Euler de França Belém
Euler de França Belém

A história do homossexual que sobreviveu à barbárie de um campo de concentração de Hitler

Enviado para Buchenwald, por ser gay, Rudolf Brazda sobreviveu porque tinha grande paixão pela vida. A SS colocava os homossexuais no “lugar mais baixo na hierarquia”

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No clássico “O Holocausto — História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial” (Hucitec, 1022 páginas), do historiador inglês Martin Gilbert, há referências aos ciganos e homossexuais mortos nos campos de concentração e extermínio dos nazistas de Adolf Hitler, ainda que escassas. “Em pouco mais de quatro meses, mais de 30 mil pessoas tinham sido mortas em Mauthausen [campo de concentração alemão], ou tinham morrido de inanição e doença. Judeus e ciganos formaram os maiores grupos dos mortos, mas outros grupos também tinham sido selecionados pelos nazistas: homossexuais, testemunhas de Jeová, prisioneiros de guerra espanhóis”, revela Martin Gilbert.

“Dos assassinados” — Martin Gilbert não está citando só Mauthausen —, entre 1939 e 1945, “cerca de um quarto de milhão eram ciganos, dezenas de milhares de homossexuais e dezenas de milhares de ‘deficientes mentais’.” É pouca informação, mas o historiador pode alegar, com razão, que seu foco são os judeus. Por isso o livro “Triângulo Rosa — Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista” (Mescla Editorial, 182 páginas, tradução de Angela Cristina Salgueiro Marques), de Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda (o texto é exclusivo de Schwab), tem grande importância. É o resgate da história do alemão (“tchecoslovaco, por ascendência”) Rudolf Brazda (1913-2011).

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Rudolf Brazda foi preso no campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha, porque havia cometido o “crime” de ser homossexual. Não se pretendia tão-somente purificar a raça alemã. O governo nazista trabalhava para mudar comportamentos tidos como desviantes e, quando não conseguia, prendia ou matava as pessoas.

Com pouco mais de 1,60m, Rudolf Brazda era um jovem bonito, que trabalhava como telhador. Dava-se bem com as mulheres, mas preferia homens, ainda que, no início, tivesse “uma imagem bastante negativa da homossexualidade”. Ótimo dançarino, logo conheceu o alemão Werner — “amor à primeira vista”. “A família Brazda aceita de bom grado que o caçula não faça parte dos ‘normais’.”

A vida seguia seu ritmo sem atropelos, mas Hitler chegou ao poder, em 1933, e aprofundou o parágrafo 175 do código penal, criado pelos fundadores do Estado alemão. O “parágrafo 175 estipula que luxúria contra o que é natural, realizada entre pessoas do sexo masculino ou entre o homem e o animal, é passível de prisão; pode também acarretar perda de direitos civis”.

Em 1935, Hitler reforça o parágrafo 175. “A expressão ‘Widernatürliche Unzucht’ (luxúria contra o que é natural) é substituída simplesmente por ‘Unzucht’ (luxúria). Essa pequena diferença vocabular é, contudo, considerável: a interpretação jurídica da versão original condenava os ‘atos similares ao coito’ — cuja prova era difícil de conseguir. A nova versão tem um campo de aplicação mais extenso, que engloba a masturbação mútua ou o simples contato entre o membro ereto de um homem e qualquer parte do corpo de outro homem. Ou seja, ele condena igualmente as pessoas que estão de comum acordo. Além disso, ao novo texto se acrescenta a seção 175-a para o caso de ‘luxúria com agravantes’ (abuso de autoridade, estupro, prostituição masculina ou relações sexuais com menores [pessoas com menos de 21 anos]) e a seção 175-b, que diz respeito a zoofilia.”

Homossexuais como “judeus do sexo”

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A pena de prisão “pode durar de três meses, no mínimo, a dez anos, em caso de luxúria com agravantes”. O poderoso chefão da SS, Heinrich Himmler, trata a homossexualidade como “praga”. “Os homossexuais são considerados indivíduos não reprodutores e, assim, como podem assegurar a perenidade da raça? Por esse discurso, a condenação da homossexualidade não parece mais responder a uma exigência moral, mas sim à necessidade de preservar a raça.” Como uma espécie de “judeus do sexo”, que conspurcariam a raça alemã, os homossexuais começam a ser cadastrados pelo governo nazista. A Central do Reich relacionou cerca de 100 mil pessoas.

Werner é convocado, em 1936, para servir o exército alemão. Mesmo encontrando-se apenas esporadicamente, Rudolf Brazda e Werner “mantêm fielmente a relação”. Brazda liga-se aos comunistas, mas não era um militante tradicional. Em 1937, o governo nazista começa a “caçar” os homossexuais e descobre a relação entre os dois. Brazda é preso e, no início, nega sua homossexualidade. Muito pressionado pelos policiais, acaba por confessar: “Sim, pratiquei masturbação mútua com Werner. Eu o amava verdadeiramente e fui fiel a ele, não procurando contato sexual com outros homens”. Mesmo acossado, acrescenta: “Se o amor entre homens deve ser punido assim, prefiro o suicídio à mudança de sexualidade”.

