O uso de inteligência artificial é incontornável. Quem usa para escrever, adquirido o vício — sim, vício —, não para mais.

Porque a IA faz o trabalho que quem escreve deveria fazer. O que fazer?

Proibir não há como. A IA é ótima, por exemplo, para fazer revisão. É excelente para pesquisas.

Mas como fica o cérebro de quem substitui, espontaneamente, a cachola pela IA? Metaforicamente, “encolhe”, ao perder importância?

O fato é que aquele escrevinhador que deixa a IA fazer seu trabalho possivelmente, a médio prazo, perderá a capacidade de escrever e, quem sabe, até de pensar.

O Jornal Opção não proíbe o uso de IA, mas cobra que os repórteres escrevam seus próprios textos. No caso de uso de IA, os leitores devem ser avisados.

Por que evito o uso de IA? Não é preconceito. Porque é um recurso prático. Mas quero manter meu cérebro atentíssimo. Vivo. Prefiro escrever um pouco mais devagar, produzindo algo autoral do que entregar um texto pelo qual não sou o verdadeiro responsável. Meus textos têm identidade e, até, idiossincrasias

Há pouco tempo, o jornal examinou vários textos, escolhidos às cegas, de repórteres e colaboradores. Ao menos três colaboradores usavam IA, sem alertar os leitores. Num dos casos, o teste avaliou que o texto havia sido escrito quase que inteiramente por IA.

Pedir apoio a IA para organizar um texto é uma coisa. Mas permitir que a IA seja inteiramente responsável pelo texto é outra coisa.

Aconselha-se aos colaboradores internos e externos, agora alertados, que avisem os leitores sobre o uso de IA. É muito fácil verificar se o texto é exclusivamente da pessoa ou não. Ninguém consegue “enganar” os leitores, que estão cada vez mais atentos e, sim, desconfiados sobre a questão da “autoria”.

Por sinal, foram leitores que notificaram a redação de que três colaboradores estavam utilizando IA de maneira intensiva. Fomos checar e eles estavam certos.

Pintura de Jonathan Wolstenholme

Vários leitores perguntam se uso IA para escrever e revisar meus textos. Não uso nem para escrever nem para revisar. Os testes indicam que o que escrevo é 100% de minha lavra.

Por que evito o uso de IA? Não é preconceito. Porque é um recurso útil, prático. Mas, aos 65 anos de idade, quero manter meu cérebro atentíssimo. Vivo. Ativo. Perspicaz. Prefiro escrever um pouco mais devagar, produzindo algo mais autoral, digamos, do que entregar, em alguns minutos, um texto pelo qual não sou o verdadeiro responsável. Meus textos têm identidade e, até, idiossincrasias.

Cristovão Tezza e Wolf Singer

Numa entrevista ao repórter André Bernardo, do “Estadão” (22/7/2026), o escritor Cristovão Tezza fez um comentário perfeito sobre o uso de IA.

“Para mim é uma questão engraçada: se escrever é o maior prazer da minha vida, por que diabos eu iria terceirizar minha escrita a uma máquina? Entendo a literatura como uma viagem ética de percepção e reconhecimento do mundo, pessoal e intransferível: é a minha linguagem — sou eu que estou em jogo quando escrevo. É só nesse terreno que, para mim, faz sentido partilhar minha ficção com o leitor. Como diz o Sérgio Rodrigues no ótimo título de seu livro sobre o tema, ‘escrever é humano’. Ponto”, disse Cristovão Tezza.

Cristovão Tezza: escritor não usa IA para escrever seus romances | Foto: Divulgação

O escritor acrescenta: “Isso posto, é inegável o impacto da inteligência artificial na produção contemporânea de textos. É impressionante, por exemplo, a rapidez com que as traduções instantâneas evoluíram, em pouquíssimos anos, de estruturas capengas a um padrão de correção, nuances e detalhes próximos da perfeição. Tudo que é instrumental na linguagem se beneficia da IA, sem dúvida. Bem, tenho clareza de que essa é uma discussão que está apenas começando, com consequências monumentais no mundo inteiro e em todas as áreas. Enquanto isso, escrevo”.

O neurofisiologista alemão Wolf Singer assinala que é preciso ter cuidado com a delegação de funções que cabem ao cérebro à IA e outras tecnologias.

“Quando você usa o celular para fazer cálculos, não precisa mais calcular de cabeça. Você delega. Economiza tempo, é mais preciso — e por que não? Mas isso reduz o treinamento dessas capacidades no seu próprio cérebro”, disse Wolf Singer à repórter Giulia Peruzzo, da “Folha de S. Paulo” (7/7/2026).

Wolf Singer acrescenta: “Pegue os sistemas de GPS. Como você não precisa mais ler mapas, apenas seguir uma voz que manda virar à direita ou à esquerda, você deixa de treinar a capacidade de construir mapas espaciais para encontrar seu caminho. O mesmo vai acontecer com outras tarefas que você delega a essas máquinas. Você não precisa mais armazenar detalhes de conhecimento histórico porque leva um segundo para encontrá-los. Esperançosamente corretos, mas é preciso ter cuidado”.

Noutras palavras, não “joguemos” nosso cérebro fora. Porque, se precisarmos dele novamente, na falta da IA, não o teremos.