Relatos contados em livros mostram que a versão oficial, que ganhou projeção pela cobertura da Rede Globo, não é a única

Tim Lopes, jornalista investigativo morto no exercício da função em 2002, aos 51 anos | Foto: Reprodução

Na quinta-feira, 2, fez 20 anos que o jornalista Tim Lopes foi sequestrado e morto por traficantes da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Um marco negativo na história do jornalismo brasileiro, que teve como vítima/protagonista alguém cuja função era produzir grandes reportagens de bastidores, sem nunca atrair as câmeras sobre si. Isso apesar de trabalhar para o mais poderoso meio de comunicação do País, a TV Globo, em uma das atividades mais nobres da imprensa: o jornalismo investigativo.

Ainda hoje a morte de Tim Lopes reverbera, de diversas formas. Virou referência quando o assunto é o perigo que a profissão pode conter. O jornalista que arriscava sua vida em pautas nas quais se integrava à cena de que teria de extrair as informações, “vivendo-as”, tornou-se também nome de prêmio – o Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

A história de sua morte, porém, gera controvérsias até hoje por diversas razões. Parte delas foi alimentada por publicações como o livro Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope (Editora Europa, Rio, 2003), de Mário Augusto Jakobskind – morto em 2018, aos 74 anos – que põe várias pulgas atrás da orelha da versão divulgada “de forma única”, segundo ele, pela Rede Globo. Em seu trabalho, Jakobskind afirma que a opinião pública só foi informada sobre o assassinato de Tim Lopes no que interessava à Rede Globo. Diretores da emissora teriam saído a campo vendendo a “verdade” que até os sindicatos da categoria teriam “comprado”. Em suma, o livro denuncia que houve um grande e bem-sucedido esforço da Globo para silenciar uma visão mais crítica sobre o crime contra seu funcionário, de modo a que não fossem contestadas as condições de pressão a que ele foi submetido para executar pautas tão arriscadas.

Em 2017, outro jornalista, Renato Homem, lançou, como coautor, o livro Marcinho Verdades e Posições, em que Marcinho VP, considerado líder do Comando Vermelho, conta sua história. A obra reserva um capítulo à parte para o que o traficante tem a dizer sobre a morte de Tim Lopes. Ele afirmou que o jornalista não teria se identificado aos traficantes que o capturaram como repórter e que seu corpo havia sido jogado no Rio Faria-Timbó, na altura de Manguinhos, ao contrário da versão contada pelos criminosos presos à época, que disseram ter queimado o corpo de Tim no próprio Morro da Grota, com pneus, no que eles chamam de “micro-ondas”. Marcinho contou ao parceiro na publicação que soubera da outra versão por um traficante com quem dividiu a cela em Bangu e que viu a execução.

Renato Homem disse também ter conversado com um traficante que testemunhou o assassinato. Segundo ele, Tim Lopes foi executado com dezenas de tiros após ter sido descoberto filmando o tráfico na Vila Cruzeiro e em nenhum momento teria contado que era repórter investigativo.

Fora do jornalismo, uma grande paixão do gaúcho Tim Lopes (ele nasceu em Pelotas, mas viveu no Rio, a partir dos 8 anos) era o samba. Cresceu no Morro da Mangueira, perto do estádio Maracanã, e chegou a produzir, como jornalista, Lopes produziu uma peça sobre a escola. Tim também fundou um bloco carnavalesco – o Simpatia é Quase Amor, de Ipanema –, foi jurado de desfile de escolas de samba do Rio e era torcedor apaixonado do Vasco da Gama.