Herbert Moraes
Herbert Moraes

O dilema de Putin e a guerra na Síria

Caráter negociador do presidente russo pode ser substituído pela velha maneira russa de fazer a guerra

Vladimir Putin: situação no leste
da Síria está complicando e ele pode se ver obrigado a agir
com mais firmeza | Foto: Kremlin

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, por muito tempo pensou que sucederia onde o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, falhasse. Pacificar a Síria, ajudar um de seus melhores clientes, o ditador Bashar al Assad e impor equilíbrio no conflito de interesses do Irã e de Israel quando o assunto é a guerra no país vizinho. Esse era o foco principal do líder russo, desde que se aventurou militarmente no Oriente Médio.

Para fazer tudo isso, Putin não precisou gastar muito. Mandou para a Síria cerca de 2 mil soldados, algumas dezenas de caças e alguns navios de guerra. Os Estados Unidos, em situação semelhante, certemente gastariam mais. Em uma missão como essa, eles teriam enviado um número dez vezes maior do que tudo que os russos, hoje, operam na Síria. Além, é claro, de todo um aparato tecnológico sofisticado, e certamente tropas terrestres.

A Rússia preferiu não arriscar, e, para lutar em terra, “mano a mano”, terceirizou o serviço aceitando na hora a oferta do Irã, que viu na guerra da Síria a oportunidade que sempre esperou: enviar milhares de mercenários xiitas para lutarem pelo ditador em nome do país persa.

Os mercenários que lutam pelo Irã na Síria são quase todos refugiados do Afeganistão, e hoje ocupam as filas do exército sírio, que estavam praticamente vazias. O Hezbollah também enviou milhares de xiitas, que foram mandados para missões mais complicadas.

Quando a Rússia decidiu intervir na Síria, acreditava-se que os resultados seriam parecidos com a desastrosa ocupação soviética do Afeganistão em 1980. Mas a guerra de Putin durou apenas dois anos e teve pouquíssimas baixas. O presidente russo foi preciso, aproveitou-se do vácuo deixado por Obama, que não quis se envolver no conflito, e colocou a Rússia de volta ao mapa geopolítico mundial. Em dezembro do ano passado, ele foi pessoalmente a Damasco para declarar: missão cumprida. Deveria te aprendido com seu colega, o ex-presidente George W. Bush, que tinha por lema nunca dizer essas palavras. Em qualquer hipótese. E é justamente por isso, que tudo aquilo que a Rússia conquistou na Síria agora está desabando sobre a cabeça de Vladimir Putin.

No mês passado, durante a conferência de paz mediada pelos russos, em meio às mentiras que sempre são colocadas, a farsa de uma nova eleição sem a participação de Assad irritou a oposição, que nem se dignou a enviar uma delegação para o debate. A Turquia, por sua vez, colocou suas tropas no noroeste da Síria para lutar contra milícias curdas, as quais considera terroristas, e evitar que elas se estabeleçam na região com a saída do grupo Estado Islâmico. Enquanto isso, os turcos agora estão lutando também contra os iranianos e as forças do regime sírio.

No entanto, o que mais preocupa a Rússia é que no leste da Síria a “chapa está esquentando”. Forças curdas, intitulada Exército Demo­crá­tico da Síria, formadas por árabes, turcos, assírios e armênios, estão expandindo a presença na região, e eles contam com o apoio, fundamental, dos Estados Unidos.

Na semana passada, houve uma escalada ainda pior: o primeiro confronto direto entre Israel e o Irã. Mesmo assim , um futuro conflito entre os dois países ainda não é a maior das preocupações de Vladimir Putin, mas é sim para o ditador Bashar al Assad. Damasco está muito próxima da fronteira israelense, e Assad, soba batuta iraniana, resolveu que é hora de reagir aos ataques cirúrgicos da força aérea israelense. Nos últimos dois anos e meio, a acordo entre Jerusalém e Moscou era bem simples: Israel permitiria que os russos abastecessem o exército de Assad com armamentos, o que garantiria a força do regime. A Rússia, por sua vez, faria vistas grossas quando caças israelenses bombardeassem, periodicamente, comboios e depósitos de armas iranianos destinados ao grupo xiita Hezbollah, no Líbano.

Quando o premiê israelense Benyamin Netanyahu exigiu que a Rússia impedisse que o Irã instalasse fábricas de armas em território sírio, Putin aceitou a demanda, permitindo, apenas, que as milícias xiitas iranianas se recolocassem em parte da Síria, mas não próximo à fronteira de Israel. A construção de fábricas de armamentos, ou até mesmo bases móveis, foi vetada.

Mas esse falso equilíbrio de forças, coordenado por Vladimir Putin, não consegue mais se sustentar. A decisão da Guarda Revo­lucionária (o exército do Irã) de enviar um drone que invadiu o espaço aéreo israelense, seguido de retaliação das forças de Israel, é prova que faltava para os russos entenderem que eles não vão consegiur atender os interesses de tantos personagens diferentes que participam da disputa na Síria. Em breve, se Irã e Israel não se controlarem, a Rússia terá que agir diferente. O jeito “soft” do Vladimir, o negociador, será substituído pelo velha maneira russa de fazer a guerra, onde só os interesses russos é o que importa. Putin será obrigado a chamar os dois de lado, para uma conversa nada amigável, ou terá que lidar com mais um fracasso militar, assim como no Afeganistão. l­

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Aída Paiva

É muito triste ler um jornalista que perde seu tempo tentando enquadrar as pessoas em seu jeito de ver essas pessoas. O jornalista poderia olhar e ver Putin do jeito que Putin é.
Seria bom para o jornalista e seria bom pras pessoas que leem o jornal. Talvez até fosse mais lido e causasse no mundo um novo jeito de fazer jornalismo.