Brigadeiro Baptista Jr. conta em livro como abortou o golpe articulado por Jair Bolsonaro
12 agosto 2026 às 09h31

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A história mostra que os golpes de Estado no Brasil só foram possíveis por causa da participação das Forças Armadas, direta ou indiretamente. O Exército, por sinal, é a força mais decisiva.
Em 1889, sem as forças armadas, a Monarquia, mesmo maduríssima, não cairia tão facilmente. Então, a Proclamação da República foi fruto de um golpe de Estado… militar. Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, os dois primeiros presidentes da República, eram militares — generais (marechais).
Em 1930, as forças armadas, notadamente o Exército — os tenentes e alguns generais —, contribuíram, de maneira decisiva, para o golpe de Estado que levou Getúlio Vargas à Presidência da República.
Em 1937, no golpe do Estado Novo, mais uma vez as forças militares estiveram presentes para gestar Getúlio Vargas como ditador-presidente.

Em 1945, a derrubada de Getúlio Vargas contou com a participação direta de militares, inclusive daqueles que apoiaram sua ditadura. Em seguida, foi eleito o general Eurico Gaspar Dutra, do Exército. Por sinal, com o apoio do político gaúcho.
Em 1954, irmanados com militares, civis, como Carlos Lacerda, tentaram um golpe contra Getúlio Vargas. Mas o suicídio do presidente abortou o putsch mais do que anunciado.
Entre 1955 e 1956, militares, aliados com civis, tentaram um novo golpe de Estado, agora para impedir a posse de Juscelino Kubitschek, o presidente eleito. Mas esbarraram na energia do general democrata Henrique Teixeira Lott. JK assumiu a presidência no dia 31 de janeiro de 1956.

Porém, dez anos depois, civis e militares, mais uma irmanados, derrubaram o presidente João Goulart. Corria o ano de 1964.
Os militares de 1964 não permitiram que civis ascendessem ao palco principal, a Presidência da República. Ficaram no poder de 1964 a 1985, uma longa noite de 21 anos — quase um quarto de século.
Uma das provas de que, quando presidente da República, planejava um golpe de Estado é que, numa reunião no Palácio do Alvorada — logo depois de perder a eleição para Lula da Silva, do PT, em 2022 —, Jair Bolsonaro virou-se para Carlos de Almeida Baptista Junior e vociferou: “Já te dei dois cartões amarelos”. Já estava preparando o vermelho
No jornal “O Globo” desta quarta-feira, 12, a colunista Bela Melage, na nota “Os dois cartões amarelos de Bolsonaro ao comandante da Aeronáutica na iminência do golpe”, relata que o brigadeiro Carlos Almeida Baptista Jr. — que impediu o golpe, ao lado do general Freire Gomes, então comandante do Exército — está lançando um livro no qual conta como, não aderiu, não permitiu que se desse retomada da ditadura de 1964, possivelmente à sua face mais cruenta, a do governo do presidente-general Emilio Garrastazu Médici.
O livro de Carlos Almeida Baptista Jr. tem o título apropriado de “Eu disse NÃO — Uma Trincheira Antigolpista” (Autêntica, 240 páginas). O brigadeiro teve uma conduta heróica, ainda não devidamente reconhecica, mas a história há de consagrá-lo.
Uma das provas de que, quando presidente da República, planejava um golpe de Estado é que, numa reunião no Palácio do Alvorada — logo depois de perder a eleição para Lula da Silva, do PT, em 2022 —, Jair Bolsonaro virou-se para Carlos de Almeida Baptista Junior e vociferou: “Já te dei dois cartões amarelos”. O próximo seria o vermelho. Era uma ameaça grave para forçar o brigadeiro a apoiar o golpismo.

Jair Bolsonaro estava presssionando o brigadeiro para aderir ao golpe que planejava (Lula da Silva nem tomaria posse).
O brigadeiro e Freire Gomes não arredaram um milímetro, o que impediu o golpe e garantiu a posse de Lula da Silva na Presidência da República.
De acordo com Bela Megale, “o relato do militar revela, de forma inédita, as tensões, pressões e desafios enfrentados para assegurar a transição democrática e a tentativa de golpe capitaneada por Jair Bolsonaro”.
“Baptista Junior conta que as reuniões entre ele, o general Freire Gomes, comandante do Exército, o almirante Almir Garnier, comandante da Marinha, e o general Paulo Sergio, ministro da Defesa, se tornaram uma constante após a derrota do ex-presidente. Eles eram chamados de ‘grupo dos quatro’”, anota a repórter de “O Globo”.

Numa das reuniões com Jair Bolsonaro, Baptista Junior foi peremptório: o presidente “não permaneceria no cargo após 1º de janeiro de 2023”.
O livro já pode ser encomendado no site das livrarias. Custa 52,90 reais (Kindle) e 74,90 reais (livro impresso).
(O brigadeiro Baptista Junior e Freire Gomes merecem estátua em praça pública, como apóstolos da democracia.)
Leia o release da editora Autêntica
“Em 2022, Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Aeronáutica, resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional. Esta é a primeira vez que um integrante da cúpula militar daquele período relata, em livro, os bastidores da crise que ameaçou a democracia brasileira.
“Em 2021 e 2022, o Brasil viveu momentos em que a continuidade da democracia dependeu, em parte, de decisões tomadas dentro dos quartéis.

“Entre abril de 2021 e janeiro de 2023 — período mais tenso da relação entre Bolsonaro e a cúpula militar —, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior estava lá: como comandante da Aeronáutica, acompanhou de perto as pressões para que as Forças Armadas aderissem a uma tentativa de ruptura institucional, que teria seu desfecho nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, após a derrota do então presidente nas urnas.
“Neste livro, Baptista Junior narra em primeira pessoa um período que remonta ao início do governo Bolsonaro, em 2019, atravessa a gestão da pandemia de Covid-19 e desemboca na crise militar de 2021, quando Bolsonaro trocou o ministro da Defesa — substituído por Braga Netto —, os três comandantes das Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto. Já no período eleitoral de 2022, o relato passa pela pressão sobre o sistema eleitoral e pelas reuniões de alta tensão da disputa presidencial, até os meses decisivos entre os dois turnos e a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
“Piloto de Caça com mais de quatro mil e quinhentas horas de voo e carreira construída desde 1975 na Força Aérea Brasileira, Baptista Junior dá um testemunho raro, sincero e corajoso sobre a real espessura da crise institucional brasileira e sobre o que, afinal, fez com que a ruptura não se concretizasse.”


