Os supostos abusos sexuais cometidos pelo médico ginecologista Marcelo Arantes e Silva tinha anuência de outros colegas da profissão, que não denunciaram a prática a polícia, segundo apurado pelo Jornal Opção. Segundo a Polícia Civil (PC), pelo menos cinco vítimas foram abusadas e os crimes eram praticados dentro de e clínicas médicas nas cidades de Goiânia e Senador Canedo.

Por isso, a delegada responsável, Amanda Menuci, autorizou a divulgação do nome e da imagem do profissional. O objetivo, segundo a polícia, é justamente encorajar outras mulheres que tenham passado por situações semelhantes a procurarem a delegacia para formalizar denúncia.

A investigação começou há exatos 40 dias. Contudo, os registros de violência sexual remontam a 2017, quando ocorreu o primeiro caso identificado. Até o momento, a polícia já localizou cinco vítimas: quatro em Goiânia e uma em Senador Canedo. Ademais, as autoridades afirmam que o número real de pacientes abusadas pode ser muito maior, considerando o longo período de atuação do suspeito e a reiteração criminosa.

Inclusive, a Deaem já finalizou dois inquéritos anteriores, referentes aos crimes de 2017 e 2020, e os enviou ao Poder Judiciário. Recentemente, entre 2025 e 2026, surgiram mais três novas vítimas.

O médico atendia em três locais. Segundo a polícia, ele trabalhava no Instituto de Medicina Canedo (em Senador Canedo), onde ocorreu um dos abusos. Além disso, atuava no Centro Médico Campinas, em Goiânia, local de quatro abusos confirmados. E também mantinha atendimento na Clínica Humana, também na capital. Nesta, até o momento, sem nenhum caso formalizado à polícia.

Por meio de nota, a Clínica Humana esclarece que o médico Marcelo Arantes e Silva “nunca integrou seu corpo clínico, não possuindo qualquer vínculo com a instituição.” Ainda segundo o texto, o médico “atuou de forma pontual e esporádica e utilizou as dependências da clínica exclusivamente para realização de procedimentos específicos em centro cirúrgico, na condição de médico externo, não tendo realizado atendimentos ou consultas nas dependências da instituição.”

“A Clínica Humana reafirma que não possui qualquer responsabilidade sobre os fatos noticiados, bem como informa que não há autorização vigente para utilização de suas instalações pelo referido profissional. A instituição reitera seu compromisso com a ética, a segurança dos pacientes e o rigoroso cumprimento das normas legais”, finalizou o texto.

O Jornal Opção entrou em contato com as outras duas clínicas onde o médico atua. Para isso, deixamos mensagens no WhatsApp de atendimento das clínicas e realizamos ligações. No entanto, até a finalização desta matéria, não houve retorno. 

A reportagem não localizou o advogado do ginecologista, mas o espaço segue em aberto. Este texto será atualizado com os devidos posicionamentos quando recebidos.

Médico se aproveitava da posição de confiança para cometer abusos, diz delegada

Durante coletiva de imprensa nesta quinta-feira, 16, a delegada adjunta da Deaem, Amanda Menuci, detalhou o modus operandi do investigado. “As investigações demonstraram relatos consistentes desde o ano de 2017 até agora, em 2026, de uma conduta totalmente antiética”, afirmou.

Conforme explicou a delegada, o médico primeiro tentava ganhar a confiança das pacientes. “Então, as primeiras consultas normalmente eram marcadas por toques físicos indesejados, perguntas inapropriadas, questões sexuais sobre parceiros, sobre vida íntima da paciente”, completou.

Em seguida, segundo a polícia, a escalada criminosa se intensificava. “Após ultrapassar essa questão inicial, iniciavam-se os atos libidinosos propriamente ditos”, detalhou Amanda. Entre os comportamentos denunciados, estão exames realizados sem luvas, procedimentos desnecessários sem indicação médica e perguntas de teor sexual durante os toques.

