Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Reflexões sobre a vacina, Bolsonaro, Pazuello e a imprensa

Não se pode usar a pandemia para tentar um impeachment e fraturar ainda mais a nação. Não se pode pregar a morte do presidente e caluniar o ministro da Saúde

Tenho, como todos, assistido a uma enxurrada televisiva e jornalística que pretende interpretar o que se passa no Brasil com a vacinação contra a Covid. Todos desejamos uma efetiva e rápida vacinação; estamos ansiosos pelos resultados dessa medida, pelo recuo da contaminação, pela cessação das mortes, pela imunidade da população e por voltar a uma vida normal. Mas o noticiário não tem sido de maneira alguma positivo no auxiliar o enfrentamento da angustiosa situação que todos vivemos. A todo momento se fala de um “gabinete de ódio” do presidente, mas o que se vê, em cada jornal que se abre, a cada revista que se lê, a cada acionamento do controle remoto da TV, é quase um conluio raivoso de jornalistas no apontar o Executivo federal como culpado pela aflitiva situação, embora isso não seja provado e nem seja de qualquer ajuda nesse momento, muito pelo contrário. Se há gabinete de ódio, parece ser na “grande imprensa”, e contra o governo federal. O noticiário que experimentamos é cego, funesto, deprimente e em nada esclarece, anima ou ajuda. Aceito de bom grado ser corrigido nas afirmações seguintes, desde que isso seja feito com fatos. Fique o leitor, como sempre, à vontade.

Jair Bolsonaro, presidente da República | Foto: divulgação

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Não estamos sendo vacinados em massa porque não há vacinas. Nada mais óbvio. Antes de culpar o presidente Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo e o ministro Eduardo Pazuello, é preciso que examinemos algumas questões também óbvias, ainda que não lembradas ou simplesmente omitidas, avisada ou desavisadamente: o universo a ser vacinado e apenas o mais urgente, no mundo todo, é de um bilhão de pessoas, ou acima disso – e em duas doses. Estamos falando em algo como três bilhões de vacinas, bem por baixo. Contam-se nos dedos de uma só mão as fábricas que desenvolveram vacinas aceitáveis. A própria CoronaVac, em que depositamos todas nossas esperanças, é uma vacina no limite inferior da aceitação. Imagine-se o esforço gigantesco que essas fábricas terão que desenvolver para atender a essa demanda planetária e como é impossível satisfazê-la rapidamente. Outro fato óbvio: quem fabrica a vacina, não vai simplesmente exportá-la; vai em primeiro lugar atender sua própria gente – os governos locais estão vigilantes para isso. Em segundo lugar virão os que lhe são mais próximos das fronteiras geopolíticas. Só receberemos do exterior vacinas ou insumos em quantidades consideráveis para produzi-las quando essa pressão local sobre os fabricantes se aliviar, ninguém se iluda. Por outro lado, pagamos caro pelo atraso científico brasileiro dos últimos trinta anos. Não tivemos capacidade científica própria de desenvolver um imunizante 100% brasileiro e agora disso nos ressentimos. Como desmentir essas realidades?

Em virtude disso, a vacinação vai devagar em todo o Mundo. A médica brasileira Mariângela Simão, diretora da OMS, já havia feito essa advertência dias atrás: não há vacinas em produção para um atendimento mínimo da colossal demanda. No momento em que escrevo, apenas Israel conseguiu um percentual considerável de sua população imunizado – algo como um terço. Mas isso significa apenas entre dois e três milhões de vacinas, muito menos do que recebemos nós, os brasileiros, da CoronaVac. Pois Israel é um país diminuto em termos de área e população. E tão estratégico para os EUA como seu próprio território. Não é de se estranhar terem os americanos fornecido as vacinas para os judeus. Sequer lhes fazem falta as poucas ampolas enviadas. Tomemos o exemplo de um país desenvolvido, e fronteiriço à maior potência mundial. O Canadá, em que pese sua posição de primeiro mundo, sua excelente ligação diplomática com o vizinho EUA e sua capacidade industrial e financeira, não tem vacinas sequer para completar a imunização de seu pessoal da saúde. Mas ninguém na imprensa do Canadá está culpando o primeiro-ministro canadense ou o ministro da Saúde pelo fato. Existiria lá também culpa de Bolsonaro, Ernesto Araújo e Pazuello? Se a resposta depender dos colunistas de esquerda da imprensa tradicional brasileira, será positiva.

