Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Os esquerdistas são ingênuos, fanáticos ou desequilibrados?

O marxismo hoje, em um país democrático ainda que imperfeitamente, como o Brasil, é uma patologia. Quem o defende é portador de um desvio, uma neurose

Chico Buarque, Jandira Feghali , Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e Aldo Rebelo: os cinco esquerdistas defendem Cuba, mas preferem passear pela Europa e viagens confortáveis na primeira classe dos aviões | Foto: Divulgação

Chico Buarque, Jandira Feghali , Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e Aldo Rebelo: os cinco esquerdistas defendem Cuba, mas preferem passear pela Europa e viagens confortáveis na primeira classe dos aviões | Foto: Divulgação

Nos meus (bons) tempos de adolescente e de jovem universitário, eu via meus colegas adeptos do marxismo, que sequer sabiam bem o que era (como ainda hoje acontece) apenas como uma trupe de equivocados, ainda que bem-intencionados. Era a época da Guerra Fria, os dois lados do mundo apregoavam suas vantagens, mas já podia se ver que o comunismo não era lá essas coisas. Nem do ponto de vista econômico (e para os marxistas a história se resolvia na economia), nem do ponto de vista social.

Já se conheciam, embora à boca pequena, as atrocidades de Stálin e Mao Tsé-tung, mas a propaganda, e não a realidade escapulia da Cortina de Ferro: a União Soviética conquistou o espaço com o Sputnik, depois de derrotar a Alemanha de Hitler e agora proporciona a seu povo um alto padrão de alimentação, saúde e cultura — diziam meus colegas da “esquerda revolucionária”. Quando Fidel Castro desceu a Sierra Maestra, foi o paroxismo, o orgasmo coletivo da turma.

Agora era uma questão de tempo (pouco tempo) para enterrar no mundo todo o capitalismo desumano e cruel e ver nascer, sob a ditadura do proletariado, um novo homem, feliz, igual a todos os seus irmãos em posses e educação. Sonhos também serão iguais?, perguntei a um colega de república no Rio de Janeiro, que se tornaria, alguns anos depois, um importante líder comunista. Senti que o havia ofendido. “Os sonhos serão os da massa, e ai do reacionário que se colocar contra a massa!”, respondeu. E quem sonha pela massa?, perguntei, não desistindo. “A vanguarda do proletariado!”, disse, olhando-me com o ar de grande superioridade, que se dispensa a um ignorante.

No início dos anos 1960, tive a oportunidade de fazer duas viagens: a primeira, à Europa, onde fiz um trajeto por trem que atravessava boa parte da União Soviética. Tomamos (éramos um grupo de universitários na casa dos 20 anos) esse trem na fronteira tcheca, que nos levou até a capital da Finlândia, Helsinki. É importante dizer que atravessamos a parte mais rica da URSS, cruzando Ucrânia e Bielorrússia.

Faço um parêntese para falar da segunda viagem, pouco depois, já como engenheiro, essa ao interior dos Estados Unidos, mais precisamente ao vale do Tennessee, onde fui conhecer alguns empreendimentos no campo da energia. Estive, importa também dizer, nesta viagem, nos Estados americanos então mais pobres, como Alabama, Geórgia e Arkansas. Pouco tempo depois de terminada essa segunda viagem, surgiu na minha consciência a inevitável comparação: na Ucrânia, eu vira as terras mais ricas do mundo sendo lavradas por arados de tração animal, conduzidos inclusive por velhas senhoras; no Alabama, Estado americano tido como “pobre”, abundavam os tratores e máquinas agrícolas.

Na Bielorrússia, as habitações camponesas, as “isbas”, que não dispunham de energia elétrica, em sua esmagadora maioria, pouco mais eram do que choças; no Estado americano da Geórgia, as casas rurais eram espaçosas, com todos os confortos da vida moderna, da eletricidade aos aparelhos domésticos, passando pela água encanada — e todas as casas tinham carros ou pick-ups modernos em suas garagens plenas de ferramentas.

As estradas da União Soviética, que vi no verão, eram sem pavimento, e era fácil de se deduzir em que se tornariam durante as chuvas e as nevascas; nos EUA era muito raro se encontrar um trecho de rodovia sem asfalto de boa qualidade.

Nas estações onde parávamos, em nossa viagem pela URSS, policiais truculentos impediam que trocássemos impressões com os cidadãos locais — não era aconselhável confraternizar com estrangeiros.

