A guerra no Irã, que já entrou no seu terceiro mês, proporciona à China que assista de perto o desempenho das tropas norte-americanas em combate, além de garantir uma visão mais detalhada sobre como as capacidades militares dos EUA funcionam sob fogo inimigo.

Foi a partir desta perspectiva que analistas militares e jornalistas especializados em coberturas de guerra e outros tipos de conflitos passaram a discutir, desde a semana passada, sobre um provável enfretamento entre Pequim e Washington que aconteceria no Pacífico pela posse da ilha de Taiwan e o bloqueio de rotas marítimas.

Todos os especialistas chegaram a um consenso sobre três temas: o risco de a China mal interpretar suas próprias forças, sua falta de experiência em combates de qualquer categoria e para sua visão restrita sobre o conflito e suas consequências.

O que a China já entendeu é que precisa se dedicar significativamente para identificar seus pontos fracos na defesa, se quiser garantir invencibilidade em guerras futuras.

O Exército Popular de Libertação expandiu rapidamente sua capacidade de contra-ataque e poder ofensivo nos últimos anos, ao adicionar mísseis em planadores hipersônicos, indetectáveis aos radares e outros tipos de interceptação.

Caças invisíveis, de quinta geração, estão sendo produzidos em ritmo frenético na China. A Força Aérea do EPL pretende disponibilizar, até o fim do ano, pelo menos mil jatos J-20 — equivalente à frota de caças F=-35 da Força Aérea dos Estados Unidos. A ideia é que o país esteja preparado para ataques precisos de longo alcance.

Os chineses também estão desenvolvendo um bombardeiro de longo alcance, também com capacidade de se tornar “invisível” aos radares, semelhante ao B-2 ou ao B-21 da Marinha americana.

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Donald Trump e Xi Jinping: o mais certo é que EUA e China caminharão por vias diferentes | Foto: Reprodução

Defesa ainda escassa

Se para o ataque, a qualquer momento, a China parece estar quase pronta, quando o assunto é defesa, as forças do país deixam muito a desejar — em comparação com a capacidade de defesa e retaliação da única superpotência militar do mundo: os Estados Unidos.

Os especialistas observam que, apesar de o Irã ter conseguido furar a defesa aérea americana no Golfo utilizando tecnologia primitiva como os drones Shahed de baixo custo e mísseis balísticos de custo ainda menor, a campanha aérea dos EUA contra o Irã, utilizando equipamentos infinitamente mais sofisticados como os F-35 e os B-2, foi devastadora. Além da utilização em massa de armamentos mais baratos, com menos tecnologia como os B-1, B-52 e os F-15. Foi o suficiente para destruírem tudo. Toda capacidade militar do Irã foi reduzida a pó, desde lançadores de mísseis a navios de guerra, submarinos e pontes.

Esta, segundo os analistas, é uma situação para qual Pequim ainda não está preparada.

O Estreito de Taiwan

Taiwan é vista, por especialistas, como ponto de inflexão que levará o dragão e a águia ao enfrentamento. Reunificar a ilha com democracia autônoma ao território chinês é uma promessa do Partido Comunista Chinês e para isso o líder Xi Jinping não descarta o uso da força.

Em Taiwan, observadores acreditam que a China já possui um exército capaz de rivalizar com os Estados Unidos em armamentos de alta tecnologia e precisão assim como o Irã com o uso de drones de baixo custo, mas com capacidade destrutiva considerável.

Mas isso não é suficiente para a China vencer um conflito no Estreito de Taiwan.

A China é o maior fabricante mundial de drones militares, e sua capacidade de produção impressiona: cem milhões de drones armados em estoque, afirma um relatório de 2025 sobre o programa de drones chinês.

Taiwan não está preparada para esses números. E um enxame como esse é uma ameaça à segurança nacional do país, principalmente à sua infraestrutura crítica e bases militares. Mas também não estão parados. O risco iminente levou os taiwaneses à produção em massa de drones como contramedida.

Os EUA no Pacífico

Os Estados Unidos também estão aprendendo com o conflito no Irã e reconhecem que numa guerra no Pacífico as estratégias serão outras, tanto de ataque como de defesa.

Os drones tornam as guerras muito mais dispendiosas para o lado ofensivo. Se houvesse um conflito em torno de Taiwan, a ilha ou EUA poderiam utilizar drones para atacar navios ou aeronaves chinesas que transportassem centenas de milhares de soldados do Exército Popular de Libertação pelo Estreito de Taiwan para um assalto e na sequência ocupação.

Navios e aviões são muito mais caros do que um mísero drone capaz de destruí-los. Esse é um fator que está em evidência na Guerra do Irã, onde a Marinha dos EUA, cautelosa, diante da guerra assimétrica do inimigo, evitou enviar navios através do Estreito de Ormuz para o Golfo Pérsico. E é certo que Pequim tomou nota disso para repetir a ação com milhares de drones no ar na água e sob o mar, se for preciso, do Estreito de Taiwan.

As lições que vem do Oriente Médio

Uma coisa é certa: o inimigo, seja quem for e de que lado estiver, está aprendendo com as ações militares que acontecem, há três meses, no Irã. E pode aplicar o aprendizado forma inesperada.

O que se vê, na guerra do Irã, é que vitórias táticas não geram resultados políticos. Para a China isso reforça uma lição fundamental: o sucesso no front de batalha não representa resultado final de uma disputa.

A China não possui experiência em combate. O Exército Popular de Libertação não enfrenta fogo inimigo desde a guerra contra o Vietnã em 1979.

Desde então, as forças americanas já enfrentaram longas campanhas no Iraque, Afeganistão, bem como rápidas ações em países como o Kosovo e o Panamá e, agora, o Irã. Estão mais que preparados, já o ELP, sob fogo inimigo, talvez não se sabe sua capacidade de adaptação a algo semelhante vivido pelas forças do regime iraniano.

A última vez que os EUA e a China se enfrentaram foi na guerra da Coreia. Os chineses tinham caças mais avançados, mas os pilotos norte-americanos eram melhores, apesar das aeronaves inferiores, porque traziam com eles a experiência adquirida na Segunda Guerra Mundial.

A lição: um excelente piloto num avião medíocre, vencerá um piloto medíocre num excelente avião.