Foram 40 dias em silêncio. Durante o período da guerra entre os Estados Unidos e o Irã, a China condenou alguns ataques pontuais, mas em geral preferiu não adotar nenhuma posição sólida. A estratégia do silêncio adotada por Pequim tinha o objetivo de evitar o desgaste com seu maior rival, e isso incluiu amenizar a retórica sobre Washington em relação ao conflito com o Irã, desconversou sobre as questões que incluem interesses americanos no sudoeste asiático, principalmente Taiwan. Apesar de estar totalmente envolvida nas tentativas de encerrar a guerra no Oriente Médio, o país do comunista Xi Jinping preferiu trabalhar incógnito nos bastidores.

Tudo isso mudou na terça-feira, 14, quando a China criticou duramente a decisão do presidente Donald Trump de impor um bloqueio naval ao Irã, fechando o Estreito de Hormuz, por onde a nação asiática compra 90% do petróleo exportado pelo regime islâmico (note-se que o governo brasileiro aumentou as exportações de petróleo para a China). O ministro de relações exteriores da China classificou a ação como “perigosa e irresponsável”. O presidente Xi Jinping, em sua primeira manifestação pessoal sobre a guerra, alertou sobre a volta da “lei da selva”.

Durante recente encontro com o presidente Mohammed bin Zayed, dos Emirados Árabes Unidos, o líder chinês não fez menções diretas a Trump ou aos Estados Unidos. Mas reiterou que a lei internacional não pode ser seletiva ou ignorada quando conveniente. Sem apontar o dedo, todos sabiam que a mensagem era para o presidente americano, que no começo deste ano disse que não precisa de lei internacional para agir quando e como quisesse.

Durante a guerra, Trump convocou dezenas de países, entre eles a China, para que enviassem forças navais à região do Golfo para ajudar os EUA na operação de reabertura do Estreito de Hormuz.

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Estreito de Ormuz: o caminho do petróleo e do gás para o mundo | Foto: Reprodução

A China ignorou o chamado porque teria que agir contra um país aliado e, ao contrário de muitas nações que foram afetados com o bloqueio de Hormuz pelo Irã, mesmo durante o conflito continuou importando óleo iraniano. De acordo com as agências internacionais, durante a guerra, o Irã conseguiu exportar 58 milhões de barris de petróleo e quase tudo destinado à China.

O bloqueio americano na entrada do Estreito de Hormuz é uma tentativa de os Estados Unidos pressionarem a China a usar sua influência sobre o Irã para um acordo definitivo.

O setor energético chinês é altamente diversificado — até mesmo nas questões domésticas. O que permite que o país não seja afetado por uma crise global do petróleo.

Além disso, a China possui reservas estratégica que garantem o abastecimento por 100 dias. Mesmo assim, os efeitos da guerra podem ser sentidos no país asiático — com o aumento no preço do combustível, das passagens aéreas e do transporte em geral. E já há notícias de que o país autorizou refinarias a usarem algumas reservas estratégicas devido ao prolongamento do conflito.

O petróleo representa 18% do consumo energético da China e o fechamento do Estreito de Hormuz traz impactos. Cerca de metade do óleo que abastece o país é importado dos países do Golfo e 1/6 do gás natural também vem de lá. O petróleo iraniano representa 13% das importações chinesas e o bloqueio imposto pelos Estados Unidos deverá causar estragos à sua economia.

China forçou o Irã a cessar-fogo

Há sinais de que a pressão sobre a China está fazendo algum efeito. O país já aparece na cena diplomática como um dos mediadores junto com o Paquistão, que tenta encontrar uma solução definitiva para o fim do conflito. De acordo com diplomatas paquistaneses, foi a China que forçou o Irã a aceitar o acordo de cessar-fogo.

A decisão dos Estados Unidos em bloquear Hormuz deixou os chineses bem nervosos — temem uma recessão econômica interna, o que poderá gerar revoltas — e pode ser um empecilho nos esforços para estabilizar a relação entre os dois países, durante a visita de Donald Trump à China prevista para o mês que vem. Será a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos visita a China desde que Donald Trump se encontrou com Xi Jinping em Pequim, em 2017.

Analistas acreditam que os dois países têm interesse em estabelecer relações mais amigáveis em todos os campos, após um ano de tensão desde que Trump resolveu taxar quase o mundo inteiro com o aumento das alíquotas de importação e exportação.

Trump vem dizendo que espera uma recepção calorosa quando pousar na China, mas enfatizou que a cooperação entre os dois países é o preferível, mas salientou que os Estados Unidos estão prontos para o conflito se necessário.

Além da pressão americana, a China tem grande interesse em evitar a escalada do conflito porque nos últimos anos investiu mais de US$6,5 bilhões em infraestrutura não somente no Irã, mas em todos os países do Golfo Pérsico (como se sabe, a China tem um banco, similar ao Mundial, que empresta dinheiro para países de quase todas as regiões do mundo). Com a guerra, parte disso já foi destruído e os chineses não aguentam mais tanto prejuízo.