Rudolf Brazda é acusado de “luxúria” e o promotor de justiça “exige a abertura do processo”. Foi condenado a seis meses de prisão. Ao ser libertado, é obrigado a sair da Alemanha e vai para a Tchecoslováquia, país de sua família. Não mais vê seu grande amor, Werner. O nazismo destruiu o vínculo entre eles. Em 1938, morando entre os tchecos, apresenta, em bares e restaurantes, shows nos quais encarna Josephine Baker e une-se ao grupo de teatro itinerante Westböhmische. Conhece o cabeleireiro Toni, com o qual passa a se relacionar.

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Mesmo com a Tchecoslováquia ocupada pelos alemães, Rudolf Brazda continua no país. Mas a caça aos homossexuais não demora. Os nazistas, acreditando que há uma “rede de homossexuais”, começa a prender alguns “suspeitos”.

Pressionado em tempo integral, Rudolf Brazda desmorona e diz: “Vou dizer a verdade: confesso que nesses últimos anos tive relações homossexuais com diferentes homens”. Na presença de um juiz, admite ter mantido relações com Toni, mas não com Raimund. Acusação feita pelo Ministério Público: juntos, Brazda e Toni “esfregaram as partes genitais desnudas até a ejaculação”. “Com Raimund M.: por quem ele se deixou masturbar o membro despido e em ereção até a ejaculação.” Ridículo? Sim, mas assim era o nazismo e sua moral. Rudolf Brazda (14 meses de prisão), Anton H. (Toni), Raimund e Josef N. foram condenados. Depois, como castigo, Toni foi enviado, como soldado, para a perigosa frente russa.

Como castigo por ser homossexual, Rudolf Brazda é enviado para Buchenwald, campo de concentração na Alemanha. No portão central estava escrito: “A cada um o que merece” (“Jedem das Seine”). Nu, tem “os pelos raspados da cabeça aos pés”. Seu crucifixo foi arrancado. “Nada de beatos por aqui!”, disse um integrante da SS. “Esse crucifixo era o último objeto pessoal que ele tinha — um presente de Toni.” A ficha o qualifica como “homossexual”. “Buchenwald recebe principalmente os deportados pela repressão: os adversários políticos e outros indesejáveis, como” Rudolf Brazda. Os presos são obrigados a trabalhar na indústria bélica ou em trabalhos civis. Em 1942, quando Rudolf Brazda chegou, o campo tinha 9.141 presos.

Brazda, além de “homossexual”, agora é o número 7952. “Acima dessa matrícula deve-se pôr o pequeno triângulo feito de tecido colorido. Um triângulo de poucos centímetros de lado, usado com uma ponta para baixo e costurado na camisa, na altura do coração. A cor depende do motivo da detenção. (…) Para Rudolf [Brazda], a cor é rosa, escolhida para estigmatizar a homossexualidade.” O “T” que aparece no triângulo que ilustra a capa do livro tem a ver com o fato de que os nazistas considerarem Rudolf Brazda como tcheco. Os detentos são vistos como escravos.

Como Hitler era uma espécie de faraó, e tinha projetos gigantescos para as grandes cidades do Reich, o governo precisa de muita pedra para as construções. Daí a pedreira de Buchenwald, “um verdadeiro inferno”. As pessoas se machucavam muito e, ao serem consideradas “imprestáveis”, eram mortas pelo nazismo. Rudolf Brazda trabalha na pedreira e diz não saber como sobreviveu. O capo da mina, Johann Herzog, o assedia sexualmente. O jovem o rejeita. Mesmo assim, Herzog o indica para enfermeiro do barracão da pedreira.

A partir de 1942, com os reveses militares no front russo, Himmler ordena a redução dos castigos físicos e mais concentração no trabalho produtivo. Qualificado, Rudolf Brazda passa a integrar o batalhão dos telhadores, com os amigos Fernand e Gustav. Apesar da “promoção”, os SS põem os triângulos-rosa no “lugar mais baixo na hierarquia de prisioneiros, junto com os judeus, os roms [ciganos] e os sinté” (ciganos).

Certa feita, em 1943, ao consertar um telhado vê o político francês Léon Blum preso. Rudolf Brazda também assiste, de um telhado, o assassinato de militares soviéticos. “Hoje, choro toda vez que me lembro desses instantes terríveis, mas na época eu endureci para sobreviver… como os outros”, diz.

O livro conta que homossexuais foram utilizados em pesquisas como cobaias. Alguns morriam durante os experimentos. Em 1944, o médico dinamarquês Carl Vaerner, nazista, testa tratamentos de “inversão da polaridade sexual” com os homossexuais.

Mesmo sob pressão, e arriscando a vida, Brazda ajudava a alimentar os judeus, que não tinham direito a rações extras. Chega a fazer um bolo para os prisioneiros. Um bolo, naquela circunstância, não era imaginável. Por que ele resistiu? Talvez porque tivesse uma grande paixão pela vida.

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