Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Por que viajar para Portugal pode ser mais enriquecedor do que visitar Miami

No país de Camões e Fernando Pessoa, o brasileiro tem um encontro com sua história. Há cultura em cada canto das cidades portuguesas

A cidade de Aveiro, com seus muitos canais, é conhecida como a Veneza de Portugal | Foto: Reprodução

de Aveiro, Portugal

Usando o gosto que os portugueses têm pelos diminutivos, diria que estamos cá, na terrinha dos avozinhos. É algo que logo chama a atenção quando falamos com alguém daqui, ou ouvimos alguma conversa próxima. Chega-se ao inusitado, no uso desses diminutivos, como ouvi de uma senhora no trem, que falava com a filha ao telefone e despediu-se: “Um beijinho muito grande para você”.

Intriga-me um fato, e gostaria de dividir esta interrogação com o caro leitor: pais e filhos brasileiros costumam fazer suas viagens de férias a Miami, Orlando e Nova York, nos EUA. Motivam os mais jovens as compras e as visitas à Disneyworld. Adultos apreciam uma ida a Nova York, e também ali as compras. Respeite-se o gosto das pessoas, mas nessas viagens enchem-se as bagagens, dos jovens principalmente, com eletrônicos, tênis da moda, roupas que se usam no momento, e que logo cairão de moda. O lazer nesses casos pouco ou nada tem a ver com a história, principalmente a nossa, e culturalmente só mesmo se aproveita um ou outro espetáculo de teatro (em inglês) ou um musical da Broadway.

Quanta diferença quando se vem a Portugal. Desde o primeiro momento, pode-se aprender algo mais de nossa língua, tão rica aqui como aí. As diferenças, se pequenas, pois na maior parte são apenas variações de palavras de mesma etimologia, nem por isso deixam de ser enriquecedoras. Não se diz, aqui, algo de nossa propriedade, mas algo de nossa “pertença”. Não compramos entradas nas bilheterias dos museus, mas sim nas “bilheteiras”. Não se diz lavagem de dinheiro (que cá como lá existe) mas “branqueamento de capitais”.

Os trens de passageiros, que são excelentes para se viajar por todo o país (como de resto por toda a Europa), aqui não são trens, mas “comboios”, e não fazem nas estações paradas, mas “paragens”. Nunca vamos a um lugar, mas a um “sítio”. E se há algum pedinte na rua, ele não é uma pessoa carente, mas “carenciada”, por quem não o governo, mas a “governança” deveria olhar. O cozimento dos alimentos é uma “cozedura”, uma trapalhada qualquer é uma “atordoada”, um erro é um “falhanço” e Lisboa não foi destruída em 1755 por um terremoto, mas por um “terramoto”. Não decolamos de Lisboa para aterrissar em Brasília, mas “descolamos” de cá para lá “aterrar”.

São exemplos de como é mesmo variada a última flor do Lácio, tão logo se salte o oceano. E nada nessas diferenças representa dificuldade ou estranheza, mas antes curiosidade e conhecimento. Sabe-se mais de nossa língua, pura e simplesmente.

Veneza de Portugal
Qualquer cidade deste pequeno país, que já foi centro de um império mundial, e que descobriu para uma Europa que se aculturava um mundo até então ignorado, tem uma história para contar, e essa história está presente lá nas profundezas de nossas raízes.

Resolvemos, minha mulher e eu, passar o Natal na pequena cidade portuguesa de Aveiro, por várias razões: por ser pequena, tranquila, condizente com o que achamos devem ser as comemorações natalinas; por ser próxima (para nós, brasileiros) de Lisboa, somente uma e meia centena de quilômetros ao norte da capital; por estar entre Porto, a 70 quilômetros para o norte e Coimbra, 50 quilômetros para o sul, ambas cidades com muitos atrativos; e por ser, com seus canais, conhecida como a Veneza de Portugal. Não nos arrependemos. A cidade tem 40 mil habitantes. Todo o distrito não chega aos 80 mil.

Volto aos brasileiros, que, com seus filhos, programam sua viagem de férias a Miami e Nova York. Deixemos de lado a pujança norte-americana, que numa viagem aos EUA salta aos olhos a cada instante. Não se viaja para contemplá-la, mas para divertir e aprender.

