Herbert Moraes
Herbert Moraes

Guerra à vista?

Israel e Irã entram em perigoso clima de tensão e nunca estiveram tão próximos de um conflito armado

Forças do Hezbollah podem desencadear um ataque a Israel, o que deflagraria o conflito temido por todos

“A chapa está esquentando.” Não há definição melhor para resumir o estado de tensão entre Israel e Irã. Nunca, os dois países estiveram tão próximos de um conflito armado. O incidente de duas semanas atrás, quando um drone iraniano invadiu o espaço aéreo israelense, no norte do país, era mais do que previsto pelas autoridades e não teve prolongamentos. Certo que nenhum dos dois lados queria um embate. Mas Teerã tem ambições hegemônicas na região, e elas passam pelos 20 mil soldados e mercenários que já estão na Síria espalhados em pequenas bases ao longo da fronteira norte de Israel, nas Colinas do Golã, e é claro, o apoio ao fiel parceiro, o grupo Hezbolá, no sul do Líbano, que já está armado até os dentes, com mísseis cada vez mais sofisticados. Am­bição de um lado, e do outro a determinação permanente de Israel em vigiar o perigo iminente, o resultado é praticamente óbvio: um confronto entre as duas potências vem aí.

O momento entre os dois países, é bem parecido com o efeito de um revólver na panela quente: é preciso esquentar para depois explodir. Na semana que passou, a reportagem da TV americana Fox colocou mais lenha na forgueira, ao revelar que além dos combatentes xiitas que o Irã colocou dentro da Síria, há também registro do aumento considerável da presença militar iraniana como soldados e experts da Guarda Revolucionária do Irã, além de planos para para estabelecer bases militares e fábricas de armas em várias partes da Síria.

A revelação da Fox, vem num combo de furos de reportagens da imprensa americana e inglesa sobre a Síria pós-Estado Islâmico e grupos rebeldes. O “New York Times” saiu na frente e mostrou, de forma detalhada, o mapa do “reforço” iraniano em território sírio. A britânica BBC conseguiu ir além, e mostrou a nova base militar do Irã, que fica próxima da capital, Damasco, e inclui hangares gigantes que poderiam armazenar mísseis capazes de atingir qualquer lugar em Israel.

Ainda não se sabe se as revelações fazem parte de um apoio específico de alguma fonte ligada a Israel, que tem como objetivo acenar para Damasco e Teerã e dizer que tudo que se passa ali é sabido, e terá consequências.

As reportagens citadas saíram de forma sincronizada com outros fatos que levam a crer que um conflito entre os dois países poderá, sim, acontecer. O primeiro deles foi o discurso do premiê israelense, Benyamin Netan­ya­hu, na Conferência de Seguran­ça Internacional realizada em Munique, na semana passada. Ali, pela primeira vez, ele ameaçou o Irã diretamente e garantiu uma ação militar contra o regime do ditador sírio Bashar al-Assad, se esse não se comportasse. Netanyahu também antecipou o encontro que teria com o presidente americano Donald Trump, em Washington, para o mês que vem. Soma-se a isso, a visita quase secreta de senadores americanos que voltaram para Washington com a missão de pedir que o governo dos Estados Unidos reconsidere dar ainda mais apoio militar a Israel em face à ameaça iraniana.

É claro que se o Irã der prosseguimento ao programa nuclear e construir uma bomba atômica, daí a situação entre os dois países se torna insustentável. Mas a balança do poder militar, neste momento na região, pende para Israel, que possui uma força aérea muito mais poderosa que a do Irã, e isso numa guerra é essencial. Além disso, o Irã teria que operar milhares de soldados a centenas de quilômetros de suas fronteiras e que estariam sujeitos a ataques aéreos israelenses, além de outros grupos sunitas no caminho, que poderiam enfrentá-los.

Os Estados Unidos também representam uma ameaça ao Irã. Donald Trump já disse diversas vezes que o Irã é o maior problema dos EUA e seus aliados, devido ao envolvimento do país com o terrorismo, que financia a construção de um sistema de mísseis sofisticado e tem a maior de todas as ambições: produzir armas nucleares.

Até agora, os Estados Unidos não tomaram nenhuma providência prática para interromper o Irã e ainda não é certo se o fará, mas os iranianos não trabalham com essa hipótese, sabem que a última coisa que poderia acontecer seria um confronto direto com exército americano. No entanto, a última declaração da Casa Branca, de que vai deixar uma força militar permanente no norte da Síria para observar e checar a influência iraniana na região, preocupou Teerã.

Apesar da Rússia, atualmente o personagem central da guerra na Síria, se colocar lado a lado do Irã, e reconhecer o direito dos iranianos de manter suas forças em território sírio, há um clima de suspeita entre os dois ditos “parceiros” na terra de Bashar, e o Irã teme que se um acordo de paz for alcançado na Síria, a Rússia não deverá se opor em abandonar o ditador se receber em troca a promessa de que poderá continuar operando sua base aérea e naval de Latakia. Se Assad perder o poder no contexto de um acordo, a influência iraniana na Síria tem o destino do ralo. Enquanto isso não acontece, Israel conta com um futuro ataque surpresa que pode vir do Hezbollah ou do próprio Irã, e um erro de cálculo pode levar ao conflito que todos temem por aqui. A contagem regressiva já começou.

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