Herbert Moraes
Herbert Moraes

O milagre de Trump

Presidente dos EUA até quer fechar o acordo dos acordos para a paz entre palestinos e judeus, mas não sabe como

Nunca houve, e jamais haverá uma oportunidade como essa. Até mesmo o primeiro-ministro de Israel, Benyamin Netan­ya­hu, pela primeirra vez, consegue enxergar uma janela de oportunidade. Algo inusitado está para acontecer no Oriente Médio. A paz entre palestinos e israelenses nunca esteve tão próxima. Tal qual o dedo de Deus que quase toca o de Adão na obra prima de Michelangelo “A Criação de Adão”, a paz está por um toque.

Deus, neste caso, Donald Trump, está destinado a esticar o dedo que fará o milagre. E em breve a embaixada da Arábia Saudita poderá hastear sua bandeira na Terra Santa. Os países do Golfo, em cooperação e prova de amizade irão bancar milhares de edifícios que vão abrigar jovens israelenses e futuros casais, é claro. Os palestinos certamente abrirão mão do direiro do retorno dos refugiados e de Jerusalém oriental como sua capital. Os assentamentos judaicos na Cisjordânia, onde moram mais de meio milhão de judeus, serão anexados ao território israelense e Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, será coroado Rei da Palestina.

De volta à realidade. Ou melhor, de volta ao pesadelo chamado realidade. Há poucos meses, a Suprema Côrte de Israel determinou a retirada de colonos judeus de um assentamento ilegal na Cisjordânia chamado A­mona. Era a decisão final da Justiça, os colonos teriam que sair das terras palestinas. Depois de dez anos nos tribunais, e mesmo com a decisão final para a retirada dos moradores de Amona, foi preciso chamar o exército para garantir o cumprimento da ordem. A quem de fato pertence o Muro das Lamen­tações? Segundo a Unesco, o lugar mais sagrado do judaismo está em terras palestinas, já que a ONU não reconhece a soberania de Israel sobre Jerusalém oriental, e o muro está justamente depois da linha da fronteira de 1967 que os palestinos querem como capital de um futuro Estado. Donald Trump, que fez questão de visitar o local de forma privada, sem a presença de lideranças políticas, se recusou a reconhecer, oficialmente, a soberania de Israel sobre o muro.

Será que Trump vai mesmo de­ci­dir onde ficarão as fronteiras que i­rão separar Israel do Estado Palestino?

Ao discursar no Museu de Israel, em Jerusalém, ponto final da visita que durou 30 horas, Donald Trump não ofereceu nenhuma solução para o que pôde ver de perto. Ele naõ re­conheceu o direito dos palestinos de autodeterminação, mas também não demonstrou publicamente o apoio exigido pelo governo israelense para que os palestinos reconheçam a existência do Estado Judeu. Trump também não mencionou a solução para “dois Estados”, e muito menos um Estado com direitos iguais para todos os cidadãos. Não falou de fronteiras nem de assentamentos. Muito menos tocou no assunto sobre o reconhecimento de Jersua­lém como capital indivisível de Israel. Disse apenas o todos já sabem: “A mudança deve vir de dentro”.

Há menos de quatro meses, na Casa Branca, o presidente americano disse em coletiva, juntamente com o primeiro-ministro de Israel, que o visitava logo depois da posse, que “dois Estados, ou um Estado”, qualquer decisão pra ele não importava. Depois da gafe, um pouco antes de embarcar para o Oriente Médio, a Casa Branca chegou a dizer que desde então, Trump passou a se inteirar um pouco mais sobre a história dos judeus e, principalmente, sobre o conflito entre israelenses e palestinos. Os assessores do presidente americano garantem que depois de estudar profundamente Trump já sabe o que é ou não possível para tentar alcançar um acordo de paz.

Só que é justamente isso que preocupa os dois lados. Porque é no momento em que você entende o conflito, passa a compreender também que o sonho é apenas um sonho. Barack Obama, Richard Nixon e Bill Clinton logo perceberam o que é impossível, e por enquanto ninguém sabe, talvez nem ele mesmo, que fórmula Trump vai usar para colocar abaixo a muralha que separa palestinos e israelenses.

Talvez o Rei Salman da Arábia Saudita e os outros líderes árabes que es­tiveram com Trump em Ryad tenham dado ao presidente americano motivos para ele pensar que os árabes estão dispostos a uma aproximação com Israel em troca de um acordo final com os palestinos. Talvez, talvez, talvez. Por enquanto o que se sabe da visita ao Oriente Médio é o que se viu: muita pompa, discursos de paz mas poucos ou nenhum resultado concreto.

Mas sabe como é, em terra de profetas milagres acontecem. Jesus andou sobre as águas do Mar da Galileia e Sa­ra, aos 90, deu à luz a Isaac. Trump terá que realizar algo desse tipo. Só assim ele vai suceder na sua maior ambição: fechar o acordo dos acordos.

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