A decisão dos Emirados Árabes Unidos (EAU) em romper com o cartel petrolífero comandado pela Arábia Saudita reverbera por todo o planeta como um tsunami que surge logo após grandes terremotos.

Trata-se do início de uma nova ordem que chega para alterar as coisas, há muito, estabelecidas no Golfo.

O apoio militar que Abu Dhabi recebeu de Jerusalém, durante a guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, materializou-se numa decisão de independência energética que automaticamente se agrega ao Estado Judeu, e que vai aproximar ainda mais os dois países. Ambos dispostos a aprofundar suas relações comerciais, de segurança e energia, algo que vai muito além do que previu os Acordos Abraãmicos, mas que vai bem de acordo com estratégia trumpista para o comércio mundial de petróleo.

Não se trata de um simples fato histórico. Ao deixar pra trás a Opep e Opep+, os EAU desafiam a hegemonia saudita no Golfo.

O “divórcio” bilionário dará, automaticamente, aos Emirados a possibilidade da flexibilização na exploração do óleo e liberdade comercial absoluta.

A partir de agora, Abu Dhabi poderá negociar o produto com quem quiser, sem as amarras impostas pelo cartel do qual fazia parte, que impunha códigos disciplinares coletivos para as transações comerciais do petróleo.

No entanto, no Oriente Médio, especialmente no Golfo, “a banda toca diferente” porque os Emirados não estão apenas saindo de um “clube” restrito. Está dizendo com todas as letras que Riad não dita mais as regras na região.

Há décadas que a Opep impõe uma dura regulamentação à exploração de petróleo, produção e comercialização do óleo e seus derivados.

As diretrizes impostas pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo não se restringem somente à quantidade de barris bombeados diariamente dos poços de petróleo.

Do subsolo às refinarias, a Opep segue um manual draconiano de disciplina para controlar o comércio mundial do “ouro negro”. Os produtores têm de se submeter aos limites colocados pela Organização, manter as disputas internas a portas fechadas e “parecer” sempre unidos — mesmo que os países rivais saibam a verdade sobre as boas relações de fachada entre os países que formam o grupo. Os Emirados Árabes Unidos acabam de tirar a máscara escancarar o que todos sabiam, mas ninguém se atrevia a revelar.

Quando um país, com capacidade de produção e exportação energética como os Emirados, vira as costas, sua ação acaba se tornando inspiração para que outros façam o mesmo e questionem por que devem continuar seguindo as ordens que vem da Arábia Saudita.

A Opep não vai se enfraquecer porque, a partir de hoje, o preço do petróleo vai colapsar, mas porque o mito sobre o comando da Organização foi abalado.

O mercado não responde somente à produção. Ele responde também pela confidência, e a mensagem de Abu Dhabi é clara: o jogo mudou e o cartel não dita mais as regras.

A saída dos EAU também é o anúncio de que o país não vai mais subordinar sua estratégia nacional às demandas dos sauditas, e que está disposto a quebrar padrões e estabelecer novas relações que sirvam aos seus interesses e não mais os de um cartel.

Ao deixar a Opep, os Emirados encerram um capítulo que poderá marcar o início de outro, em sua história, que pode significar a alteração da ordem que vai estabelecer um Golfo mais flexível. O mundo, com o Golfo incluído, está mudando — e rapidamente. Os pilares dominantes, como o da Arábia Saudita, estão sendo questionados. As potências — Estados Unidos e China — certamente estão de olhos abertos.