O deputado do PTB perdeu a oportunidade de discutir, de maneira mais ampla, a ideia de que, no momento em que se faz cortes, é preciso também investir e criar expectativas positivas

Henrique Arantes e Ana Carla Abrão Costa: os dois jovens deveriam abrir um debate sobre o crescimento e o desenvolvimento de Goiás | Fotos: Y. Maeda e Fernando Leite/Jornal Opção
Henrique Arantes e Ana Carla Abrão Costa: os dois jovens deveriam abrir um debate sobre o crescimento e o desenvolvimento de Goiás | Fotos: Y. Maeda e Fernando Leite/Jornal Opção

Os políticos da família Arantes — Jovair, deputado federal, e Henrique, deputado estadual —, mandachuvas do PTB em Goiás, são competentes. Não perdem eleições para o Parlamento. Goste-se ou não deles, são atuantes. Pensa-se em Jovair, o mais experimentado dos dois e o mais eficiente, geralmente como um político meramente fisiológico. Trata-se de uma interpretação redutora. Na verdade, avaliado pela média — que é como as pessoas, não só os políticos, devem ser examinadas —, o petebista tem qualidade. Não há um prefeito de sua base que faça reclamações contundentes sobre sua atuação. É considerado “municipalista” e leal por todos, ou quase todos. Henrique, menos experiente, ainda está no começo de sua carreira política. É um jovem promissor, assim como Virmondes Cruvinel, Diego Sorgatto, José Antônio, Alexandre Baldy, Issy Quinan, Marcos Abrão, Rodrigo Zani, Adriana Accorsi, Lucas Calil, Jean Carlo, Daniel Vilela e Gustavo Sebba. Depende dele representar um salto qualitativo em relação ao pai.

Há algum tempo, os Arantes, notadamente Jovair, não estão satisfeitos com o governador Marconi Perillo, do PSDB. Na tradição das eleições brasileiras, os políticos são responsáveis por batalhões de cabos eleitorais. Passadas as disputas, os deputados procuram agasalhá-los em cargos comissionados. Porém, adotada uma política de contenção de despesas rigorosa — para impedir que a crise leve o Estado à falência —, o governo cortou parte dos cargos comissionados. Deputados que mantinham uma legião de cabos eleitorais viram-se, de uma hora para outra, contra a parede. Sabem que as medidas são necessárias, para equilibrar as contas do governo, mas são pressionados pelos aliados. Leais aos seus seguidores, os Arantes foram dos primeiros a reclamar de maneira mais explícita. Mas não são, é claro, os únicos insatisfeitos. Há outras questões, comenta-se nos bastidores, mas não tenho informações objetivas para que possa mencioná-las de modo a não cometer injustiça e reforçar preconceitos.

Vilã do momento

Recentemente, sucedendo os protestos de Jovair, Henrique fez críticas duras à secretária da Fazenda, Ana Carla Abrão Costa. A economista seria responsável pela crise do Estado. Noutras palavras, a vilã que estaria, supostamente, “iludindo” o governador de Goiás, Marconi Perillo. Como se isto fosse possível. Henrique sustentou que Ana Carla é uma profissional “incompetente” e que teria, inclusive, sido “demitida” do Banco Itaú, onde era alta executiva.

Os “debates” no Brasil começam, em geral, não pela exposição de ideias e argumentos, e sim pela desqualificação. Henrique poderia ter feito e até ampliado suas críticas — por exemplo: não se deve apenas fazer cortes, criando, por assim dizer, uma “psicologia da paralisia” —, que são válidas porque iluminam e sacodem o ambiente modorrento de Goiás, Estado no qual o coro dos contentes é sempre muito forte e quase sempre a discordância se dá nos bastidores, frequentemente com maledicência. Mas poderia ter evitado o achincalhe e mantido a elegância.

Como se sabe na arena política, o ajuste começou a ser feito pelo governador Marconi Perillo ainda em 2014, quando Ana Carla ainda não era secretária da Fazenda. Portanto, se está aprofundando os cortes, com o objetivo de que o Estado recupere sua capacidade de investimento — e não invista apenas com base em recursos federais ou do exterior —, a economista não os “inventou”. Mesmo no período eleitoral, ante as notícias da desaceleração da economia nacional, o tucano-chefe começou a fazer cortes, a adaptar o Estado à nova realidade. O resultado de sua previdência é que, hoje, Goiás não está “quebrado” — ao contrário de outros Estados. Não se vive em Shangri-la, é certo, mas Goiás está em melhor situação do que vários outros Estados, como o Rio Grande do Sul.

Há uma tradição no Brasil de se “atacar” o mensageiro, e não o autor da mensagem. O deputado federal Alexandre Baldy, do PSDB, foi um dos primeiros a criticar, embora menos duramente, as ações do governo, mas tendo Ana Carla como “alvo”. O objetivo, claro, era “atingir” Marconi Perillo, porém, por razões de sobrevivência política, é mais racional “agredir” o elo mais frágil da corrente. Entretanto, ao criticar a economista, o parlamentar tucano estava mais defendendo o empresariado do que, digamos, “atacando” a secretária da Fazenda e Marconi Perillo.

