“CPI do Banco Master” vira palco político e esquece o crime organizado
15 abril 2026 às 13h51

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Após mais de quatro meses de funcionamento, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado do Senado encerrou os trabalhos sem cerimônia: sem relatório final, sem indiciamentos e sem qualquer responsabilização concreta.
Foram dezenas de reuniões, entre sessões ordinárias, oitivas e deliberações. O volume de encontros, contudo, não se traduziu em resultados.
Instalada uma semana antes da primeira operação da Polícia Federal (PF) envolvendo o Banco Master, a CPI perdeu rapidamente o foco. O que deveria ser uma frente de investigação sobre facções criminosas e suas estruturas financeiras foi gradualmente capturado por disputas ideológicas. O desfecho sintetiza essa distorção: um relatório que chegou a propor o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República — alvos alheios ao escopo original da comissão.
Temas centrais, como a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), foram relegados a segundo plano. Em seu lugar, a CPI transformou-se em arena de confronto político, distante das prioridades reais da segurança pública e da vida cotidiana da população.
Não se trata de desconhecimento. Como aponta a colunista do Intercept, Cecília Olliveira, o país há décadas sabe que o crime organizado não opera à margem do Estado, mas, em muitos casos, em conexão com ele. O tráfico de armas, a lavagem de dinheiro e outras engrenagens dessas organizações prosperam em ambientes marcados por falhas institucionais e corrupção sistêmica.
Ignorar esse diagnóstico e insistir em abordagens superficiais é optar pela ineficácia. O enfrentamento do crime organizado exige reformas estruturais na educação, economia, política e no próprio aparato estatal. Sem isso, qualquer iniciativa tende a ser paliativa.
O resultado da CPI expõe mais do que a incapacidade de produzir soluções, mas também revela a dificuldade da Federação em tratar com seriedade um dos problemas mais persistentes do país.
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