“Por exemplo, realização de exame de toque enquanto perguntava coisas de teor sexual. Se a vítima estava gostando, inclusive, daquilo, se ela se sentia confortável naquele momento, se estava tendo prazer naquele ato”, relatou a delegada.

O caso mais grave, de acordo com as apurações, envolve uma das vítimas que teria sofrido um ato final de sexo oral dentro do consultório. A delegada classificou o ginecologista como “um verdadeiro predador sexual, que faz do ambiente clínico um local de vulnerabilização das vítimas, se aproveita dessa autoridade médica que ele tem sobre elas, e que ainda está à solta”.

Justiça nega prisão preventiva 

Apesar da gravidade dos fatos, o Poder Judiciário indeferiu o pedido de prisão preventiva feito pela Polícia Civil. A Deaem havia solicitado a prisão para garantir a ordem pública e o andamento das investigações. Porém, tanto o Ministério Público quanto o Judiciário entenderam pela não concessão. Em vez da prisão, a Justiça determinou medidas cautelares.

Entre elas, estão a proibição de contato com as vítimas nominadas nos autos, o afastamento da comarca e a comunicação ao Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) para a suspensão do cadastro do médico.

A delegada Amanda Menuci demonstrou surpresa com a decisão. “Foi uma surpresa porque em todos os outros casos semelhantes, de médicos que atuavam da mesma forma, nós tivemos as prisões decretadas”, afirmou. Ela também criticou a mensagem que a negativa do pedido de prisão pode enviar às vítimas e a sociedade.

“A sensação que passa é que descredibiliza a palavra das vítimas e traz medo desse médico. É algo de temor das leis, da justiça e falta de respeito às vítimas”, declarou. Adicionalmente, a delegada revelou que o investigado ainda não foi nem notificado ou intimado das medidas cautelares. “Continua sua atuação normal e agora é esperar a justiça”, lamentou.

Vítimas relataram terror e abuso na frente de filha adolescente

A delegada também descreveu o estado emocional das pacientes ao prestarem depoimento. “Um verdadeiro terror, vítimas traumatizadas”, afirmou. “Eram vítimas que estavam extremamente abaladas, com medo, algumas delas iam relatando fatos novos no decorrer da declaração, que não tinham trazido ainda à tona, que nunca tinham revelado a ninguém, totalmente de foro íntimo”, completou.

Um dos relatos mais impactantes para a delegada envolve uma paciente que foi abusada mais de uma vez. Em uma consulta posterior, ela levou a própria filha adolescente como acompanhante na tentativa de cessar os abusos. No entanto, o médico não se intimidou com a presença da jovem.

“Acabou praticando novos atos libidinosos, que trouxeram ainda mais um sentimento de desconforto para a mulher, para a vítima, que teve que ainda ser abusada na frente de sua filha”, detalhou a delegada.

Por que o crime é classificado como estupro de vulnerável?

A Polícia Civil investiga o ginecologista pelo delito de estupro de vulnerável. De acordo com a delegada, a classificação vai além de “mera violação sexual mediante fraude”. “Naquele local, no ambiente clínico onde elas eram colocadas, elas estavam em completo estado de vulnerabilidade, incapazes de oferecer resistência, até pela posição física que elas ficavam, a posição ginecológica, que elas ficam com as pernas abertas, muitas vezes até presas”, explicou.

Além disso, ela destacou o fator psicológico: a autoridade médica e a inferioridade técnica das vítimas criam uma linha tênue entre o que é procedimento clínico e o que é abuso. “Na maioria dos relatos, ele trancava a porta do consultório”, acrescentou.

Delegada pede que novas vítimas procurem a polícia

A Deaem reforça que o sigilo das vítimas é garantido. Por isso, mulheres que reconhecerem o ginecologista e desejarem relatar abusos podem procurar qualquer unidade da Delegacia da Mulher ou entrar em contato pelos canais oficiais da Polícia Civil de Goiás.

“Quanto maior o número de denúncias, maior a responsabilização desse homem, maior o afastamento será rápido dele”, concluiu a delegada Amanda Menuci.

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