Pensemos em Portugal. Já uma vantagem antes da viagem: não se exigem vistos para cá. E como quem viaja transoceano necessita, obviamente, de passagem aérea e hospedagem, verá que a qualidade dos serviços na companhia aérea portuguesa e nos hotéis de Portugal são muito superiores aos seus correspondentes norte-americanos. Quem já provou os dois sabe que a afirmativa não é gratuita.

Os brasileiros, se aqui viessem, poderiam visitar, com seus filhos, apenas na pequena Aveiro, a igreja e o museu de Santa Joana. Veriam uma centena de quadros sacros dos maiores pintores portugueses, esculturas, capelas barrocas, joias, mobílias, manuscritos, paramentos, peças que cobrem uma época que vai do século XIV ao século XIX.

Saberiam que Santa Joana (1452-1490), que não é santa, mas apenas foi beatificada pelo papa Inocêncio XII, mas é tida como padroeira de Aveiro, era princesa herdeira do trono português, filha de D. Afonso V e de D. Isabel. Recusou casamento com Carlos VIII da França e com Ricardo III da Inglaterra, e tomou o hábito de freira, vivendo até a morte no convento onde hoje é o museu. Enterrada a seu pedido em cova rasa, ganhou, 200 anos depois da morte, um túmulo esculpido em mármore que hoje integra o museu, obra de arte digna de se visitar.
Veriam outro museu, este apenas sobre a história da porcelana portuguesa da fábrica Vista Alegre, quase bicentenária, com peças inclusive fabricadas para o Brasil Império.

Poderiam visitar a Universi­da­de de Aveiro, e a antiga cidade de pescadores, hoje ponto de veraneio procurado pelos europeus do Norte, a pitoresca Costa Nova, com suas casinhas restauradas e pintadas nas mais variadas cores.

Poderiam fazer um passeio de gôndola pelos canais aveirenses, as chamadas “rias”. Pergunto a um português do hotel se se chama “ria” esse canal vizinho por ser a mulher do rio. Ele responde com bom humor que é mais ou menos isso: “Como temos os rios que descem das montanhas e lá se vão pelo mar adentro, temos também essas entradas do mar pela terra adentro, e mais adentro ainda na maré alta, que são as rias. Só que os rios são de água doce e as rias de água salgada”. E as rias de Aveiro às vezes são encontradas até a 35 quilômetros da costa.

Marquês de Pombal
A história de Aveiro não se resume à vida de Santa Joana, tendo episódios marcantes a contar, desde que elevada a vila, ainda no século XII. Como aquele que selou o conflito entre Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (1699-1782), e a nobre família dos Távora, que abominava a influência do marquês sobre o rei D. José I.

O marquês aproveitou-se de uma tentativa de assassinato do rei, atribuída, mas não perfeitamente provada a d. José de Mascarenhas e Lencastre, oitavo duque de Aveiro, para arrasar a família. O duque e seu filho foram supliciados em praça pública, em Belém, próximo a Lisboa, sua mulher decapitada, e vários Távoras enforcados.

Compras e artesanato
E não desprezem Aveiro os turistas amantes das compras. Vão encontrar nessa pequena e bela cidade um shopping center com tudo que há de moderno em termos de lojas, desde as grifes mais importantes da Europa, passando pelas joias e eletrônicos, até as roupas jovens e brinquedos. Há as lojas de artesanato e produtos regionais, além do outlet de porcelanas da fábrica Vista Alegre.

Os preços são surpreendentemente acessíveis, inclusive transporte e alimentação. Os portugueses veem a nós, brasileiros, com um olhar especial. Usamos algumas vezes o táxi do Simão, simpático motorista que fazia ponto junto ao hotel.

Ex-combatente do exército português na Guiné, ex-operário na Alemanha, Simão hoje dirige seu próprio táxi em Aveiro. Na véspera de nossa partida, pedimos que nos levasse, na manhã seguinte, do hotel à estação de trem. Lá estava, pontualmente. E chegando à estação de “comboios”, a surpresa: quando quis pagá-lo, recusou-se categoricamente a receber aquela última corrida. “É uma oferta para o casal — foram muito simpáticos.” Não houve como convencê-lo. Sim, sim, sim, sim — como dizem os portugueses quando afirmam qualquer coisa— é uma sugestão de não se desprezar, a de uma viagem a Portugal. l

Uma resposta para “Por que viajar para Portugal pode ser mais enriquecedor do que visitar Miami”

  1. Avatar Sandra Lacerda disse:

    Bravo!!! ???? Adorei .Concordo plenamente.

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