Meus colegas marxistas — eu já era então professor universitário — sequer admitiam como verdade o cotejo que eu lhes narrava: impregnados pela propaganda soviética, preferiam suas crenças aos fatos: a vida na União Soviética era, em quase tudo, superior à vida nos EUA, afirmavam; e como o capitalismo está em franca decadência, dentro em pouco, até em Nova York o socialismo estará afugentando o regime explorador das classes oprimidas, pois a roda da história gira a nosso favor. Era o que diziam.

Passei a ver as esquerdas com menos indulgência: só um fanatismo político poderia explicar aquela fuga da realidade. Com o passar do tempo as coisas se tornaram mais claras. O mundo globalizado tornava difícil a guarda de segredos, a partir dos anos 1980. Todos passaram a ter notícias dos massacres que as cúpulas comunistas impunham aos seus “proletários” — enquanto, sem exceção, essas cúpulas viviam em um luxo maior que o dos “malditos capitalistas”.

As diferenças nas condições de vida eram tão gritantes entre os mundos capitalista e comunista, que se tornou comum arriscar a existência para fugir do comunismo e obter abrigo num país democrático vizinho ou próximo. Acontecia em Cuba, acontecia na Alemanha Oriental.

A despeito disso, a “esquerda revolucionária” ainda lutava para impor seu regime onde conseguisse, usando a democracia e suas franquias ou as armas que lhe forneciam os soviéticos, chineses ou cubanos. Esses camaradas não são ingênuos ou fanáticos políticos, dizia agora comigo, vendo os brasileiros que pegavam em armas contra o regime militar. São fanáticos religiosos, tanto quanto os curibocas de Antonio Conselheiro o eram no arraial de Canudos.

Com o desmoronamento do comunismo na Europa, finado aqui o regime militar, passada a embriaguez do governo Collor e a sensaboria do governo Sarney, as esquerdas chegaram ao poder. Primeiro, a esquerda envergonhada de Fernando Henrique Cardoso, que por envergonhada não deixou de ser nefasta, e começou a mostrar suas garras no Ministério da Justiça e no Ministério de Desenvolvimento Agrário, ampliando o controle do Estado sobre o cidadão e liberando movimentos como os do MST para ações ilegais financiadas com dinheiro público.

Com Lula a situação seria muito pior. Não que Lula seja um esquerdista no sentido mais amplo da palavra. Por tudo o que se viu, o ex-presidente não cultiva (e talvez nem conheça com um mínimo de profundidade) qualquer crença política. Cultiva, sim, um desejo desinibido de poder, que se revelou em dois extremos: um, o das concessões exageradas ao pior capitalismo, aquele que despreza a concorrência e a competência, quer favores do Estado e se acumplicia na corrupção; outro o aqui, sim, das “esquerdas revolucionárias”, que receberam em seu governo carta branca para operar nas Relações Exteriores e na Justiça, com os resultados conhecidos: alinhamento da diplomacia brasileira a ditaduras, desvio de nossos recursos para essas ditaduras em volumes enormes, tentativa de amordaçar a imprensa, desarmamento da sociedade, implantação do “politicamente correto” que protegeu bandidos, desestimulou as polícias, financiou movimentos marginais como o MST, tentou desmoralizar as Forças Armadas e enfraquecer a coesão familiar através das políticas sociais e educacionais visivelmente marxistas.

A política social de compra de votos permitiu a eleição e a reeleição de Dilma Rousseff, essa, sim, abertamente marxista, com os resultados à vista: ampliação da doutrina não só nas Relações Exteriores e na Justiça, mas em todos os setores, tentando atingir fundo as Forças Armadas com uma Comissão da Verdade vergonhosamente parcial; transferência da renda dos trabalhadores brasileiros para as ditaduras marxistas mais próximas via BNDES, como Cuba, Angola e Venezuela, enquanto saúde, educação e infraestrutura baixavam aqui dentro a níveis críticos; ações de centralização estatal trouxeram o caos no setor de energia e depois em toda a economia, e com o auxílio da corrupção, quebraram a Petrobrás. Esse, o cenário que levou os brasileiros, mesmo os que não viam o fundo ideológico da crise, a cobrar o impeachment que está em andamento.

