Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Os duques de Aveiro e a derrota portuguesa na batalha de Alcácer-Quibir

A derrota portuguesa foi acachapante; o corpo de D. Sebastião jamais foi encontrado e os gastos foram enormes e chegaram a abalar a economia

Rua D. Jorge de Lencastre, em Aveiro — Portugal | Foto: Irapuan Costa Junior

De Aveiro, Portugal — Um milênio de história como país independente (e mais dois séculos como condado no Reino das Astúrias) fazem de Portugal terreno privilegiado para quem se compraz em farejar acontecimentos antigos. Aqui não é preciso andar muito para que alguma coisa desperte a curiosidade histórica. Uma simples placa de rua dá assunto para que se escreva um artigo — ou até um livro. Exemplo: essa simpática ruazinha aveirense de velhas casas azulejadas, que percorro num fim de tarde, termina em um braço de mar. Leio numa lousa lavrada, presa à parede: “Rua D. Jorge de Lencastre — 2º duque de Aveiro, morto heroicamente na batalha de Alcácer-Quibir, onde comandou uma das alas da cavalaria portuguesa, sendo comandante da outra o próprio rei”.

Batalha e Alcácer-Quibir | Foto: Reprodução

Fico me perguntando quem foi esse segundo duque de Aveiro, e o que fez além de combater ao lado rei. E se foi ele o segundo, quem terá sido o primeiro duque de Aveiro? Quantos teriam portado o título de nobreza? Lembro que a batalha de Alcácer-Quibir foi a maior derrota das armas portuguesas, em todos os tempos. Muita curiosidade desperta essa plaquinha em pedra, num fim de rua.

Descubro que o primeiro duque de Aveiro foi D. João de Lencastre, um primo ilegítimo do rei D. João III, que a ele conferiu o título em 1547. Era filho de seu tio D. Jorge de Lencastre, por sua vez filho bastardo do rei D. João II, e irmão do rei D. Manuel (O Venturoso). D. Jorge era também sobrinho da princesa herdeira Joana, depois beatificada, chamada Santa Joana, padroeira de Aveiro, que o educou no Convento de Jesus, onde se internara como simples freira. O segundo duque de Aveiro, D. Jorge, filho de D. João de Lencastre, levou pois o nome do avô e foi provavelmente o fidalgo da corte portuguesa mais próximo do rei D. Sebastião, com quem viajou duas vezes para a África. Na última — é claro — para a batalha de Alcácer-Quibir, onde morreu. O sobrenome Lencastre também se grafa como Lancastre ou Alencastro, e deve ter dado origem aos Alencastro brasileiros, inclusive os goianos.

D. Sebastião: rei de Portugal que desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir

Batalha de São Mamede

Portugal nasceu de uma batalha, a de São Mamede, em 1128, onde D. Afonso Henriques derrotou a mãe, D. Tereza, tornou Portugal independente da Espanha e fez-se seu primeiro rei. E nos quatro séculos seguintes, a história portuguesa se fez nos campos de batalha, e não só nos descobrimentos. Tanto que, por mais de vinte vezes, teve o reino que tomar armas para manter a independência ou a integridade de seu território.

Dessas batalhas (mais de uma vintena, repito), duas foram as mais importantes: a batalha de Aljubarrota, em 1385, em que os portugueses mantiveram sua independência, derrotando um exército espanhol muito superior em número, e onde conquistou fama o “condestável” D. Nuno Álvares Pereira; e a de Alcácer Quibir, em 1578, um desastre português, e que teve graves consequências econômicas e políticas, inclusive o fim da dinastia de Aviz e uma submissão de Portugal à Espanha por 60 anos.

D. Sebastião, na época áurea dos descobrimentos e do comércio de Portugal, aquiesceu em chefiar expedição armada à África. O fez a pedido do sultão Mulei Maomé, e sob a promessa de receber em troca o território africano de Arzila. Visava ajudar a tomar do sultão Mulei Malik, o trono usurpado por este a seu sobrinho, o próprio Mulei Maomé. Travou-se a batalha na localidade marroquina de Alcácer-Quibir, que ficou também conhecida como Batalha dos Três Reis, pois nela morreram os três chefes da disputa: D. Sebastião, Mulei Maomé e Mulei Malik.

A derrota portuguesa foi acachapante; o corpo de D. Sebastião jamais foi encontrado, o que gerou várias crenças, e o Sebastianismo, movimento que esperava a volta do rei, que muitos acreditavam vivo. Os gastos foram enormes (inclusive com o resgate dos muitos nobres portugueses aprisionados) e chegaram a abalar a economia portuguesa.

Nosso segundo duque de Aveiro morreu ao lado de D. Sebastião. Havia formado uma tropa de cavaleiros às próprias custas, que marchava junto com a cavalaria real.

Existiram apenas oito duques de Aveiro. Mas sua história é longa. Enquanto os sete primeiros receberam todas as honrarias, o último foi declarado apátrida, cruelmente supliciado e executado em praça pública, em 1759, no chamado processo dos Távora, em Belém. O título de duque de Aveiro foi então declarado extinto. Mas isto é assunto para outros escritos.

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