Quem acompanha os fatos sabe que não há nenhum exagero em prever atos violentos em caso de derrota do atual presidente

Bolsonaro no discurso a apoiadores radicais em 7 de setembro do ano passado, na Avenida Paulista: movimentos golpistas foram levados à mesa de Joe Biden | Foto: PR

A despeito da reação que tem tido nas pesquisas, o presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda tem uma rejeição acima de 50% do eleitorado, o que inviabiliza uma vitória em segundo turno.

Por isso, sabedor do quão difícil é conseguir a reeleição, depois de tanto atentar contra a própria governabilidade, ele agora investe tudo no que já é estratégia desde que tomou posse: desacreditar as instituições que não aderirem a seus propósitos.

Um desses propósitos é o da permanência no poder – ressaltando que falar em “permanência” é diferente de falar em “continuidade”. Em desvantagem nos números da corrida ao Planalto neste ano, Bolsonaro reforça suas baterias contra o sistema, as urnas eletrônicas e a apuração pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A estratégia é contestar desde já o resultado, à semelhança do que fez Donald Trump nos Estados Unidos em 2020. Depois da derrota consolidada em uma apuração que dura dias – em alguns Estados, até semanas –, ele promoveu uma enxurrada de recursos de alegação de fraude, todos negados, porque não tinham a mínima base. A última tacada foi a incitação contra o Capitólio em 6 de janeiro de 2021, data em que o Congresso americano ratificaria oficialmente a vitória de Joe Biden.

Atiçados por Trump, seus militantes invadiram a sede do Poder Legislativo. Um dia de republiqueta das bananas para a história da democracia mais forte do planeta, que terminou com o trágico saldo de cinco mortes. O republicano teve contra seus intuitos nefastos um sistema resistente e, principalmente, a negativa peremptória do comandante das Forças Armadas contra qualquer tentativa de abalar a institucionalidade. Os militares estadunidenses rechaçaram desde o começo o golpismo.

Dias atrás, a equipe do presidente Joe Biden recebeu uma documentação na qual várias instituições, acadêmicos e personalidades da sociedade civil no Brasil e nos EUA pedem vigilância sobre o pleito de 2022 por aqui. Querem que, na relação diplomática, os “irmãos do Norte” priorizem as liberdades individuais e a democracia, em vez de interesses geopolíticos e comerciais.

No dossiê de 250 páginas a que a BBC News Brasil teve acesso, está expressamente escrito que “o mundo deve estar preparado para testemunhar uma versão provavelmente mais extrema” do que ocorreu no Capitólio, se Bolsonaro perder as eleições. Quem acompanha os fatos diariamente sabe que não há nisso nenhum exagero e que a preocupação tem toda razão de existir.

Com um agravante: enquanto em quase 250 anos de história dos Estados Unidos, seus militares nunca ousaram intervir na democracia, os correlatos brasileiros se acham tutores da República. Aliás, não só acham como reafirmam, com orgulho redigido anualmente, que o golpe de 64 e o período ditatorial que se seguiu até 1985 foi para guardar os preceitos democráticos.

Hoje calcula-se que há 8 mil militares – a maioria da ativa – em cargos civis no governo federal, com gratificações diversas, às vezes bem acima da remuneração-base. Um governo que não seja o de Bolsonaro vai certamente reduzir bastante essas benesses. Quem entre eles estariam preparados para voltar para o quartel perdendo ideologicamente (porque em grande parte se identificam com o atual governo) e financeiramente prejudicados?

Levando em consideração ainda o fator Lula como provável vencedor e o histórico recente de declarações de generais sobre ele e o PT, as coisas pioram mais um pouco. E Bolsonaro não conta exatamente com os militares se levantando, mas com uma explosão de comoção agressiva por parte de seus seguidores, os quais busca armar desde o início do governo. A senha – que nem se pode chamar mais de um “dog whistle” (em inglês, “apito para cachorro”, uma gíria para dizer mensagens que só sua base entenderá) – ele dá em quase todo discurso: “é preciso dar até a vida pela própria liberdade” e “povo armado jamais será escravizado” são algumas de suas frases mais usuais.

A posse do ministro Alexandre de Moraes como presidente do órgão em setembro, um mês antes das eleições, será a cereja do bolo para sua horda. De positivo, no que diz respeito à questão, o fato de ser Biden no poder. É bem verdade que ele não é lá essas coisas, mas imagine como seria a situação se as urnas estadunidenses tivessem tido o resultado oposto…