Herbert Moraes
Herbert Moraes

A força do colonos judeus e como eles se tornaram um problema para Israel

Shimon Peres vislumbrava um Oriente Médio sem fronteiras, de cooperação mútua entre os países

Proposta prevê o fim do bloqueio à Faixa de Gaza e congelamento da expansão dos assentamento na Cisjordânia

Os países do Golfo Pérsico, liderados pela Arábia Sau­di­ta e os Emirados Arabes, o­fereceram um pacote de oportunidades econômicas que inclui a im­por­tação e exportação de produtos, além de uma aproximação política ex­plicíta se Israel fizer algum gesto que demonstre uma virada na questão com os palestino e, que visa en­ce­r­rar o conflito de uma vez por todas.

Até o momento, a proposta não foi colocada no papel, mas num Oriente Médio mutante, são grandes as chances de se tornar uma oferta sólida. Já faz algum tempo que os palestinos deixaram de ser o centro das atenções no mundo árabe, que vive neste momento uma guerra fria com o Irã. E os países do Golfo, discretamente, já coooperam na área de segurança, por isso seria natural expandir, ainda mais, essa relação. No campo diplomático pode demorar um pouco mais pra que um dia os sauditas tenham uma representação em Tel Aviv e vice-versa, mas os sheiks estão dispostos à concesssões de mercado que poderiam beneficiar o Estado judeu, como na área de telecomunicações, aviação, além da concessão de vistos para delegações esportivas e inúmeras possibilidades para setores do comércio e de investimentos.

No começo dos anos 90, o ex-presidente Shimon Peres, à época ministro de Relações Exteriores do governo de Ytzhak Rabin, vislumbrava um Oriente Médio sem fronteiras, de cooperação mútua entre os paí­ses. Mas a visão de Peres se perdeu em meio ao caos que engoliu a re­gião, e os israelenses já não contavam com a possibilidade de fa­zer negócios com o mundo árabe.

O Oriente Médio é uma região pobre e subdesenvolvida, e boa parte se tornou zona de guerra. A forte economia do Golfo é uma exceção que faz dele parceiro em potencial se as divergências forem deixadas de lado. Israel e sua indústria de alta tecnologia poderia expandir ainda mais seu mercado. É claro que os países do Golfo não são uma China nem mesmo uma Turquia quando o assunto é mercado consumidor, e apesar do alto PIB, não são tão sofisticados quando o assunto é investimento, já que suas economias estão diretamente ligadas à exploração do petróleo, e com o preço do barril lá embaixo, o futuro parece incerto desde que o FMI previu um crescimento inferior a 2% em toda região este ano.

A oportunidade de mudança nos rumos do conflito entre palestinos e israeleses é tentadora, mas é difícil acreditar que Israel vá baixar a guarda sem saber de fato o que terá em troca. A proposta prevê o fim do bloqueio à Faixa de Gaza e o congelamento na expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia.

É interessante notar e ressaltar que os sheiks e líderes dos países do Golfo não estão, honestamente, pensando que um acordo de paz entre palestinos e israelenses possa ser iminente. O fato é que eles precisam de uma justificativa política que possa corraborar a expansão das relações dos árabes com o estado Judeu. Você não pode dar alguma coisa a Israel sem ter nada em troca, por isso a resolução do conflito, segundo a proposta que vem do Golfo, passa pelo apoio aos palestinos.

Acontece que suspender o bloqueio à Gaza pode não ser tão difícil para Israel, no entanto, quando o assunto chega aos assentamentos judaicos não tem conversa. Do ponto de vista dos colonos e seus aliados há tipos diferentes do congelamento das construções em território palestino. Quando o pedido vem de Donald Trump, que é considerado um amigo de Israel, a possibilidade de uma interrupção parcial na expansão passa a ser considerada. Barack Obama fez a mes­ma exigência, e os colonos o classificaram como o enviado do demônio que queira destruir Israel. Quando o mesmo pedido vier do rei Salman, da Arábia Saudita, é possível que os colonos começem a pensar que estamos a um passo do apocalipse.

Por isso, mesmo que os países do Golfo estejam realmente interessados em estreitar os laços econômicos com Israel, as chances de que isso aconteça são pequenas. Não que a ideia não esteja nos planos estratégicos do país, e nem porque seria uma ameaça à segurança do estado Judeu. Pelo contrário, ela seria ainda mais robusta e talvez abrisse até outras oportunidades no caminho. A negativa viria porque o governo israelense é refém das decisões que vêm dos assentamentos. Como os colonos e seus representantes formam boa parte da base de sustentação no parlamento, são eles que ditam as regras, sejam elas racionais ou irracionais.

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