Euler de França Belém
Euler de França Belém

Argentina publica nova tradução do romance “Ulisses”, do irlandês James Joyce

A declaração de independência irlandesa do autor de Finnegans Wake “consistiu em superar os ingleses na escritura do inglês”

“Ulysses” (ou “Ulisses”), um sr. esbelto de 93 anos, é uma espécie de Benjamin Button da literatura. Quanto mais fica velho, em termos de idade, mais parece jovem — quiçá o Drácula da prosa universal.

O original do romance-catedral de James Joyce é um palimpsesto literário à espera sisífica de interpretações. No caso, não apenas interpretações críticas. O escritor irlandês também é interpretado frequentemente por novas traduções, que, de certa maneira, o fazem “dizer” mais do que havia dito ou sugerido. Joyce é um autor que se permite reinventar tanto pelos críticos quanto pelos tradutores. Nunca se pode falar, em termos de sua literatura reverberativa, em traduções definitivas. A obra, mesmo depois de supostamente “pronta”, persiste em andamento, por meio do autor, dos coautores (críticos e tradutores) e leitores do tipo, digamos assim, Joyce e seu protagonista, Leopold Bloom.

O Brasil traduziu “Ulisses” três vezes. Antônio Houaiss traduziu primeiro, com rara mestria, o que pode ser comprovado com as leituras das novas versões.

Em seguida, Bernardina Pinheiro tornou a história do homem comum Leopold Bloom mais popular, ou, como dizem seus críticos, mais pedestre. Talvez seja possível sublinhar que pôr um livro tão difícil, embora paradoxalmente também seja simples, de pé nunca é um ato pedestre.

Caetano Galindo, mistura dos homerianos Ulisses e Aquiles, é a terceira ponte do romance para o português. Sua versão é um meio termo entre o eruditismo de Houaiss, quem sabe excessivo, e a simplicidade de Pinheiro, talvez excessiva. Tropicalizado por Caetano — o Galindo, não o Veloso —, Joyce se tornou (mais) “legível”, mas não pedestre.

Portugal responde por duas traduções de “Ulisses”. A primeira é de João Palma-Ferreira. A segunda é de Jorge Vaz de Carvalho, saudada na terra de Camões e Fernando Pessoa como um portento.

Francisco Vale, editor da Relógio d’Água, responsável pela nova edição, disse a João Céu e Silva, do “Diário de Notícias”: “Li aquela tradução [a de Palma-Ferreira], bem como as dos brasileiros Antônio Houaiss e Caetano Galindo [nota do Jornal Opção: ele não cita a versão de Bernardina Pinheiro], e ao comparar as quatro considero que a de Jorge Vaz de Carvalho é um avanço sobre as outras”. A tese de Francisco Vale: “É aquela [a de João Carvalho] em que o tradutor se atreve mais a ir ao encontro do que Joyce escreveu e de todas as ressonâncias culturais sem forçar analogias. Essa audácia foi sempre difícil porque a maior parte dos tradutores esquivou-se aos problemas fundamentais do livro”.

Libro Ulises

Mais cosmopolita, a Argentina traduziu “Ulisses” antes do Brasil, em 1945 — há 70 anos —, 23 anos depois de sua publicação. O autor do trabalho de Hércules, José Salas Subirat, não pôde contar, anota o poeta e tradutor Pablo Ingberg, em texto para o “Clarin” (publicado na quinta-feira, 14), com uma bibliografia que o ajudasse a entender de maneira mais ampla a prosa de Joyce. Mesmo assim, com “erros e tropeços”, “continua sendo a mais legível deste lado do Atlântico”. O jornal argentino cita duas outras traduções, espanholas: de José María Valverde, de 1976, e de Francisco García Tortosa e María Luisa Venegas, de 1999.

Agora, 93 anos depois da publicação do livro na Europa, sai outra tradução na Argentina. Pablo Ingberg diz que a tradução de Marcelo Zabarov, em colaboração com Edgardo Russo e revisão de Teresa Arijón, Anne Gatschet e Eugenio Conchez (coautor das notas explicativas), é de alto nível (leia a resenha no link: http://www.revistaenie.clarin.com/literatura/Ulises-catedral-novela-moderna_0_1354064604.html).

Um trecho da resenha de Pablo Ingberg: “Sua [de Joyce] declaração de independência irlandesa consistiu em superar os ingleses na escritura do inglês. Um inglês, claro, invadido de irlandesismos”.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.