Espírito público

No caso de Henrique, um político em geral ponderado, houve um viés mais agressivo, fulanizado. A oposição peemedebista, que há muito não formula um discurso consistente — porque é pouco ousada intelectualmente —, buscou absorver a crítica do petebista. Se até os “aliados” estão criticando, sugeriu, é porque as coisas vão “mal”. Na semana passada, conversando com um técnico e ex-deputado do PMDB, um repórter do Jornal Opção ouviu que Ana Carla “é competente” e “não protege” empresários que sonegam. Tanto que os servidores do Fisco estariam “encantados” com a liberdade que têm para fiscalizar e cobrar impostos. O peemedebista disse que a economista não faz “graça” com o dinheiro público. Apontada como workaholic, chega cedo à Secretaria da Fazenda e trabalha até muito tarde. É profissional e não faz política. Sua seriedade é vista como exemplar.

Na sua crítica, na parte mais espinhosa, Henrique sugeriu que Ana Carla “quebrou” o banco BBC, do pai Irapuan Costa Junior, que foi “demitida” do Banco Itaú e que é “incompetente”.

Certamente não é incompetente uma jovem que fez doutorado na Universidade de São Paulo (USP), a unidade de ensino superior mais conceituada do país, e algumas de suas ideias sobre crédito foram incorporadas pelo Banco Central. Muitas teses, ainda que às vezes interessantes, são nefelibatas. Não é o caso do trabalho da economista.

Ana Carla teria sido demitida do Banco Itaú e isto seria prova de sua “incompetência”? Na década de 1970, o jornalista Claudio Abramo foi demitido da “Folha de S. Paulo”, jornal que havia reformulado e tornado importante. Pode, então, ser tachado de “incompetente”? Não. Abramo era um jornalista brilhante, um editor de larga visão. No caso de Ana Carla, Henrique não apresentou prova de que tenha sido “demitida” do Banco Itaú. Entretanto, se tivesse sido afastada, não seria demérito. As empresas, bancos ou não, frequentemente renovam seus quadros.

Os goianos (os brasileiros) às vezes não perdoam o sucesso de seus conterrâneos, quase sempre apreciando e cultuando mais o fracasso. E, se alguém vence em alguma atividade competitiva, longe de aplaudi-lo, começa-se a procurar os defeitos. Estaria “roubando”? É a fracassomania em ação. O ex-governador de Goiás Irapuan Costa Junior é um intelectual refinado — recentemente traduziu uma obra do filósofo inglês Herbert Spencer e o livro deve sair por uma editora de São Paulo (Bruno Costa, ex-editor da Hedra e tradutor, me disse que ficou “surpreso” com a qualidade da tradução, com sua linguagem precisa) —, mas também é um homem prático. Criou o BBC tanto para ganhar dinheiro quanto como um desafio de vida. O banco não era um fracasso e sua liquidação se deveu menos aos erros dos dirigentes do que aos “humores” do governo federal. O que faltou para salvar o banco não foi competência, e sim força política — que Goiás não tinha e ainda não tem. Culpar Ana Carla pela liquidação do banco é desconhecer até sua idade e atribuições. Por mais competente que fosse, a economista, na época da liquidação, nos anos 90, não tinha idade nem experiência suficiente para dirigir toda a política do BBC. Sobretudo, não tinha experiência (e força) política — sim, política — para ajudar a salvar o banco.

Não se deve tentar eliminar a crítica e intimidar os críticos. Porque a vida só avança quando há conflito, o choque de ideias. Aqueles que só buscam o consenso, evitando o conflito, às vezes contentam-se com ideias frágeis e nulas. O consenso deve resultar mais do conflito do que da busca do consenso como forma de esconder os problemas. A crítica de Henrique, portanto, é válida quando discute que o Estado não pode ficar paralisado e que é preciso investir. O próprio governo anunciou, na semana passada, um programa arrojado, o Inova Goiás, que vai investir 1 bilhão de reais. O que não acrescenta é a crítica cujo objetivo é mais desqualificar, às vezes para afastar a pessoa do cargo, do que esclarecer e debater questões cruciais. Nunca li, na imprensa de Goiás, um exame técnico crítico, crível e não politizado das ações do governo Marconi. Economistas da oposição deveriam fazê-lo.

Ana Carla não quis polemizar. Porque aparentemente não havia, ante a crítica para além do campo das ideias, o que debater. Mas há, sim, o que discutir. Uma política governamental não pode ser feita tão-somente de cortes. É preciso ajustar para crescer e desenvolver. E é preciso criar expectativas positivas. O realismo pessimista é paralisante. Formado em História, portanto tem conteúdo, Henrique poderia ter restringido a discussão ao debate de ideias. Há tempo para (re)pôr as ideias no lugar.