Biografia de Hannah Arendt relata a vida e as ideias de uma das intelectuais mais influentes do século 20

“Arendt — Entre o Amor e o Mal: Uma Biografia” conta a história da filósofa política, judia alemã, que abordou temas como o totalitarismo e a banalidade do mal

Mariza Santana

A judia alemã Hannah Arendt (1906-1975) é, sem dúvida, uma das pensadoras mais influentes do século 20. Sua trajetória de vida é o exemplo de como foram conturbados os anos 1900, período em que ocorreram duas grandes guerras mundiais e a chamada Guerra Fria, a qual colocou em lados opostos o capitalismo (representado pelos Estados Unidos) e o comunismo (defendendo pela União Soviética).

O tempo passou, o muro de Berlim ruiu declarando o fim da chamada Cortina de Ferro na Europa, a União Soviética se dissolveu, os ventos da globalização sopraram e mudaram o cenário geopolítico mundial. No início do século 21 o terrorismo islâmico se tornou o grande desafio para o Ocidente e a China comunista emergiu como uma superpotência econômica capitalista (dona do segundo maior PIB global).

E há pouco, veio a epidemia da Covid-19 (que já matou mais de 510 mil pessoas no Brasil), comprovando que, diante de um simples vírus, a humanidade pode ser frágil. E todos os países estão sujeitos a sofrer igualmente — embora os mais pobres sofram com maior intensidade devido aos parcos recursos da medicina e à falta de vacinas.

Entretanto, basta um pequeno olhar para os acontecimentos do século passado, e para o atual, para perceber que o pensamento da filósofa política é mais atual do que nunca. Sua voz — que se levantou contra o antissemitismo, o imperialismo, o totalitarismo, o desrespeito aos refugiados e (aquela ideia que mais chocou na época) apontou a “banalidade do mal” — continua ecoando de maneira muito contemporânea em nossa sociedade.

A vida de Hannah Arendt foi repleta de amor, mal, perdão, perseguição, responsabilidade e amizade, juntamente com a produção de um forte arcabouço intelectual e teórico que encanta os estudiosos até hoje. É o que conta a escritora sueca Ann Heberlein, no livro “Arendt — Entre o Amor e o Mal: Uma Biografia” (256 páginas, tradução de Kristin Lie Garrubo), lançamento da editora Companhia das Letras. A autora é doutora em teologia e ética e é professora de Filosofia na Universidade de Lund e foi professora da Universidade de Estocolmo.

Hannah Arendt: uma as mais importantes filósofas do século 20 | Foto: Reprodução

Na biografia, Heberlein resgata a história da filósofa, que preferia ser chamada de teórica política, desde o início de sua vida acadêmica na Alemanha, onde teve como orientador (e também amante) o filósofo Martin Heidegger, passando pelo exílio em Paris, um período em um campo de internação francês, até culminar na fuga, junto com o marido Heinrich Blücher, para os Estados Unidos. Tudo isso em um contexto de perseguição cada vez maior por parte do regime nazista de Adolf Hitler contra os judeus, que culminou com o Holocausto.

Durante a narrativa, o leitor conhece algumas figuras do círculo intelectual de Arendt, como o filósofo e crítico literário Walter Benjamin (1892-1940) e o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht, entre outros. Porém, o diferencial desta biografia é que, ao mesmo tempo em que vai relatando os fatos da vida da filósofa alemã, uma sobrevivente da perseguição nazista, a scholar sueca faz também suas próprias reflexões filosóficas a respeito de temas como esperança, suicídio e finitude da vida, citando grandes pensadores e fazendo uma ligação com a obra de Arendt.

Essa técnica adotada por Ann Heberlein torna a leitura da biografia prazerosa até para os menos iniciados na filosofia e na obra de Hannah Arendt, mas que se veem envolvidos com os trágicos acontecimentos do século 20, e também com a produção intelectual do período. Em Nova York, onde passou a morar e viveu até sua morte, em 1975, a filósofa escreveu parte de sua obra, entre elas “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras, 344 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), que causou polêmica na época porque apresentava a tese da banalidade do mal.

Uma análise do passado recente que serve como alerta para o autoritarismo do presente | Foto: Companhia das Letras

Afinal, diz Arendt nesta obra, o famoso carrasco nazista que foi levado a julgamento por crimes contra a humanidade era apenas um burocrata cumprindo ordens, e não aquele monstro que todos gostariam de pintar (frise-se que estudos recentes de vários estudiosos europeus — como a filósofa alemã Bettina Stangneth, autora de “Adolf Eichmann: Historia de um Asesino de Masas” — e americanos sugerem que Eichmann era um pouco mais do que a filósofa apresentou no seu livro da década de 1960, o que não retira o brilho de sua densa especulação intelectual). Ela apontava para a maioria dos demais cidadãos alemães de bem que não fizeram nada (ou até apoiaram) o avanço do nazismo, assim como os centros judaicos que contribuíram com a perseguição, ao elaborar listas com nomes e endereços de famílias de judeus. Há um livro a respeito: “Apoiando Hitler — Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista” (Record, 517 páginas, tradução de Vitor Paolozzi)

Arendt reclamou também da situação dos refugiados, pessoas que, segundo ela, como não tinham cidadania, estavam desprovidos de todos os direitos que são assegurados pelo Estado. Ela mesma, somente 18 anos depois de fugir da Alemanha e migrar para os Estados Unidos, teve direito à cidadania norte-americana.

Além da biografia, o livro conta com um posfácio denominado “Leia e aja: a atualidade do pensamento de Hannah Arendt”, escrito por Heloísa Murgel Starling, historiada e cientista política brasileira, uma das maiores autoridades nacionais de estudos sobre a ditadura civil-militar e a República brasileiras.

No artigo, Heloísa Starling cita o momento político atual e a obra “Origens do Totalitarismo” (Companhia das Letras, 832 páginas, tradução de Roberto Raposo), de Arendt, para alertar que devemos continuar mobilizados contra a ação dos líderes autoritários e totalitários — que se utilizam do sistema democrático para ampliar sua ideologia de dominação.

Mariza Santana é crítica literária do Jornal Opção.

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