Herbert Moraes
Herbert Moraes

Rede de intrigas

A morte de um terrorista expõe as ligações perigosas entre o Irã e a administração de Barack Obama

Mustaffá Bradeddine: o mais perigoso terrorista ligado ao Hezbollah foi morto por milícias rebeldes | Foto: Reuters

Mustaffá Bradeddine: o mais perigoso terrorista ligado ao Hezbollah foi morto por milícias rebeldes | Foto: Reuters

Pouco mais de cinco anos atrás, no começo da Pri­ma­vera Árabe, os sírios foram às ruas para protestar, pacificamente, contra o governo ditatorial de Bashar al- Assad, que há mais de 40 anos oprimia seu povo em favor de uma minoria: os alawitas. O ditador respondeu brutalmente, e em maio de 2011 enviou tanques de guerra e soldados aos subúrbios de Damasco, Daara, Homs e outras cidades para abafar e eliminar seus críticos e adversários. Começava aí a guerra civil que destruiu o país.

Naquela época, especialistas e analistas em conflitos armados previram que os rebeldes levariam a melhor. O número de sírios dispostos a lutar contra o governo era impressionante, praticamente um exército sunita de insatisfeitos, que apesar de desorganizado, tinha muito mais contingente do que Assad e sua minoria alawita. O ditador contava apenas com poucas tropas, não muito fiéis a ele. Foi durante esse período que jihadistas sunitas começaram a entrar na Síria para lutar junto aos rebeldes. Entre eles havia alguns grupos ligados à Al Qaeda, e foi uma dessas milícias que depois acabou se tornando o grupo Estado Islâmico.

A guerra se intensificou com o passar dos anos e o conflito tomou um rumo que poucos esperavam. O Irã ,com seu exército de jihadistas xiitas, passou a apoiar publicamente e proteger Bashar al-Assad, que foi reconhecido como o maior parceiro e aliado dos Ayatolás no mundo ára­be. Foi aí que o Hezbollah, o grupo xi­ita libanês que controla o sul do Lí­bano e é um satélite iraniano na re­gião, foi acionado para entrar na guer­ra. O Irã determinou que a milícia enviasse jihadistas para lutar junto às tropas do ditador sírio e defendê-lo.

Há duas semanas o grupo libanês sofreu sua maior baixa. Mustaffá Bradeddine, 55, comandante militar das operações do Hezbollah na Síria, morreu numa explosão próximo ao aeroporto de Damasco. Em princípio o grupo acusou Israel pelo ataque, mas logo depois foi revelado que o Bradeddine foi alvo da artilharia de milícias rebeldes.

Durante o funeral, em Dahia, região controlada pelos xiitas no sul de Beirute, foram expostos cartazes e fotos de Bradeddine vestido com uniforme militar e sorrindo: um “shahid” ou mártir feliz. E por que não estaria? Quando não estava lutando a jihad, Bradeddine levava a vida de um playboy, tinha várias amantes e sempre que podia realizava festas nada convencionais para um “comandante religioso” em sua mansão com vista para o mar ao norte de Beirute, numa cidade cristã chamada Jounieh.

Homens e mulheres que frequentavam sua casa durante essas “festinhas” não sabiam quem era de fato Bradeddine, que em Jounieh era conhecido por ser dono do maior veleiro do porto e usava outra identidade. Os moradores locais o chamavam de “Sami Issa”: um negociador de jóias cristão que dirigia uma Mercedes Benz. Essa era apenas uma das identidades do comandante militar do Hezbollah. Bradeddine não tinha nada em seu nome, nem mesmo documentos. Tudo era falso. Sabe-se também que o libanês era frequentador assíduo do Casino du Liban, onde nos anos 60 Frank Sinatra e Brigitte Bardot também se divertiram.

Mustaffa Bradeddine era considerado um dos maiores terroristas vivos do mundo, e tinha uma alter ego explosivo. Em 2005, o ex-primeiro-ministro libanês Hafic Hariri, que era um voz oponente a interferência da Síria nos assuntos do Líbano, foi assassinado. Duas mil e 200 toneladas de explosivos foram colocados no trecho por onde passaria seu comboio em Beirute. O atentado destruiu cinco quarteirões. Em 2011 um tribunal internacional condenou Bradeddine por ser o mentor do ataque.

A carreira de terrorista internacional de Mustaffa Bradeddine começou na adolescência e suas conexões familiares o ajudaram. Seu primo e cunhado era Imad Mughniyeh, ex-líder militar do grupo xiita que morreu num ataque israelense em 2008. Os dois planejaram e executaram juntos ataques a bases americanas em Beirute que mataram 241 soldados. Outros atentados vieram em se­quência. O terrorista atacou as embaixadas dos Estados Unidos e da França no Kuwait, o que lhe rendeu alguns anos de cadeia no país.

Num esforço para libertá-lo, Mughnieh passou a realizar se­questros de cidadãos de países ocidentais em Beirute assim como de aviões, entre eles o voo 847 da TWA, quando um mergulhador do exército americano que estava no avião foi torturado e morto com um tiro na cabeça e o corpo jogado na pista do aeroporto internacional de Beirute. Em 1990 Saddam Hussein invadiu o Ku­wait. As penitenciárias foram abertas e os prisioneiros fugiram. Di­plo­matas iranianos ajudaram Bra­deddine a voltar para o Líbano on­de ele se juntou novamente a Mu­gh­nieyh. Nos últimos anos, os dois fo­ram responsáveis por transformar a mílicia xiita libanesa que atende pelo nome de Hezbollah ou “partido de Deus” numa poderosa má­quina de guerra, muito mais po­tente do que o próprio exército libanês.

Em 2008 Mugahniyeh foi assassinado em Damasco numa operação do Mossad, o serviço secreto israelense. Bradeddine foi apontado como seu sucessor. Dois anos de­pois, o chanceler iraniano Mohamad Zarif, que era considerado um “moderado” pelo governo de Barack Obama, foi a Beirute e colocou uma coroa de flores no túmulo de Mu­ghnieh. Um dia depois da morte de Braddedine, numa mensagem ao Hezbollah, Zarif repetiu o gesto, lamentando a morte do jihadista, que segundo ele “morreu defendendo os ideais do Islã”.

Os Estados Unidos tiveram que vir a público para dizer que não compartilhavam com comentários de Zarif sobre Bradeddine, e ainda reiteraram que o Hezbollah é considerado um grupo terrorista.

Enquanto isso, o secretário de Estado americano John Kerry, na semana passsada trabalhava “duro” para que o Irã estabelecesse laços co­merciais com a Europa. Os ayatolás têm reclamado que o país ainda não se beneficiou, como deve­ria, depois do histórico acordo nu­clear com os EUA e outras potências.

Um membro desconhecido do Conselho Jihadista do Hezbollah assumiu o lugar de Bradeddine na semana passada. Todos os indicados para o posto são terroristas segundo o De­par­tamento do Tesouro Americano, que proíbe que nomes ligados ao terrorismo possam realizar qualquer transação bancária não só nos EUA mas também pelo mundo. Nenhum deles têm o “currículo” de Bra­deddine e Mughanyieh, mas sabe que vão continuar sendo financiados pela República Islâmica do Irã. Pelo menos enquanto Obama estiver na Casa Branca os terroristas sabem que o caminho está livre e muito bem pavimentado.

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