Uma das mulheres que denunciaram o ginecologista Marcelo Arantes e Silva por supostos abusos sexuais relatou ao Jornal Opção detalhes do que afirma ter vivido durante uma consulta médica. Segundo a Polícia Civil, ao menos cinco vítimas formalizaram denúncias, e os casos investigados teriam ocorrido em clínicas de Goiânia e Senador Canedo.

No relato, a vítima afirma que os primeiros sinais de conduta inadequada começaram ainda no contato inicial. “Primeiro, ele abraça a gente muito forte. Ele abraça a gente muito forte, um abraço muito demorado, que não é comum, não é normal”, disse.

Segundo ela, o comportamento continuou durante o atendimento. “Somos mulheres, sabemos que aquilo ali não faz parte da consulta médica.”

Ela também conta que uma pergunta feita pelo médico a deixou constrangida. “Eu percebi também pela pergunta indiscreta que ele fez pra mim. Não cabia naquele momento, me deixou completamente constrangida.”

A mulher diz que, apesar de entender que algo estava errado, não conseguiu reagir. “Eu estava sem roupa, numa posição completamente vulnerável. Eu me senti completamente violada, porque eu não tive forças pra fazer nada. Tudo que ele falava pra eu fazer, eu fazia.”

Segundo a vítima, o comportamento do profissional não ocorreu de forma agressiva, o que aumentou a confusão emocional diante da situação. “Ele não veio agredindo. Ele vem de forma gentil, sabe? Mas em momento nenhum eu tive dúvidas de que o que ele estava fazendo não estava certo.”

Ela afirma ainda que, ao fim do atendimento, tentou se afastar. “Quando ele terminou, eu ainda sem roupa, ele veio tentando me ajudar a levantar da maca, quis vir me abraçar de novo. E eu já corri pra dentro do banheiro.”

Assista o relato completo da vítima em vídeo no Opção Play. Clique aqui.

Silêncio e medo

Após o episódio, a vítima conta que permaneceu calada por um longo período. “Eu fingi que não tinha acontecido nada. Eu não falei nada, eu não tive coragem. Eu fiquei completamente calada e fingi que nada tinha acontecido.”

Ela afirma que só conseguiu formalizar a denúncia depois de conversar com outras mulheres que relataram experiências semelhantes. “Se não fosse pelas outras mulheres conversarem comigo e terem ido comigo junto na delegacia, eu não teria feito isso, de forma alguma.”

Para a denunciante, o surgimento de novos relatos reforça a necessidade de investigação. “Olha o tanto de gente que já está aparecendo. É porque tem muita gente que não tem coragem de fazer isso.”

Crítica à falta de prisão preventiva

A vítima também criticou o fato de a Justiça não ter decretado prisão preventiva no início do caso. “Eu fiquei sem entender por que a Justiça não concedeu uma prisão preventiva logo de cara. Porque não foram só uma, duas, são cinco mulheres.”

Ela também afirmou que casos como esse costumam ser invisibilizados. “Isso não é um crime forçado, não é um crime violento. É um crime velado dentro de uma clínica que deixa a gente exposta.”

Apelo a outras mulheres

Ao final da entrevista, a mulher fez um apelo para que outras possíveis vítimas procurem a Delegacia da Mulher. “Eu queria que você, mulher, que sabe o que aconteceu com você: a gente precisa unir forças, a gente precisa denunciar.”

Ela disse ter sido acolhida ao buscar ajuda. “Fui muito bem atendida lá, muito acolhida.”

E concluiu pedindo solidariedade entre mulheres e coragem para romper o silêncio. “Isso acontece todos os dias, o tempo todo. Se a gente não unir as nossas forças, isso vai continuar acontecendo. A gente precisa estar juntas para que outras mulheres não passem por isso.”

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