Euler de França Belém
Euler de França Belém

Brasileiro não aceita que outra seleção jogue bem; nós é que jogamos mal

Empate com a Suíça levará a Seleção Brasileira a retirar o salto alto e a calçar as sandálias do realismo

Philippe Coutinho fez um golaço, mostrou habilidade e nada mais

Nós, brasileiros, aceitamos que os suíços e os japoneses fabricam melhores relógios que os… chineses (o meu, diga-se, é chinês). Aceitamos que os automóveis suecos, Volvo, e alemães, Mercedes, são mais resistentes. Aceitamos que alemães, japoneses e americanos são, no geral, excelentes em matemática. O Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) deixa orgulhosos os brasileiros… que sabem do que se trata. Mas, em termos de futebol, aí não: somos os melhores. Deuses incorrigíveis e incontornáveis (quem consegue, por exemplo, usurpar o trono de Pelé). Não há um brasileiro com mais de seis anos que não se habilite ao cargo de Tite, o técnico da Seleção Brasileira. Se Jesus Cristo voltasse, apresentando-se como expert em futebol, seria contestado de maneira implacável. Somos mais de 200 milhões de treinadores de futebol, de comentaristas esportivos e, se brincar, já, na idade apropriada, jogamos como Neymar, o, digamos, craque que figura entre os deuses do Olimpo. Robert Graves e Junito Brandão não o inscreveram nos seus livros sobre mitologia porque não chegaram a conhecê-lo.

Neymar é o craque número 1 da Seleção Brasileira; driblou, mas contribuiu pouco para o time

Se os somos os melhores no futebol — de fato, estamos entre os melhores —, é natural que não podemos perder nem empatar. É sacrilégio empatar com a Suíça (que, ao contrário do que escreveu Graham Greene, não fez apenas o relógio cuco; seus bancos lavam parte do dinheiro sujo do mundo e financiaram parte do tráfico negreiro). Em 2014, perdemos da Alemanha — e, vergonha, por 7 a 1. Consta que Ricardo Teixeira, quando poderoso chefão do esporte bretão no país, chegou a pensar em convencer um deputado a apresentar um projeto para banir o sete da matemática. Saltaríamos do seis diretamente para o oito. O risco seria alguém, não podendo citar o sete, escrever que a turma do país de Goethe e Thomas Mann venceu os canarinhos por 8 a 1 e não por 6 a 1. Ainda bem que “rejeitaram” o projeto do ex-comandante-em-chefe da CBF antes que fosse “apresentado”.

Willian: espera-se que o jogador não tenha deixado sua majestade na Inglaterra

Empate é derrota para o brasileiro

Como somos os melhores em futebol — nossa maior commodity não é a soja, mas jogadores, como Neymar, Marcelo e Philippe Coutinho —, só aceitamos vitórias. Empate, para nós, tem sabor de derrota e, pois, leva a uma deprê momentânea. A nossa tese hegemônica é: o outro time não jogou bem, nós é que jogamos mal.

No domingo, 17, depois das 15 horas — nós nunca dizemos assim; preferimos 3 horas da tarde —, calçamos chuteiras nem tão imaginários, vestimos uma camiseta amarela (a com o nome Neymar nas costas é crucial) e nos sentamos na capela de toda casa (residência é pernosticismo, não é?), olhando atentamente para a santa televisão (televisor! Não, é uma palavra horrorosa). O microfone é imaginário, mas os brasileiros — nas e fora das redes sociais — são comentaristas natos. São melhores, até muito melhores, do que Galvão Bueno, Casagrande, Júnior, Roger, Caio e Tostão (que só escreve em jornal, na “Folha de S. Paulo”).

Em campo, duas seleções — o termo seleções às vezes é usado de maneira imprecisa — com seus jogadores mais qualificados: a Brasileira e a Suíça. A de vermelho, perdendo a vergonha, fez a de amarelo amarelar?

Nós — eu na primeira fila, pois não sou nada isento; no caso da Seleção, sou torcedor — somos assim: não admitimos, no caso de derrota e empate, que o outro time tenha jogado bem e até de modo superior. Nós é que jogamos mal.

No primeiro tempo, o Brasil fez um gol, agradou aos comentaristas — era o prenúncio de uma goleada — e voltou para o segundo tempo jogando em câmera lenta, errando passes. Seria um passeio.

Marcelo: o capitão atuou como sargento, não comandou o time e errou passes

Marcelo perdeu alma ao ser capitão

Ao se tornar capitão, Marcelo perdeu a alma e deve ter dado mais passes errados do que na sua última temporada do Real Madri. Durante o jogo, não se comportou nem mesmo como sargento. Como jogador, provou-se recruta. Ele é um grande jogador.

O cubista Neymar não foi Neymar

Neymar, o único craque indiscutível do escrete (como não usar esta palavra dos tempos de antanho, e esta, então?), muito bem marcado por um suíço sorridente, demonstrava certo nervosismo. O marcador-carrapato praticamente impediu Neymar de ser Neymar, o que o deixou irritado.

