Marconi Perillo voltou ao jogo eleitoral tentando vender ao eleitor goiano a ideia de que representa “legado”, experiência e capacidade de gestão. Na convenção que oficializou sua candidatura ao governo de Goiás, resumiu a disputa entre “legado e improviso”. O problema é que, quando se fala em legado, é preciso lembrar também o que ficou para trás.

Marconi governou Goiás por quatro mandatos. Portanto, não pode se apresentar como alguém que apenas observa os problemas do Estado. É um dos responsáveis pela história recente de Goiás — pelos acertos e pelos erros. E um dos episódios que não pode ser apagado da memória é a situação fiscal deixada ao fim de seu último governo. O Tribunal de Contas chegou a recomendar a rejeição das contas de 2018, apontando problemas como déficit, restos a pagar sem cobertura financeira e outras irregularidades fiscais. Depois, a decisão foi revista, e as contas passaram a ter recomendação de aprovação com ressalvas. A ressalva, porém, continua fazendo parte da história.

A Celg também entra nessa conta. A companhia foi privatizada durante o governo Marconi em uma operação que envolveu cerca de R$ 1 bilhão. A justificativa era utilizar os recursos em investimentos e infraestrutura. Uma decisão dessa dimensão merece ser discutida pelo resultado entregue ao Estado, e não transformada simplesmente em propaganda de eficiência administrativa.

Há ainda uma contradição recorrente na política de Marconi: ele critica duramente governos que vieram depois, especialmente Ronaldo Caiado, mas parece querer que o eleitor esqueça que também teve anos suficientes para resolver muitos dos problemas que hoje aponta. Criticar Caiado é legítimo. O que não é legítimo politicamente é usar os erros do adversário como se eles apagassem os próprios.

Marconi aposta também na memória. Só que memória política não funciona como propaganda eleitoral. O eleitor pode lembrar das obras, mas também pode lembrar das crises, das dificuldades financeiras e das escolhas feitas durante os quatro mandatos.

E existe uma pergunta inevitável para quem pretende voltar ao Palácio das Esmeraldas: se Marconi teve quatro mandatos para colocar em prática seu projeto de Estado, por que o eleitor deveria acreditar que agora será diferente?

Experiência pode ser uma qualidade. Mas também significa responsabilidade. Quem já governou quatro vezes não pode apresentar a própria experiência apenas como currículo. Ela também precisa ser apresentada como prestação de contas.

Por isso, a eleição de 2026 pode colocar Marconi diante de uma escolha incômoda: contar novamente a história que gostaria que Goiás lembrasse ou enfrentar a história completa — inclusive as contradições, os problemas fiscais, a privatização da Celg e as decisões que marcaram seus governos.

O eleitor não precisa escolher entre legado e improviso. Antes disso, pode simplesmente perguntar: legado para quem, e a que preço?

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