Levi. (…) Ernesto Ferrero, estudioso que conviveu com o autor e que preside o Centro Internazionale di Studi Primo Levi, nota que, ‘se excluirmos o memorial sobre a organização médica e sanitária no campo de Monowitz (…), é a primeira vez que Primo escreve sobre a tragédia que viveu”.

Partigiano, o químico Primo Levi foi preso pelo regime fascista em dezembro de 1943 e, por ser judeu, foi deportado para o campo de Monowitz (Auschwitz 3) em fevereiro de 1944. Sua vida no campo de concentração, tão dolorosa quanto fecunda, rendeu alguns livros, como “É Isto um Homem?” e “A Trégua”. Aislan Camargo Maciera e Maurício Santana Dias registram que, “com base nas escolhas literárias que faz — a clareza como fundamento da linguagem e a observação como método de escrita —, Levi decide pela objetividade de análise e exposição a fim de cumprir a função de testemunha do Lager: dizer o indizível, permitir que o leitor compreenda o incompreensível”.  Em “Os Afogados e os Sobreviventes”, o escritor assevera sobre o Holocausto: “Aconteceu, logo pode acontecer de novo: este é o ponto principal de tudo quanto temos a dizer”.

Num texto menor, “A família de Levi no Brasil”, Aislan Camargo Maciera e Maurício Santana Dias, relatam uma história pouco conhecida, ao menos no Brasil. A carta de Primo Levi “foi endereçada a São Paulo, mais precisamente à Rua Dona Antônia de Queirós, número 52, no bairro da Consolação. No final de 1945, ali vivia sua tia materna, a dona de casa Nella Luzzati Avigdor, com o marido, o engenheiro Emilio Avigdor, funcionário das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, e os filhos Paolo e Anna Lisa. A família chegara ao Brasil em 12 de julho de 1939, desembarcando do vapor Conte Grande, no porto de Santos”.

Os pesquisadores acrescentam que “dois outros primos de Levi — por parte do pai, Cesare — vieram morar no Brasil depois da emissão das leis raciais na Itália. Os filhos do tio Enrico, os irmãos Paolo Emilio Levi e Frango Ugo Levi, desembarcaram no porto do Rio de Janeiro em 14 de março de 1939, para depois fixar residência em São Paulo. Todos eles voltaram para a terra natal, provavelmente, entre as décadas de 1970 e 1980”.

A biografia “Primo Levi” (Belacqva, 743 páginas, tradução de Julio Paredes), de Ian Thomson, contém informações extras a respeito da família do escritor e o Brasil (páginas 113, 114).

Em 1938, um tio de Primo Levi, Oreste Colombo, esteve no consulado francês de Turim com o objetivo de imigrar para “um país ainda civilizado”. Porém, um dia antes, o cônsul havia deixado de fornecer visto para judeus. No dia de Natal, os irmãos Cesare, doente, e Enrico reuniram-se com a signora Giaccone, uma católica rica, que estava vendendo uma fazenda no Brasil. Por ter ido ao cinema com sua prima Giulia Colombo — assistiram o filme “The Good Earth”, estrelado por Luise Rainer —, Primo Levi não participou do encontro da família.

Ian Thomson relata que, “depois de uma longa deliberação, a propriedade brasileira foi comprada conjuntamente pelos três irmãos Levi — Cesare, Mario e Enrico — e Oreste Colombo”. Chegou-se a discutir a possibilidade de Primo Levi viver no Brasil — “se a situação” deteriorasse na Itália.

“A fazenda ficava no Estado de Santa Catarina, na fronteira com o Uruguai, e, ao que parece, era uma propriedade imensa, com gado e bosques. A perseguição de Mussolini havia obrigado os Levi a considerar a imigração, mas as leis do governo fascista os proibiam de sacar do país mais de 2.500 liras”, anota Ian Thomson. Tratava-se de um valor baixo.

“Os Levi pagaram a fazenda em dinheiro. A grana saiu ilegalmente do país, levada pela senhora Giaccone e pelos dois filhos de Enrico — Paolo e Franco. Ao chegar ao Brasil, no entanto, a família se deu conta de que o contrato era pouco confiável”, informa Thomson. “Criminosos”, possivelmente grileiros ou posseiros, tinham interesse na propriedade. [O sítio] ‘“O Raimundo’ foi vendido de novo depois da guerra.”

Familiares de Primo Levi — o casal Giovanni Turín e Elda Calderoni, prima de Ester, mãe do escritor — foram para Buenos Aires. “Em janeiro de 1939 uma das quatro irmãs Luzzati, Nella, viajou de Turim para São Paulo acompanhada de seus dois filhos. O marido de Nella viajou ao Brasil, separadamente, com um falso contrato de trabalho; de outra forma não poderia ter conseguido o visto. A família só regressaria para a Itália depois da guerra.”

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Centenário é comemorado com livro de poesia

Para comemorar o centenário de nascimento de Primo Levi, a Editora Todavia lança o livro “Mil Sóis — Poemas Escolhidos”. A tradução é do experimentado Maurício Santana Dias, professor da Universidade de São Paulo. A edição é bilíngue.

