Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Um conto magnífico de Yúri Kazakov sobre um (quase) encontro entre Liérmontov e Púchkin

Yúri Kazakov, Tchekhov, Liérmontov e Púchkin: grandes escritores russos. “Só“ o primeiro é do século 20

Yúri Kazakov, Tchekhov, Liérmontov e Púchkin: grandes escritores russos. “Só“ o primeiro é do século 20

Três nomes expressivos da literatura russa se misturam no conto, que também pode ser uma novela, uma crônica ou uma reportagem, com o título de “No Soar do Relógio”. O primeiro é o próprio autor, o contista e novelista russo Yuri Kazakov (1927-1982) que muitos apontam como um moderno Tchekhov. Fazem a ele um favor, mas pequeno.

Poucos autores de histórias curtas podem ser comparados a Anton Tchekhov (1860-1904), na literatura mundial. Mas Kazakov é grande e domina como ninguém seu gênero de histórias: as em que a natureza é, também, um personagem. Um rio, uma floresta, uma região, um lago, um animal, um braço de mar, uma montanha ou até uma nevasca podem, numa narrativa de Kazakov, adquirir a proeminência, assumir o protagonismo, misturar-se com os sentimentos dos homens e das mulheres retratados, fundir-se, de maneira sempre poética, com a história e a circunstância humana. Suas histórias seguem suas experiências de vida na Carélia, no mar de Barents, no norte russo, vasto ambiente com seus camponeses, comerciantes, caçadores e pescadores.

Enquanto Tchekhov fotografava, e, num retoque, embelezava a alma dos seus personagens, homens e mulheres, ou simplesmente a mostrava sem retoques, em toda sua ora bela, ora dura, ora divertida, mas sempre natural realidade, Kazakov é fotógrafo do homem na natureza. Ela é sempre o pano de fundo, nas narrativas desse autor que teve a sorte de escrever quando Stálin já estava morto, e cujo pai havia desaparecido no Gulag, quando ele tinha 6 anos.

Quando Kazakov caminhava para a carreira das letras, o tirano já marchava para a morte, e cessava sua nefasta influência sobre a literatura russa, uma das mais ricas do mundo. A história que Kazakov conta em “No Soar do Relógio” se passa toda no dia 10 de fevereiro de 1837, e conta como correu esse dia na vida do escritor Mikhail Liérmontov (1814-1841).

Liérmontov, o segundo personagem de que falamos, era prosador (autor do romance “O Herói de Nosso Tempo”, traduzido do russo por Paulo Bezerra) e poeta, mas era também oficial de um regimento de hussardos. Viria a ser conhecido como “O Poeta do Cáucaso” e tinha grande admiração por Aleksandr Púchkin (1799-1837), tido como o maior poeta russo, e o terceiro personagem de que falamos.

Segundo o relato dramático de Kazakov, Liérmontov, que já tinha uma produção poética razoável, ansiava, há muito, submetê-la a Púchkin, que ainda não conhecia em pessoa. Ensaiara fazê-lo algumas vezes, mas faltara coragem ou oportunidade. Mas agora estava resolvido. Marcara uma visita à casa de Púchkin e lá iria ouvir a opinião de seu venerado poeta. Não fora difícil combinar o encontro.

O jovem oficial pertencia a uma família nobre e de posses e Púchkin não deixaria de recebê-lo, mas a ansiedade de Liérmontov era grande. Conhecer o famoso poeta, apresentar a ele seus versos, ouvir alguns conselhos e, quem sabe, algumas palavras de elogio e incentivo era tudo que Liérmontov, um tanto já entediado da vida artificial da nobreza de Moscou e São Petersburgo, estava esperando.

A chegada à casa de Púchkin, na tarde daquele dia, surpreende Liérmontov: o poeta, a despeito do encontro marcado, havia saído. Mas logo voltaria, informaram. Liérmontov resolve aguardar na rua, e enquanto caminha se lembra de quando vira, à distância, Púchkin e a deslumbrante esposa, Natália, em uma festa. Lembra-se dos rumores sobre a infidelidade da bela, que rumores abraçavam um seu colega hussardo, Georges d’Anthès, e murmúrios de que Púchkin, alertado, pretendia bater-se em duelo com o amante de Natália.

É então que chega a carruagem de uma das testemunhas de Púchkin no duelo, que tinha acontecido enquanto Liérmontov aguardava. Nela, Púchkin está agonizante. Liérmontov, abalado, vai para casa e escreve um de seus mais famosos poemas, “A Morte do Poeta”.

Turbulento, indisposto com figuras da corte, é transferido para o Cáucaso, onde quatro anos depois, exatamente como Púchkin, enfrenta um duelo e recebe uma bala no coração. O leitor, infelizmente, não vai encontrar em português nem o conto “No Soar do Relógio” e nem os versos de “A Morte do Poeta”. Poderá encontrá-los em francês. Mas como sei que virá uma cobrança do Euler de França Belém, vou me comprometer a, brevemente, traduzir para o português o conto, bem como fazer uma tradução livre dos versos de “A Morte do Poeta”, para os leitores do Jornal Opção.

Poemas de Mikhail Liérmontov com tradução de Jorge de Sena

O Rochedo

A nuvem de ouro dorme a noite inteira
no seio do gigântico rochedo.
Pela manhã, levanta-se bem cedo,
e descuidada vai-se pelos céus, ligeira.

Mas lá restou de orvalho um breve traço
nas rugas do penedo solitário.
E é como se ele ficara multivário
chorando suavemente ante o vazio espaço.

Nuvens

Ó nuvens pelos céus que eternamente andais!
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!

Que vos impele assim? Uma ordem de Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?

Ali não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e o sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra.

2 respostas para “Um conto magnífico de Yúri Kazakov sobre um (quase) encontro entre Liérmontov e Púchkin”

  1. Uma feliz coincidência que ontem e anteontem postei (em minha página no facebook) e no grupo Literatura Goyaz poemas de Pushkin e Lermontov do mesmo tradutor, o zeloso poeta Jorge de Sena…Parabéns! Vou procurar livros do Yuri Kazakov aqui em S. Petersburgo. Obrigado por compartilhar, Irapuan e Euler.
    Abraços de SPB.

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