Herbert Moraes
Herbert Moraes

A ameaça terrorista e o novo Oriente Médio

Ha 2,8 mil anos o profeta Isaías narrou a tensão política e militar vivida por Israel: o perigo vem do Leste

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Exército de Israel em ação de combate na fronteira Leste do país

Era uma vez, talvez há 20, 30 anos atrás: Israel vivia uma realidade totalmente diferente em suas fronteiras. Havia uma ameaça estratégica vinda do Leste, e que o Estado judeu enfrentava diariamente. O partido Baath, do Iraque e da Síria, era ainda mais hostil e governava, com mão de ferro de seus ditadores (Saddam Hussein e Bashar al Assad) os dois países árabes. A impressão que os déspotas tentavam passar para o mundo era de que o Iraque e a Síria eram duas nações modernas e que contavam, aparentemente, com um exército forte, bem aparelhado com tanques e mísseis de última geração, além de milhares de soldados bem treinados.

Mas vamos voltar no tempo, mais precisamente 800 anos antes de Cristo, quando andava por aqui um profeta messiânico chamado Isaías, que viveu na corte dos reis de Judá. Há relatos de que ele talvez fosse primo de Uzias, um escriba e relator de fatos históricos que aconteciam na Casa de Davi e, talvez por isso, tivesse liberdade suficiente para transitar bem próximo ao poder político e saber em primeira mão as decisões do Estado monarca judeu. Isaías viveu e narrou a tensão política e militar que o território de Israel enfrentava naquela época. O “clima” era pesado, decorrente de um quadro marcado por intensas atividades bélicas e expansionistas realizadas pelos faraós do Egito e pelos caldeus, que, juntamente com os assírios, exerciam uma ameaça crescente, que vinha do Leste (sempre o Leste) sobre os reinos de Israel e Judá. Golpes de Estado em Israel e alianças contra a Assíria (onde hoje estão a Síria e o Iraque) faziam parte do cardápio da política internacional de 2.800 anos atrás. Três milênios depois das profecias de Isaías, pouca coisa mudou por aqui. E os desafios contra Israel mais uma vez parece que vêm do leste, só que agora com nova roupagem.

As ameaças de confrontos em suas fronteiras sempre foram motivos suficientes para que Israel mantivesse um exército forte, imbatível, sempre a postos, com presença constante em territórios como o vale do Rio Jordão e as colinas do Golã. Nas últimas décadas, o front do Leste foi praticamente dissolvido. Começou com a ação militar do presidente George Bush, que derrotou o Iraque na guerra do Golfo. Depois veio o filho, presidente George W. Bush, para “terminar o serviço” e desmantelar o país do ex-aliado Saddam Hussein. Na época, o exército sírio ficou atento e parecia estar ainda mais forte, mas com o tempo também enfraqueceu e desmoronou.

A Primavera Árabe trouxe no­vos ventos que sopravam liberdade e esperança na região. E mui­tos aqui em Israel concluíram que o exército poderia ser enxugado e que não havia necessidade da presença constante em território alheio. O medo permanente da população, de que uma próxima guerra estava logo ali, foi trocado por uma sensação de que os israelenses nunca estiveram tão bem, globalmente falando.

Mas nos últimos meses, mu­dan­ças dramáticas vêm acontecendo no front leste de Israel. A in­fluência do regime iraniano em Da­masco nunca foi tão grande, assim como em Bagdá, além do fortalecimento de seu satélite xiita li­banês, o grupo Hezbolah. O blo­co xiita aumentou consideravelmente nessa parte do Oriente Mé­dio. Por outro lado, eis que emerge, repentinamente, o grupo ra­dical sunita Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que trouxe de volta o extremismo e um tipo de luta com requintes de crueldade que há séculos não se via por aqui.

A guerra civil na Síria e o desmantelamento do Iraque tiraram do caminho de Israel as ameaças que vinham da fronteira leste, mas no lugar do que um dia foram dois Estados árabes com exércitos imbatíveis, hoje se instalou o caos. O enfraquecimento interno do nacionalismo árabe e da política estúpida dos americanos para a região levaram ao colapso a ordem interna. O vellho front do Leste deu lugar a um novo front de instabilidade e incertezas.
Israel não deverá enfrentar guerras, como a do Yom Kip­pur, nas próximas décadas. Exér­cito árabes também não vão ultrapassar suas fronteiras, e um “mar” de tanques sírios não vai inundar as colinas do Golã como no passado. Mas a combinação de armas de alta tecnologia com seu porte por exércitos do Islã deverá criar ondas que gradualmente chegarão às fronteiras do Estado judeu.

No momento há mais perguntas do que respostas para a atual situação que vive o Oriente Médio. O que vai acontecer com a Jordânia? Será que a região central do Iraque e o sudeste da Síria se transformarão num Estado Islâmico regido pela Al Qaeda e vai se tornar um próximo Afeganistão? E a Faixa de Gaza, será a próxima Somália?

Um novo Oriente Médio está desabrochando, as mudanças são profundas e as ameaças não são apenas contra Israel, apesar de este estar muito mais exposto. Os desafios e os perigos que o radicalismo e o terrorismo estão impondo a essa região vão se espalhar por todo planeta se nada for feito. É só uma questão de tempo. Parece que o profeta Isaías tinha razão: a ameaça contra a humanidade vem mesmo do Leste.

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Camilla

Ai Deus… E ninguém além dos EUA vai ajudar a combater o horror do Estado Islamico?!