Trecho do livro

Segunda-feira / O que é mais triste que um trem? / Que parte quando deve partir, / Que tem somente uma voz, / Que tem somente um caminho. / Nada é mais triste que um trem. / Ou talvez um burro de carga. / Está preso entre duas barras / E não pode olhar para o lado. / Sua vida é só caminhar. / E um homem? Não é triste um homem? / Se vive há muito em solidão, / Se acha que o tempo terminou, / Um homem também é coisa triste.

Carta de Primo Levi para parentes que moravam no Brasil
“Não éramos mais homens

Turim, 26.11.1945

Caríssimos tios e primos,

Fui encarregado pela família de escrever a vocês, algo que faço com muito prazer, até porque creio ser quem tem coisas mais interessantes a contar. Acredito que já sabiam de meu retorno e, além disso, tenham uma ideia do que era a Itália de dois anos, um ano atrás. Dito isso, aqui vai um resumo de mina história.

Em novembro de 1943, entrei num grupo de partigiani em Brusson (Aosta). Em 13 de dezembro de 1943, fui preso por uma patrulha da Milícia republicana fascista: estávamos ainda em fase de preparação, não estávamos armados: não houve confronto. Comigo foram presos dois rapazes e duas amigas minhas, ambas judias: Vanda e Luciana. Estávamos com documentos falsos: apesar disso, decidimos (nós três) admitir que éramos judeus, acreditando que seria a única forma de justificar nossa presença ali e evitar a condenação por atividade partigiana. Fomos, de fato, absolvidos: mas, como judeus, enviados a Carpi, para um campo de concentração.

Como temíamos, o lugar nada mais era que a antecâmara da deportação: em 22 de fevereiros de 1944, partimos todos, 650 desesperados. Crianças, mulheres, idosos, cinquenta confinados em cada vagão de carga, quatro dias e quatro noites de viagem, sem dormir, sem água. Vimos desfilar pelas frestas nomes de cidades austríacas, depois tchecas, depois polonesas. Finalmente, à noite, o trem para: já estamos cercados, pelo arame farpado, chegamos em Auschwitz, na Silésia. Os alemães nos fazem descer, rápidos e metódicos nos dividem em três grupos: 95 homens válidos, 29 mulheres válidas e os outros. Minhas duas companheiras desapareceram na escuridão: não verei mais Vanda.

Digo logo que, de todo o trem, estamos ainda vivos 15. O grupo inteiro de inválidos foi morto na câmara de gás naquela mesma noite: estavam entre eles Ylca, Ruggero e Raimondo. Remo estava comigo entre os 95: fomos enviados Monowitz, campo anexo a Auschwitz. Raspam nosso cabelo, tatuam em nosso braço números progressivos, tiram nossas roupas e nos vestem com imundos trapos listrados: não éramos mais homens. Ninguém mais espera sair. No dia seguinte começa o trabalho e, para quem não morre, continuará por onze meses, sem um só dia de descanso. Quem quebra pedras, quem carrega tijolos, quem cava, quem transporta sacos de carvão e de cimento. Nenhum de nós entende alemão e, por isso, não economizam nas pancadas. Faz frio: nevou ainda em abril, o vento sopra gelado nos Cárpatos, fará frio também no verão, e nós passamos o dia todo ao ar livre, mesmo sob chuva.

Depois da primeira semana, a fome já é uma obsessão, é nossa fiel companheira até o fim: à noite, o campo inteiro só sonha com comida. O despertar é às 4 horas, dormimos dois em cada cama, 200 em cada barracão de madeira: no campo, somos 10 mil, e se falam todas as línguas da Europa. Quem adoece levemente é colocado de repouso por alguns dias: os doentes graves desaparecem, vão para um campo a 10 quilômetro daqui, onde tudo é muito bem organizado, e a câmara de gás tóxico e o crematório funcionam sem interrupção. Mas não precisa estar doente: basta estar debilitado, ou muito velho, ou ainda ter apenas um momento de má sorte: as “seleções” se sucedem em intervalos irregulares e, numa fração de segundos, julgam se estamos ou não em condições de ainda fornecer trabalho útil. Quatro milhões de judeus cruzaram a porta da câmara de gás. Por três anos, a chaminé escureceu o céu. Mas tudo acontece metodicamente, do modo mais econômico: antes da cremação, são retirados os dentes de outro dos cadáveres; as cinzas, como material fosfático, vão para as estações experimentais de agronomia.

Eu estive em Monowitz por onze meses. Não era um campo ruim: afora os “selecionados”, os mortos por doença ou espancamento em certe de vinte por dia. Soube depois que as condições das mulheres eram muito piores que as nossas. Os últimos dois meses passei trabalhando como químico, em um laboratório: faltavam homens para os alemães naquele momento, e eu tinha passado num concurso para a vaga: isso contribuiu para me salvar das doenças, mas não da fome.

