Herbert Moraes
Herbert Moraes

Quantas divisões o Kremlin pode fomentar?

Putin quer “dominar” o mundo, ou parte dele, e não esconde isso de ninguém

Vladimir Putin: a volta ao sonho de dominação territorial da era Stalin | Sebastian Derungs

Vladimir Putin: a volta ao sonho de dominação territorial da era Stalin | Sebastian Derungs

Vladmir V. Putin chegou à Assembleia Geral das Na­ções Unidas, em No­va York, na segunda -feira passada, com o discurso afiado, e conseguiu fazer com que todos os líderes mundias e a ONU inteira es­cu­tassem, e consentissem calados, a en­trada oficial da Rússia na guerra civil na Síria.

Há mais de um ano que a coalizão internacional liderada pelos Es­tados Unidos vem bombardeando continuamente posições do Estado Is­lâmico na Síria e no Iraque, mas nenhum desses ataques conseguiu cha­mar tanto a atenção como o “estrago” provocado pelo primeiro bombardeio aéreo russo em Homs, no norte da Síria, na quarta-feira passada. Putin, que não discursava na ONU havia dez anos, provou que tem estilo (mesmo que duvidoso) e sabe, co­mo ninguém, fazer uma entrada triunfal.

Ainda é prematuro dizer que os russos chegam para definir a guerra na Síria, mas não há dúvidas que a partir de agora, um jogador agressivo entra na arena. Desde a ascenção do Estado Islâmico na região há um ano, e os esforços do Ocidente para combater o grupo, a chegada dos russos é vista como um novo capítulo no conflito que pode levar o mundo a uma terceira guerra mundial.

A intervenção dos russos na Síria é conduzida pelo desejo, nem um pouco camuflado, de Vladimir Putin, em restaurar o status do maior país do mundo em extensão territorial, como uma superpotência, e por acreditar, genuinamente, que foram os Estados Unidos que semearam o caos no Oriente Médio, para assegurar o domínio da região. Mas isso revela apenas parte das intenções de Putin. A intervenção militar na Síria está baseada em três pilares: a ameaça real à sobrevivência do regime de Bashar al-Assad, que é um antigo e fiel cliente dos russos no Oriente Médio; a força que ganhou o país ao garantir a ocupação da Criméia e a expansão territorial na Ucrânia; e por último o enfraquecimento, mais que evidente, além da confusão, de Barack Obama e seu governo, que não coneguem conduzir uma guerra eficaz contra o Estado Islâmico. De acordo com a perspectiva dos russos, Washington deixou o Oriente Médio em ruínas. A agressividade do ex-presidente George W. Bush aliada à visão deturpada e até ingênua de Barack Obama para a região, levou ao colapso de regimes que tinham o apoio da Rússia, como o Iraque, E­gi­to e a Líbia. Putin não tem a me­nor intenção em deixar que isso a­con­teça também com a Síria de Assad, que mais de quatro anos de­pois do início da guerra civil, hoje controla apenas menos de um terço do país: Da­masco, um corredor ao norte que pas­sa por Homs e de lá até as cidades cos­teiras dos alawitas, o grupo ét­nico do qual Bashar al-Assad faz parte e é o líder. A partir dali, há ainda alguns en­cla­ves no nordetes do país. É o que sobrou.

Grupos rebeldes que lutam contra o ditador já controlam algumas áreas no subúrbio de Damasco. Assad está prestes a perder a parte leste e sul da capital. Ao mesmo tempo, o Estado Islâmico bombardeia constantemente o centro da cidade e seus prédios governamentais, até mesmo o Palácio Presidencial, sede do governo sírio, já foi atingido.

Uma das armadilhas que podem trazer ainda mais caos à Síria com a entrada de Vladimir Putin e suas tropas, é justamente o povo sírio, majoritariamente sunita, o grupo dominante no mundo árabe. A Rússia, ao proteger Bashar al-Assad, que é um alawita-xiita, pró-Irã, genocida e criminoso de guerra, está alienando automaticamente os sunitas, incluindo aí os sunitas russos que são uma dor de cabeça constante para Putin com os problemas de separatismo que enfrenta no Daguestão e mais recentemente o surgimento de uma célula do Estado islâmico no Cáucaso. Ao agir contra os sunitas o líder russo manda uma mensagem para os rebeldes que lutam em seu quintal mas passa ao mesmo tempo a ser o inimigo número 1 de qualquer muçulmano sunita. Vamos dizer que por milagre os russos consigam derrotar o Estado Islâmico. Qual sunita, moderado que seja, vai querer se alinhar com Rússia enquanto Putin é visto por eles como o grande protetor do homem que mais matou sunitas em todo planeta?

A entrada da Rússia na guerra e a chegada do reforço, com centenas de soldados da Guarda Revolucionária enviados pelo Irã, além do Hezbolá e outras milícias xiitas que também participam dessa estranha aliança militar, talvez estabilize alguns fronts, e dê um certo fôlego para Assad. Desde que assinou o polêmico acordo nuclear em Viena, o Irã passou a se envolver ainda mais na guerra na Síria, obviamente sob coordenação da Rússia. A dobradinha Rússia-Irã confirma que o presidente-di­ta­dor Bashar al-Assad não está sozinho, que duas potências o apoiam e não permitirão que ele caia.

Quanto a Putin, seu envolvimento na guerra na Síria nos remete a 1941. Um pouco antes de entrar na coalisão anti-Hitler, a União Soviética anexou partes da Finlândia e da Polônia, além de toda Lituânia e Estônia. Na época, os líderes mundiais concordaram e permitiram que Stalin exercesse o domínio soviético em toda Europa Oriental. Com a aniquilação de Hitler e o nazismo, a partir daí a União Soviética foi elevada ao grau de superpotência. Putin quer levar a Rússia de 2015 ao mesmo patamar, e ao fazê-lo consegue falar no mesmo nível com os Estados Unidos, e ter assim o poder de decidir o destino de países como a Síria. Mas para lutar contra o Estado Islâmico, Vladimir Putin quer que o Ocidente o deixe em paz em suas intervenções no conflito na Ucrânia, e ainda o permita exercitar os músculos em partes da Eurásia. No discurso que proferiu na ONU e em sua cabeça, tudo isso não é apenas lógico, como o certo a ser feito.

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Damir

O governo russo tem território mais que suficiente para administrar, dá para acreditar que não estaria interessado em mais territórios e populações para administrar, prova disso é a não interferência direta na Ucrânia onde um complô com apoio Ocidental derrubou o governo pró-Moscou e instalou um governo radical de direito pró-Ocidental. A questão da Criméia não foi o território nem a reduzida população, já fazia parte da federação russa tradicionalmente, foi separada quando durante a União Soviética durante a administração de um presidente que era ucraniano.