Ao tentar ser Neymar, resolver tudo numa jogada magistral, o rei de Paris, o Saint-Germain, o mestre não conseguiu ser o último dos moicanos, mas sua cabeleira parece, sobretudo a nuca, uma arte cubista de Picasso, o gênio espanhol.

Gabriel Jesus, excelente atacante, não funcionou nem como anjo nem como filho de Deus

Atacante não foi anjo nem Jesus

Philippe Coutinho fez um golaço e quem faz gol é perdoado por nós. Não jogou tão mal assim. Mas, como Willian (o nome é de príncipe; o futebol, neste primeiro jogo, de plebeu), parecia um fantasma em campo. Uma presença-ausência. Aliás, os jogadores patropis, quando chegavam à área suíça — com sua defesa “ruça” —, trombavam uns nos outros. O campo parecia pequeno e, em certo momento, cheguei a pensar que os reservas também estavam jogando.

O que dizer de um jovem tão simpático que, ainda por cima, tem o nome de Gabriel Jesus? Mas, como sabem os suíços, nem o anjo nem o filho de Deus, ainda que no corpo de um mortal, nos ajudaram. O garoto (sofreu um pênalti) é um jogador de primeira linha — com um sorriso divino —, mas comportou-se como se fosse gandula, quer dizer, pegava na bola, mas não parecia em campo.

Árbitro falhou mais do que Miranda

Quem jogou melhor mesmo? O goleiro e a zaga. Falharam no gol da Suíça? O goleiro ficou paralisado, como se estivesse assistindo um gol de Firmino na trave suíça, mas tem como se explicar: havia um zagueiro na jogada, Miranda. Pode-se dizer que o defensor falhou? Não, porque foi empurrado, espertamente, pelo suíço que fez o gol. A falha mais grave foi do árbitro (todos nós falamos juiz, até para xingá-lo, mas, ao escrever, anotamos árbitro) — que não viu ou não quis ver o empurrão. Poderia ter verificado o vídeo, mas não quis. Seu relógio “não” é, por certo, suíço.

Apesar da falha do juiz — o manual de redação exige árbitro —, a Suíça jogou melhor no segundo tempo, às vezes com um domínio de bola superior ao dos brasileiros. Mereceu o gol e o empate foi o resultado mais justo. Se fosse um pouco mais objetiva e precisa, a Suíça poderia ter feito mais um gol. Não fez, possivelmente, por recear o gigante Brasil, que assusta todos, inclusive as poderosas Alemanha, França e Argentina.

Brasil não jogou tão mal; a Suíça jogou bem

Portanto, urge dizer: o Brasil não jogou bem, mas não jogou tão mal assim. A Suíça “ganhou” — o empate é uma vitória para a nação de Rousseau, Jung e Dürrenmatt — e o Brasil “perdeu”. Sim, porque empate, para nós, é derrota — exceto contra a Alemanha e, vá lá, a França. Para os suíços, empatar com o Brasil é jogar bem.

Mas, pensando bem, um susto na primeira partida, e contra um time razoável, pode ter sido um bom resultado. No próximo jogo, mais realistas do que Machado de Assis, certamente vamos tirar o salto Luís XV e vamos calçar não as sandálias da humildade (o futebol não é lugar de humildes, e sim de vaidosos; no esporte humildade é sinônimo de mediocridade), e sim chuteiras mais “firmes”, mais “velozes” e mais “atentas”.

Tite é um técnico excepcional, mas não pode ser considerado herói antes dos resultados positivos

Tite está perdendo o “posto” de herói

Certamente, se fizermos um gol, não vamos nos contentar com isto. Vamos fazer o segundo. Tite, que parte da imprensa trata como herói antes do ato heroico em si, certamente vai mudar o time mais cedo.

Mais do que nós, os técnicos oficiosos, Tite, que é craque mesmo, sabe quais peças falharam. Se não funcionarem de novo, terá de trocá-las mais cedo.

Isabelly Morais: uma narradora que, de Philippe Coutinho, deve se tornar uma Neymar

Mulher narradora é estrela da Fox

A boa ideia desta Copa da Rússia não é a cachaça 51, e sim a jornalista Isabelly Morais, que, se não é uma Brastemp, não deixa de ser uma Eletrolux.

Sem a experiência de Galvão Bueno (que, apesar das críticas, acho ótimo), Milton Leite, Cleber Machado, Téo José, Luiz Carlos Jr., Luiz Roberto, a narradora da Fox — a primeira brasileira a narrar uma Copa do Mundo —, Isabelly Morais, “joga” como Philippe Coutinho, mas, aos poucos, chegará a Neymar. Ela fala bem; o tom declamatório pode ser corrigido aos poucos. Pegar o “ritmo” — uns dirão o “tempo” — do jogo não é fácil, mas a jovem, muito jovem, está se saindo bem.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.