Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Reclame de um banco para o Banco Central. Não adianta: grandes bancos domesticaram o BC

… e você sabia que, no Rio de Janeiro, 40% dos presos liberados para as festas de fim de ano não voltaram aos presídios? Eles estão por aí cometendo crimes contra as pessoas

Costumo me referir às dezenas de milhões de brasileiros que levantam cedo, correm ao trabalho que lhes toma toda a semana, têm uma renda exígua — que compete mês a mês com as despesas de casa — cuidam da família, pagam seus impostos, preservam seus valores éticos e agem com dignidade e honestidade em seu dia a dia, como sendo o Brasil que presta.

Esse Brasil que presta está sob constante agressão, por cima e por baixo, de agentes que lhe minam os esforços. Por baixo, de um submundo criminoso, que o ataca ora disfarçadamente, com a corrupção das drogas, ora às claras, com os assaltos, invasões, furtos e roubos. Esse Brasil sofre também uma agressão permanente de cima, de uma elite, parte do establishment, que detém seus privilégios à custa de quem trabalha duro.

Saidão para o Natal | Foto: Akira Onuma/Ascom Susipe

No último final do ano, tivemos um exemplo claro dessa dicotomia. Falo da saída temporária no final de ano das cadeias, em que criminosos são liberados para o Natal e fim de ano nas ruas, por um lado, e por outro lado, da anunciada greve dos funcionários da Receita Federal e do Banco Central. Ambos os fatos terminam por configurar uma agressão à sociedade brasileira digna, que luta e que mede seu salário a cada dia do mês.

Milhares de presos foram liberados para as festas de fim de ano, e muitos não voltaram e continuaram a cometer crimes, ponde a sociedade em risco

A chamada LEP — Lei de Execuções Penais (Lei 7.210, de julho de 1984) —, muito voltada para a proteção dos apenados, prevê as chamadas saídas temporárias para presos do regime semiaberto que tenham bom comportamento e tenham cumprido parte da pena. Como decorrência, nas festas de fim de ano, presos são liberados para passarem essas comemorações livremente. Como os presos que se enquadram teoricamente nos requisitos passam dos 120 mil (numa população carcerária de aproximadamente 770 mil), o número de criminosos que vão para as ruas, com toda a liberdade, está nas dezenas de milhares. Apenas o Estado de São Paulo liberou no final de 2021, mais de 35 mil detentos. Muitos desses detentos são estupradores, assaltantes ou até mesmo homicidas.

O que é ainda pior: Uma boa porcentagem não volta aos presídios e ao foragir passa a praticar outra vez a atividade marginal e criminosa. Essa porcentagem de foragidos por facilitação legal varia de Estado para Estado. Nos Estados que dispõem de segurança mais organizada, como São Paulo, costuma ficar entre 3 e 4%. No Rio de Janeiro atingiu no ano passado os absurdos 40%. São marginais presos que recebem do sistema penal licença para voltar a delinquir. Muitas vezes são flagrados assaltando à mão armada no dia seguinte à saída da cadeia. É a lei, que deveria proteger a sociedade, servindo para que ela seja agredida.

Bancos e a elite privilegiada

Outro quadro de agressão à sociedade brasileira está no comportamento da elite privilegiada que faz as leis em benefício próprio, impede que elas sejam modificadas para que se tornem mais justas, não renuncia a suas regalias e ainda pretende sempre as alargar. É o que chamamos establishment em ação. Trata-se de um amplo leque de apaniguados, principalmente encastelados no Legislativo, no Judiciário e nos altos escalões do Executivo Federal, a viver permanentemente da máquina pública, isto é, dos impostos recolhidos com sacrifício pelo Brasil que presta.

Banco Central: a serviço da banca, e não da sociedade| Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O fim do ano trouxe mais alguns exemplos dessa voracidade irredutível do establishment. Inconformadas com um aumento prometido pelo governo federal para os policiais e militares em geral, eles, sim, defensores da sociedade, algumas classes, as de melhor remuneração na República, por sinal, se abespinharam. Também queremos aumento! — bradaram — ou vamos à greve! Funcionários da Recita Federal passaram a fazer as chamadas operações-padrão, que só conseguem encarecer os produtos que estão sendo fiscalizados, isto é, agredir os consumidores finais, tanto mais agredidos quanto menos ganham e mais necessitam.

Funcionários do Banco Central seguiram na mesma linha. E sabemos, leitores, que esses funcionários são muito bem remunerados. O que fazem estes últimos em benefício da sociedade, principalmente daquela parte da sociedade que utiliza os serviços bancários?

O Brasil tem a maior concentração bancária do mundo: cinco bancos detêm 80% dos depósitos. Os lucros desses bancos são astronômicos. Mas os serviços, para a população em geral são os piores do universo. A automação bancária no Brasil foi implantada para melhorar a situação dos bancos, não para melhorar o atendimento aos usuários, muito menos aos pequenos usuários. Um pequeno correntista não tem a quem recorrer, se o próprio banco cometer um equívoco em sua conta. Gerentes são inacessíveis ou não tem alçada para resolver um problema fora da rotina. Os atendimentos telefônicos são péssimos. E-mails não são respondidos.