Mas os “esquerdistas revolucionários” insistem em permanecer, como estiveram em tempos mais amenos, alheios ao desastre que criaram, sempre se isentando e encontrando pretensos culpados para esses seus desastres, defendendo afinal uma utopia tão cruenta quanto atarantada em suas experiências mundo afora. Chego, por fim, à conclusão única e final de meu juízo sobre este pessoal: o marxismo hoje, em um país democrático ainda que imperfeitamente, como o Brasil, é uma patologia. Quem o defende é portador de um desvio, uma neurose. Como aceitar que o Estado dirija sua existência — e a de sua família — do nascimento até a morte? Há no cérebro dessas pessoas uma imagem virtual que se contrapõe á realidade. Colocadas em confronto realidade e crença, o marxista opta pela crença, a não ser que a realidade o ameace ou lhe cause desconforto.

Chico Buarque vive a virtualidade comunista 24 horas por dia, defende Dilma e Lula, ignorando a corrupção e a inépcia, ama Cuba, mas nas férias prefere Paris a Havana, que não é lá uma cidade muito confortável.

Jandira Feghali, deputada do PC do B, outra defensora ferrenha dos líderes petistas, é de um partido que até hoje defende uma virtualidade em que Stálin é o “guia genial dos povos” e prega a igualdade econômica e social de todos, mas em suas viagens internacionais não usa a desconfortável classe econômica nos voos.

Aldo Rebelo, também do PC do B, é figura afável, foi ministro da Defesa e dos Esportes, mas vivia uma realidade virtual em que a Albânia era preferível à Alemanha, coisa que só um alienado mental poderia admitir.

Gleisi Hofmann, Lindbergh Farias e Vanessa Graziotin, passada a votação da admissibilidade do impeachment no Senado, cansados de esgoelar na defesa impossível da “companheira” Dilma, embora estejam convictos da excelência do regime cubano, foram descansar no recesso não em Havana, mas em Lisboa.

Um livro recente, do psiquiatra americano Lyle Rossiter (“A Mente Esquerdista: As Causas Psicológicas da Loucura Esquerdista”, Editora Vide Editorial, 2016) desvenda esse desvio psíquico que acomete nossos “companheiros”. Mas isso é assunto para outro dia.

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William Correia

Há de se notar que alguém que trata uma posição ideológica como “patologia” e recomenda, como fonte confiável, um livro produzido por um direitista – aí, sim – fanático, supostamente respaldado por uma formação médica, jamais poderia opinar sobre o assunto. A doença em voga hoje, caro amigo, é a intolerância.

David Augusto Gimenez Cabanas

Socialistas revolucionarios também sao intolerantes, pois a ‘mentalidade revolucionaria’ é um comportamento que faz uso de varias ideias, inclusive, a de obtenção de poder moral para julgar os outros e não poder ser julgado, a nao ser pelo ‘tribunal da historia’. concordo que ha social democratas que sabem discutir, e sao tolerantes, mas aqueles que se autointitulam ‘comunistas’, xiii, pode ter certeza que eles nao aceitam ideias contrarias… E se for contrario, bom, ai voce é um reacionario, um ‘fascista’, so que quando um socialista xinga o outro de fascista, ele so revela a sua ignorancia sobre o fascismo… ja… Leia mais

Almod/BH

A direita, cujos principais teóricos são F A Hacker e Milton Friedman, defendem que o oposto ao capitalismo-ou neoliberalismo- e à liberdade são o socialismo real e o totalitarismo. Eu por aqui, um homem de esquerda, graças a Deus, só acho que citaram somente parte da verdade: capitalismo que vemos hoje e ,principalmente nos EUA, deve ser colocado ao lado do totalitarismo e com o rótulo de plutocracia., como quer o intelectual americano N Chomysk O antônimo disso seria a DEMOCRACIA, que o povo brasileiro vem perseguindo há muito tempo e em vão ,graças a gente com a mentalidade social… Leia mais

Deminas

E acha que estar nos Estados Unidos é como estar no céu. É daqueles que de posição de esquerda, passou a ser um fanático de direita .Aponta o dedo para todos os que não comungam de seu pensamento e chama-os de comunistas. Se pudesse, mataria, como faziam na Alemanha de Hitler.

roberto elias

muito bom este artigo! parabens Irapuan

Carlos Spindula

Concordo 100% !!! Parabéns pelo artigo esclarecedor e lúcido !

antoniocarlosgarcia

Junto e misturado esse é o verdadeiro tricotomismo de um esquerdopata.

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