Eduardo Pazuello, ministro da Saúde | Foto: EBC

Há quase um século e meio, o pensador francês Ernest Renan (1823-1892), em uma conferência na Sorbonne, definia o que era uma nação, não como um espaço geográfico, étnico ou linguístico, mas como um princípio espiritual de um povo: ter realizações passadas a lembrar, ter uma vontade comum no presente de alcançar outras realizações grandiosas no futuro. Uma definição muito aceita até hoje. Mesmo como nação jovem, já temos realizações passadas para nutrir nosso amor-próprio: mantivemos nossa integridade territorial, nossa cordialidade, e de certa forma preservamos nossa liberdade institucional. Mas é preciso, nesse presente momentaneamente difícil, preservar nossa vontade comum de alcançar futuro promissor, mas possível. Há uma divisão, e ela se baseia numa ideia equivocada de poder, de ideologia. Para superar os desafios da pandemia e efeitos sociais e econômicos, temos que preservar a nação. Não se pode destrui-la para derrubar um governo, mas é o que está acontecendo. Há um desacerto entre instituições, e à luz fria dos fatos, o Legislativo continua voltado para si próprio, o Judiciário se arvorou em poder absoluto e o Executivo está engessado. A imprensa tradicional, com sua ideologia equivocada se regozija quando não conseguimos vacinas da Índia ou insumos da China. Tem uma desculpa para acusar o Governo Federal e tentar derrubá-lo. E o acusa também de descalabros hospitalares, como a falta de oxigênio em Manaus e em todo o Amazonas, quando foi dada a governadores e prefeitos, com estardalhaço, uma ordem judicial suprema para gerência administrativa da pandemia, diminuindo o Governo Federal, a quem caberia apenas transferência de recursos. Ordem que fez exultar a imprensa destrutiva. Lembremos que no Amazonas, foco do assunto, o governo estadual responde por desvio desses recursos, tendo havido prisões e inquéritos e a ex-primeira-dama de Manaus é objeto de investigação semelhante. Em outros estados, a coisa se repete. Mas a imprensa insiste em responsabilizar quem nada tem a ver com a questão. Quer derrubar o governo federal, já e agora, e que se dane o resto. Para tanto, tudo vale. Os partidos de extrema esquerda encontram no judiciário ideologicamente contaminado um parceiro poderoso com a mesma finalidade, embora representem uma ínfima minoria do eleitorado. Pela maneira furibunda com que escrevem, os colunistas de esquerda devem ter quebrado alguns teclados de seus computadores. Apresentadores televisivos filo-petistas ou filo-marxistas deveriam usar babadouros pela maneira que falam, destilando bílis. Antigamente, tinham a moderação imposta por seus patrões empresários. Com o fim das grossas verbas dos governos e empresas públicas, estes liberaram seus empregados, hoje ébrios com a permissão, para atacarem coléricos o governo, aqui e lá fora. Afinal, qualquer governo que venha, pensam, abrirá um pouco para eles as torneiras do suado dinheiro público. A Nação precisa de união neste momento difícil. Não se pode usar fraudulentamente a pandemia para tentar um impeachment presidencial, como se está fazendo, e fraturar ainda mais a nação. Não se pode, até pior que isso, pregar a morte do presidente e caluniar o ministro da Saúde, descarregando de quebra a repulsão que nunca termina, nesses meios de esquerda, contra os militares. O ambiente brasileiro mais sadio, moral e fisicamente, está nos quartéis, e não nos meios que os atacam, como o meio jornalístico ou artístico degradado pela promiscuidade, drogas e aproveitamento do dinheiro público. Que fiquem as questões políticas para quando vencermos o inimigo invisível. Temos que enfrentá-lo como uma nação. Ou nunca seremos uma digna do nome.

6 respostas para “Reflexões sobre a vacina, Bolsonaro, Pazuello e a imprensa”

  1. Avatar Lucilia disse:

    Nunca vi tanta lucidez em poucas palavras! Como médica, estou sentindo na pele todo este drama desta Pandemia e o ódio político nela envolvido. Isso nos faz mal e abaixa nosso sistema imune!. Sim, vamos acabar primeiro com ela… isso é prioridade…e parabéns Sr Irapuan Costa Júnior e ao jornal Opção!

  2. Avatar Miguel Moreira da Silva disse:

    Parabéns meu chefe por está suas reflexões sobre nossa Pátria, tudo
    Culpa deste constituição Cidadã de 88, para um um
    Pais de primeiro mundo, nos ainda somos do terceiro mundo ,esperamos que resolvo dentro da lei senão vamos ver de novo 1964!

  3. Avatar Napoleão de Almeida disse:

    Dr. Irapuã, fala com propriedade. Foi meu chefe, quando Governador do Estado de Goiás. Depois da intervenção Federal. Nosso Salário nunca mais se atrasou..E a Segurança de Primeira. Podíamos sairmos às ruas, qualquer hora do dia e da noite. Era muito bom.. Felicidades Dr. Irapuã Costa Júnior. Agradeço por ter sido meu chefe. Naquela época, trabalhava no CERNE.

  4. Avatar Avenir disse:

    Que bela reflexão dr. Irapuan. É preciso concientizar a sociedade desse processo de destruição perpetrado pelos empregados da Rede Globo, por vindita. A verdade é que eles não estão mais sendo pagos pelo dinheiro público entrgue por governos irresponsáveis do passado rescente. Não querem aceitar que junto com a corrupção foi o corte de entrega da nossa arrecadação ao grupo empresarial a troco de propagandas desnecessárias.

  5. Avatar Lincoln Gambier disse:

    Parabéns pelo excelente artigo sobre a realidade política atual!

  6. Avatar Jair Gonçalves da Cunha disse:

    O ex Governador erra ao dizer que STF DEU poderes a Governadores e Prefeitos! Ele como um ex , sabe que o STF apenas confirmou o que está grafado em nossa constituição! O poder lhes é conferido em sufrágio eleitoral livre e democrático. Ao isentar completamente nosso presidente, é outra falha surpreendente de nosso ex Governador. Bolsonaro não contribuiu, ao se exibir publicamente e fazer chacota das medidas sanitárias e ato seguinte colocar em cheque as vacinas. Tivesse ele desde de o início respeitado a ciência e no mínimo recomendar: gente não podemos parar, mas vamos usar máscaras evitar o contato social. Vamos nos proteger e enfrentar essa pandemia 😷! Nada disso ! Os fatos são devidamente comprovados! Daí a rejeição!

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