Uma das funções do Banco Central é precisamente a de fiscalizar os bancos. Experimente o leitor buscar o Banco Central com uma reclamação comprovada contra um grande banco. Parece piada, mas é verdade: o Banco Central lhe mandará procurar a ouvidoria do próprio banco que está lhe tratando mal e porcamente. Em suma, o Banco Central está domesticado pelos grandes bancos. Não serve, ao menos nesse particular, à sociedade, ao Brasil que presta. Mas querem seus funcionários que o Brasil lhe aumente os salários, em que pese estarem entre os maiores do País, adicionarem outros privilégios e a economia, como eles sabem melhor que ninguém, não permitir de momento fazer a menor graça.

Luiz Fux e os 96 voos da FAB

E apenas como complemento, pois faz parte do assunto: o repórter Lucio Vaz, da “Gazeta do Povo” relatou, na semana passada, que o presidente do Supremo, ministro Luiz Fux, no ano de 2021, utilizou os jatinhos da FAB para seus deslocamentos particulares, o mais das vezes para sua casa no Rio de Janeiro, por 96 vezes, a um custo, para o Brasil que presta, de 1,6 milhão de reais. Sim, quase uma centena de viagens. É legal, leitor? Sim, é legal.

Há quatro decretos presidenciais regulamentando o uso dessas aeronaves. Presidentes dos poderes podem usá-las para seus deslocamentos para locais de suas residências permanentes. É legal, mas é agressivamente legal para com os contribuintes pobres que custeiam esse luxo. É legal, mas acintosamente legal usar tantas vezes quanto possível tal privilégio. É legal, mas não é razoavelmente legal ter trabalho fixo em Brasília e residir em um local tão distante quanto o Rio de Janeiro.

Enfim, esperemos que o governo federal tenha um dia forças suficientes para alterar essa legislação. Em benefício do Brasil que presta.

6 respostas para “Reclame de um banco para o Banco Central. Não adianta: grandes bancos domesticaram o BC”

  1. Avatar Baron Camilo of Fulwood disse:

    Bom dia! Como sempre um ótima e sucinta análise do nosso triste Brasil de sempre!

  2. Concordo plenamente com tudo que foi dito neste artigo. Se eu tivesse o talento e a facilidade para escrever como tem insuportável deste artigo, o ex-governador, Irapuan Costa Júnior, eu também teria escrito com igual indignação. É, como diz o autor, o Brasil que presta sendo usurpado, agredido e roubado pelo Brasil que não presta. Vamos todos, que estamos indignados com esta situação, divulgar este artigo em nossas redes sociais e parabéns ao autor pela iniciativa de escrever e publicar este artigo como têm feito com outros semelhantes, que enriquecem este Jornal.

  3. Correção: “como têm o autor deste artigo”

  4. Avatar Salatiel Pedrosa Soares Correia disse:

    A quem o Estado serve? Quem bem respondeu a essa indagação foi o ex-presidente da OAB Raymundo Faoro.
    No seu clássico “Os Donos do Poder”, Faoro identifica o estamento burocrático como o grande beneficiário dos favores da lei. A aplicação dos rigores desta , são direcionados aos milhões de brasileiros que representam o Brasil dos excluídos.

    Em sua coluna semanal no Jornal Opção, o engenheiro irapuan Costa Júnior, num artigo bastante oportuno, nos mostra a face desse Estado forte para punir e favorecer , mas fraco para transformar a vida da imensa maioria da sociedade brasileira que representa o que o país tem de mais verdadeiro.

    Salatiel Soares Correia

  5. Avatar Maria Teresa F. Garrido Santos disse:

    Pude transitar, em cada expressão deste artigo, o meu escárnio a um legislativo que “humaniza” bandidos em detrimento da sociedade de bem; a uma elite insaciável, sempre à espreita de mais privilégios “legais” ; ao exemplo deplorável de servidores do alto escalao e membros dos Poderes, sem qualquer escrúpulo no uso ” imoralmente legal” da máquina pública lastreada por nós, contribuintes.

  6. Avatar Carlos Abrahão Gebrim disse:

    “Também queremos aumento! — bradaram”… tais palavras estão bem no meio do texto do Irapuã… palavras que me dizem que O POLICIAL tem “um Aumento sim”, mas é um Aumento Só Do Trabalho Perigoso …
    Explico: o bandido perigoso não seria aquele que Não Voltou Pra Cadeia? …e, para prendê-lo duas vezes ‘dobra’ e dificulta o trabalho do policial?
    …☝️… e eu aproveito pra sugerir Um Artigo Novo Do Irapuã citando o quanto é mais caro prender Cada Bandido De Colarinho Branco.., e por quais motivos Eles São Liberados até ‘antes’ do Natal? 🤔🤔🤔

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