Herbert Moraes
Herbert Moraes

Quem vai salvar a Síria?

Presidente norte-americano não dá mostras de que vá enviar tropas para lutar contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque

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Jornal francês “Charlie Hebdo” e o cartoon que deprecia todo um povo

Há três meses o mundo ficou cho­cado com a ima­gem do menino sírio de apenas 3 anos, morto, à beira da praia, na costa turca. Alan kurdi, a mãe dele e a irmã morreram na travessia que acontece diariamente entre a Turquia e a Grécia. Quando o bote virou, apenas o pai do garoto conseguiu se salvar.

Na semana passada, Alan voltou à midia, mas dessa vez na forma de um cartoon, nas páginas do jornal francês “Charlie Hebdo”.

“O que se tornaria o pequeno Alan se ele tivesse crescido?” questiona a publicação na capa. O desenho é brutal: mostra um “Alan” adulto, com rosto de porco, correndo atrás de uma mulher europeia, tentando apal­pá-la. O “Charlie Hebdo” foi criticado no mundo inteiro, principalmente pelos refugiados, que viram no cartoon uma forma de depreciação coletiva contra um povo que perdeu suas casas, famílias e propriedades. Mas sabe como é, a liberdade de expressão é sagrada na França.

Quando você faz uma “bus­ca” pelo nome do cartunista Riss, que ficou ferido no massacre ao “Charlie Hebdo” há pouco mais de um ano, curiosamente, fotos de outras crianças, também vítimas da guerra civil na Síria, aparecem ao lado da dele. São imagens tristes, de meninos e meninas fa­min­tos, raquíticos, que se sobreviverem ao inferno, quando crescerem certamente não terão condições de se tornarem estu­pradores.

O centro de informações da cidade de Moadamyia, a oeste de Damasco, diariamente posta fotos chocantes que revelam como as crianças dessa e de outras cidades sírias estão morrendo. Numa delas, três bebês com poucos meses de vida, estão “pele e osso”. A barriga deles desapareceu. Leen, Yousef e Maaran estão desnutridos, as mães dos bebês não têm leite e os remédios acabaram. Todas elas sabem que seus filhos estão com os dias contados.

O destino de Moadamyia é o mesmo de Madaya, que conseguiu atenção da mídia mundial depois que 30 moradores morreram de inanição. A situação de calamidade correu o mundo, e a cidade conseguiu receber ajuda humanitária na semana passada. No entanto, calcula-se que pelo menos 400 mil pessoas estão vivendo os mesmos horrores na Síria. Moadamyia e outras dezenas de cidades sitiadas pelas tropas do regime de Bashar al-Assad e pelo Hezbolá, que se recusam a permitir a entrada de comida e remédios nessas localidades, até que os rebeldes se rendam.

Acontece que os insurgentes estão “agarrados” a cada centímetro de terra conquistada, e pretendem utilizar as regiões ocupadas como moeda de troca numa futura negociação quando a guerra terminar. Mas as conversas de paz não levam a lugar nenhum, já que muitos grupos não conseguem nem mesmo indicar um representante para a conferência internacional que está marcada para semana que vem, e que tem o objetivo de formar um governo de transição na Síria.

O governo russo, que apoia o ditador sírio, já informou a Washington que não vai aceitar a presença de grupos como Jaysh al-Islam ou Ahrar al-Sham como parte da delegação dos rebeldes. Para a Rússia, as duas facções são terroristas. Mas são justamente estes dois grupos os maiores entre as milícias rebeldes, e que têm o apoio da poderosa Arábia Saudita.

A Rússia também recusa as delegações que foram aprovadas numa outra conferência, há três semanas, em Ryadh. E isso porque o Irã se opôs. A objeção se deu pelo fato da Arábia Saudita ter organizado o encontro, e devido as relações diplomáticas entre os dois países, que foram cortadas desde que os sauditas condenaram à morte um líder xiita que atuava como oposição ao reino, mas que tinha o apoio dos ayatolás. Para completar a confusão, ainda não está claro se os rebeldes irão aceitar a lista de presença que será proposta pela Rússia e pelo Irã.

Além disso, a Rússia insiste em incluir as milícias curdas nas conversas. Mas a Turquia, que tem o apoio dos Estados Unidos, se opõe veementemente. Por enquanto os americanos estão alinhados com a lista elaborada pelos sauditas. O único grupo rebelde que é consenso entre os dois lados é o “Exército para a Libertação da Síria”, um sinal de que a presença de milícias nas conversas de paz, não está garantida.

À primeira vista, é desanimador. Não há como negociar se ninguém está disposto a isso. Os rebeldes têm suas próprias demandas, que incluem a implementação de uma resolução da ONU que requere a anistia de todos os prisioneiros dos dois lados, e ainda pede o livre acesso às cidades sitiadas.

A ONU espera, na melhor das hipóteses, que com o início das negociações, um prazo seja estabelecido para encerrar o conflito. Um governo provisório deve­rá ser instalado em seis meses, e as eleições gerais serão convocadas daqui a um ano e meio. Rússia e Estados Unidos já entraram em acordo sobre o destino de Bashar Al-Assad. O ditador permanece no poder até as eleições. Na verdade, este foi o único impasse resolvido até agora. Nada mais. E não é preciso ser um especialista para perceber que qualquer tentativa de negociação por enquanto é inexistente e, por causa disso, deverá sofrer atrasos.

Enquanto isso, as crianças famintas de Madaya, Moadamyia e tantas outras cidades cercadas por tropas do governo, vão continuar a morrer de fome e de doenças. Nesta época do ano, quando o frio assola o Oriente Médio com chuvas, ventos, neve e temperaturas abaixo de zero, muitas cidades já não têm mais árvores que os moradores possam cortar para fazer uma fogueira e se aquecer. Aos residentes sobrou apenas as roupas, os brinquedos e os móveis para serem queimados. Serão quatro meses de inverno rigoroso. Assim, eles esperam sobreviver até que o verão chegue. Quem sabe, até lá, os grupos rebeldes e todos os outros personagens dessa história consigam entender que não há mais tempo para salvar a Síria. Que futuro tem um país cujas crianças estão mortas? l

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