Meu querido Lício e minhas queridas Wânia, Nic e Leide. Encontrei vocês dentro de uma antiga edição do romance Emma, de Jane Austen, na prateleira de um sebo. Vocês estavam reunidos em uma foto minúscula, 3x3cm, com aquele colorido bem próprio das fotografias tiradas com câmeras baratas e seus filmes de rolo dos anos oitenta. Um colorido tímido, retraído em sua distância do real, como se entre o olho da lente e vocês quatro, sorridentes no meio da rua, houvesse uma espécie de solenidade cromática, na qual o revelar e o revelar-se ainda estivessem em diálogo e as cores buscassem a liberdade de se expressar sem o compromisso com a fidedignidade. Cores com desejos próprios, ávidas por libertar-se da totalidade de um registro em alta definição, como acontece hoje em dia. Asas de borboletas camuflando-se da predação dos olhos.

No verso da foto havia o nome de vocês e uma data, que suponho seja o dia do encontro dos cinco amigos: vinte e três de dezembro de mil novecentos e oitenta e quatro. Eu disse cinco amigos? Pois é. Não podemos nos esquecer de que uma quinta pessoa fez a mágica acontecer e aprisionou o tempo naquele lapso de segundo entre o escuro e a luz. Não sei se vocês, na hora da foto, refletiram sobre o processo tecnológico em que estavam envolvidos, o de capturar uma imagem, um flagrante, um fragmento de existência.

Permitam-me imaginar que a quinta pessoa teria sido Lúcio, possível irmão de Lício. Lúcio, o luminoso, aquele que traz a luz para dentro da caixinha mágica e a transforma em sonho, em memória, em reminiscência. Pois quando o dedo de Lúcio pressionou o botão da câmera, aconteceu o disparo. A intenção se fez e despertou o gênio adormecido nas engrenagens da máquina. Um leve clic metálico, na curta fração de tempo que dispunha, fez com que se abrisse o obturador da câmera para permitir a entrada da luz. Faça-se a luz! Disse o dedo do criador Lúcio. Na distância dessas quatro décadas consigo ouvir o som do disparo. Seco, indiferente, preciso. Foi lindo.

Aberto o obturador, um pequeno diafragma ajustou a quantidade de luz que entraria e que chegaria até o filme, adormecido dentro da caverna escura. Pensem o filme ainda virgem como a história a ser escrita, um espaço isento de narrativas, um livro em branco, um tesouro cobiçado por escribas ávidos em registrar suas impressões, seus olhares, seus interesses. Não consigo me furtar a imaginar a entrada da luz, ocupando o espaço, produzindo sombras nas paredes de aço, ou alumínio, ou magnésio, não sei ao certo. Os metais costumam ser fortes e suportam forças pesadas. E no jogo de claro e escuro, na medida em que a luz adentra, é possível ouvir o ranger provocado pelo peso das forças antagônicas em disputa pela primazia de deixar sua marca na tessitura sensível da primeira camada da pele do filme fotográfico, composta de cristais de haleto de prata suspensos em gelatina.

Assim a história do encontro de vocês foi contada faltando oito dias para o término do ano de 1984. Foi um dia quente e luminoso aquele vinte e três de dezembro e não faço a menor ideia de que horas davam os relógios. Mas também agora já não importa. As horas, os dias, os anos vão se compactando com o passar do tempo, formando camadas sobrepostas, soterrando as evidências de nossa passagem. O passado tem sempre uma camada de poeira sobre si, e outra, e outra na medida do distanciar do tempo. Que sorte a nossa que nos encontramos pelas mãos de Emma Woodhouse. Não, não foi coincidência, ela era boa em juntar as pessoas. Não podemos nos esquecer também daquela misteriosa pessoa que colocou a pequena foto dentro do livro e fez com que ela transpusesse o portal do tempo e chegasse até 2026 em segurança, num pouso suave e seguro em minhas mãos. O livro é uma máquina do tempo, uma espaçonave de celulose movida a palavras e imaginação.

As coisas mudaram muito nesses últimos quarenta anos, pessoal. Dificilmente vocês poderiam repetir essa viagem da mesma forma e com sucesso. Se o alegre encontro de vocês tivesse acontecido hoje, e não em 1984, passados quarenta anos a foto tirada pelo Lúcio de hoje estaria guardada em um velho celular no fundo de uma caixa, à espera de descarte, se ele ainda não tivesse sido providenciado. Ou, por sorte, estaria guardada na nuvem, que é como chamam hoje um repositório imaginário da nossa existência.

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