Em janeiro de 1945, as forças russas marcharam sobre Cracóvia: no dia 17, os alemães decidiram evacuar a área, reuniram todos os válidos e os arrastaram com eles. Pouquíssimos entre esses, que eram a maior parte, se salvaram: uma parte foi morta pelos alemães, a outra morreu de frio e de fome. Cinco dias antes, eu havia contraído escarlatina, e fiquei: é difícil não pensar em um milagre; nunca tinha ficado doente antes. Parece que os SS tinham ordem de nos eliminar também, futuros acusadores: não tiveram tempo. Ficamos abandonados à própria sorte por dez dias, éramos 800; nesse período, 200 morreram de fome, frio e doença. No décimo primeiro dia, vimos a primeira patrulha russa.

Desde então, a história se torna menos trágica; fiquei até julho em Katowice, em um campo de espera russo; depois de uma inexplicável excursão pela Ucrânia, passei o verão em outro campo russo, dessa vez na Rússia Branca, perto de Bobruisk; finalmente, em 15 de setembro, chegou a ordem de repatriação. A viagem durou 35 dias, passando por Ucrânia, Romênia, Hungria, Eslováquia e Áustria. Cheguei em casa no dia 19 de outubro, com uma barba à la Cavour e vestido de soldado russo; estou bem, até um pouco gordo demais. Não fazia a mínima ideia se encontraria a família viva e a casa de pé. Luciana também voltou: é médica, não fez trabalhos difíceis. Como creio que sabem, Remo também está a salvo.

Como balanço pessoal, perdi muitos dos meus amigos mais queridos e, conforme retorno à vida civil, sinto mais dolorosa a falta que eles me fazem; me vejo desorientado e atrasado com os estudos e o trabalho (vocês sabem que antes eu estava empregado em Milão, na Wander, que é uma empresa suíça que fabrica Formitrol?), aliás, no momento ainda estou desempregado: mas aprendi o alemão e um pouco de russo e polonês, e vi um bom pedaço da Europa que poucos estrangeiros viram.

As impressões gerais são pouco alegres: a Europa está velha, amaldiçoada e louca; a Itália está entre as regiões privilegiadas. Os alemães não são homens; seria preciso destruí-los ou reeducá-los, e ambas as coisas são impossíveis: falei com alemães prisioneiros dos russos, depois do armistício: sérios, frios e convictos, eles dizem: “Dessa vez também deu errado: da próxima, dará certo”. Os russos esqueceram Marx, sentiram o gosto do Ocidente e não têm muita vontade de parar. Os Bálcãs são, mais do que nunca, um barril de pólvora: todos os velhos problemas de disputa de fronteiras ainda estão em aberto, e cada um se aproveita da situação obscura para ganhar espaço. Na Polônia, depois da ocupação russa e até junho, foram mortos em pogrom mais de 2 mil judeus que tinham escapado do massacre nazista. Centenas de milhares de prisioneiros de guerra ainda aguardam a repatriação. Entre eles, ao menos 20 mil italianos ainda passarão um inverno nos campos russos, além dos Urais.

Quanto à Itália, talvez saibam alguma coisa daqui. A melhor parte da nossa geração (no Norte; no Sul as coisas ocorreram de forma diferente) participou da resistência contra os alemães e os neofascistas, da luta partigiana e da insurreição de abril de 1945. Como costuma acontecer, os melhores morreram, e depois de tudo o cenário foi invadido pela ambição e pela fé duvidosa. As consciências íntegras que sobreviveram estão desiludidas: o fascismo demonstrou ter raízes profundas, muda de nome, estilo e métodos, mas não está morto e, sobretudo, faz resistir aguda a ruína material e moral que provocou no povo. Faz frio, há pouca comida, não há trabalho; floresce o banditismo e, enquanto se fala de democracia social, crescem monstruosos e novos capitalismos nascidos do comércio ilegal, do mercado negro: é a aristocracia mais antissocial. A guerra acabou, mas ainda não há paz.

Por todas essas razões, me interessaria muito receber informações de vocês, sobre suas condições de vida: possibilidade de trabalho para técnicos, grau de xenofobia, custo de vida, desenvolvimento da indústria. Não tenho ainda nenhum projeto preciso, por isso, tudo pode me interessar.

Encontrei todos os parentes bem: alguns um pouco envelhecidos. Os hábitos estão muito mudados, somos todos um pouco ciganos: não se tem mais empregadas domésticas, viaja-se com muita desenvoltura em vagões ou em caminhão de carga, estabelece-se onde e como é possível, não se fazem projetos para além de uma semana. Tudo isso, às vezes, tem suas vantagens.

Embora não tenha uma ideia clara da sua situação aí, leio com certa surpresa que vocês falam em voltar. É somente uma impressão pessoal minha, mas me parece um pouco prematuro: acredito que ainda acontecerão fatos surpreendentes na Europa.

Recebemos por volta do último dia 23 o pacote endereção à via Lamarmora, e também o endereçado a Livorno, e lhes agradecemos coletivamente: certas coisas não costumamos ver por aqui todos os dias. Muitos beijos a todos, esperamos sempre notícias de vocês.

Primo

Ia me esquecendo de dizer que, em fevereiro de 1945, logo que os russos permitiram, não podendo escrever para Turim ainda nas mãos dos alemães, escrevi uma longa carta para vocês que, evidentemente, se perdeu.” (Tradução de Maurício Santana Dias)

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