Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Os artistas e a ilusão do “Estado-babá”

Eles adoram bradar slogans políticos nos palcos e se angajam em movimentos dos quais entendem muito pouco

No Café de Flore, na Paris ocupada pelos nazistas, conversavam Camus e Sartre, quando este se levantou para sair. Deu-se o seguinte diálogo:
— Aonde vai, Jean-Paul?
— Vou me encontrar com uma jovem artista, e levá-la para a cama. As artistas são as melhores, Albert.
— Por que são as melhores?
— Elas não têm cérebro. E essa parte da anatomia, nessas ho­ras, não interessa. Até atrapalha.

Essa ficção assume ares de verdade, quando vemos a infantilidade com que os artistas brasileiros – os globais principalmente – se engajam em certos movimentos, geralmente contra alguma coisa de que entendem muito pouco, desde que levantados pelas esquerdas. Por dá cá aquela palha, surge um manifesto, logo assinado por artistas, pretensos artistas ou simplesmente pretendentes a artista.

Artistas adoram bradar slogans políticos nos palcos, dar entrevistas recheadas de ideias superficiais ou erradas, propagar juízos preconcebidos que não se sustentam, defender direitos abstratos, sempre descasados dos deveres correspondentes, se essas coisas constarem de alguma pauta “socialista”. É impressionante como eles se engajam em uma campanha para a volta de Lula à Presidência, a despeito de todo o avanço que ele fez, na vanguarda do PT, contra os cofres públicos, saqueando os recursos dos pobres deste país, de que se augurou sempre defensor e guardião.

É impressionante como parecem ignorar as investigações policiais, os processos, as condenações e as prisões dos esquerdistas que defendem. E como aceitaram classificar como golpe o impedimento de Dilma, desfecho constitucional inevitável de um governo incompetente, destrambelhado, que trouxe o país a uma situação econômica de se lamentar. Privatização para eles é desaforo, desde que assim falem PT, PSOL, PCdoB. E nem é preciso perguntar a nenhum deles se a Petrobrás seria saqueada pelos petistas, se não fosse empresa pública, pois se o fizer, o leitor será tachado imediatamente de entreguista, aliado dos americanos na dilapidação do patrimônio nacional.

Igual tratamento terá se indagar qual banco privado faria os empréstimos que o BNDES fez a Cuba, Venezuela, Moçambique e outros regimes de esquerda quebrados, praticamente doando os recursos dos pobres brasileiros a quem sequer agradece. O mesmo vai acontecer se indagar por que o BNDES está dando uma participação nos “lucros”, neste exercício, a seus funcionários. Lucros que só poderão existir num balanço maquiado, que não inclua na Provisão para Devedores Duvidosos os bilhões de dólares mencionados, entregues às ditaduras falidas. Com o agravante de premiar funcionários já muito bem remunerados com dinheiro dos miseráveis deste país. Que banco privado faria isso?

Uma reforma da Previdência, tão urgente quanto necessária num Brasil que conta com milhões de desempregados, é lida por eles, artistas, desde que assim comande a esquerdalha, como uma “agressão aos direitos do trabalhador”. Noventa e nove por cento desses artistas que protestam contra a reforma da Previdência não têm qualquer noção de atuária. Talvez sequer conheçam a palavra.

Como explicar esse comportamento que vai do infantil ao irracional? É preciso muito mais que um artigo como este para lançar alguma luz sobre o assunto. Uma explicação tomou 500 páginas, escritas pelo psiquiatra americano Lyle H. Rossiter, em seu livro “A Mente Esquerdista – As Causas Psicológicas da Loucura Política” (Lançado no Brasil em 2016 – e ignorado pela crítica — pela Vide Editorial, em tradução de Flávio Quintela). Rossiter é o que poderíamos classificar de seguidor de Erikson, o famoso psiquiatra alemão naturalizado americano, estudioso do desenvolvimento psíquico e comportamental, conhecido por suas locuções consagradas, como “crise da adolescência”, “crise de personalidade”, “crise existencial”, e por sua Teoria do Desenvolvimento Psicossocial.

Segundo Rossiter (e Erikson), por uma formação deficiente ou incompleta, o esquerdista quer acreditar – e acredita – em um Estado-Pai, ou (como Rossiter diz) um Estado-Babá, versão política do Grande Irmão das distopias conhecidas. O texto mostra o esquerdista benigno, aquele que só idealiza, como alguém que acredita:

— Que um Estado de esquerda ideal pode ter existência real; que esse Estado irá agir de maneira paternal e amável; que pode gerenciar a vida das pessoas como os pais gerenciam a vida dos filhos menores; que esse Estado terá como garantir saúde, segurança econômica e social de todos; que poderá regular e controlar a sociedade de modo a eliminar a adversidade econômica, a luta social e o conflito político; que esse Estado tem como atender todas as necessidades e desejos, incluindo a satisfação e felicidade.

Rossiter fala – e nem precisaria – que tais crenças não encontram respaldo no comportamento social de nenhuma cultura moderna e nem na natureza humana. As muitas tentativas fracassadas de criar esse tipo de Estado estão à vista de todos, são mais que sabidas. Todas geraram ditaduras, sofrimento e morte. Rossiter vê o esquerdista radical — aquele que não se contenta em imaginar, mas quer agir — como alguém que teve um desenvolvimento deficiente nas oito fases de formação da personalidade da teoria de Erikson, e consolida suas crenças políticas lá pelos 25 anos.

Fala Rossiter: “No início de sua idade adulta, ele expandiu sua neurose de infância numa identidade pessoal e política. Tornou-se um esquerdista radical descobrindo um universo, no tempo presente, de vítimas e vilões que ecoam seus traumas passados. Projetar suas deficiências de desenvolvimento na arena política é uma distração para seus tormentos e alívio para sua ira, mas suas simpatias pelos pobres e oprimidos e sua identificação com os abandonados e desfavorecidos são o legado de seus próprios danos de infância… Na verdade ele consegue se persuadir de que é, também, uma vítima da injustiça econômica, social e política tanto quanto as vítimas que deseja proteger. Com essa ideia em mente ele consegue sentir-se especialmente grato pela solução do esquerdismo radical para o sofrimento de todos: a chegada iminente de uma sociedade que garantirá a segurança do berço à sepultura através da regulação e taxação de seus cidadãos… Os gênios esquerdistas criarão um monumento à compaixão humana: O Estado Parental Moderno restaurará a justiça no mundo e finalmente dará boa vida a todos”.

E, leitor, veja se distingue algo parecido ao que acontece no Brasil que veio da era PT-Lula-Dilma (acumpliciados a PSOL, PCdoB e outros menos votados), nas crenças do esquerdista radical, que Rossiter enumera em seu livro, e que levam esses desequilibrados às suas desarrazoadas e drásticas ações. Cito algumas dessas crenças, muito nossas conhecidas, pelas quais já estamos pagando caro:

— Uma grande parte da população está sofrendo, porque é privada, negligenciada, explorada e abusada, por injustiças que lhe foram impostas, as quais não consegue combater.
— Esse sofrimento é causado por pessoas más (capitalistas e ricos – as elites).
— Esses vilões precisam ser impedidos de causar esse mal.
— Os vilões apoiam instituições más (econômicas, sociais e políticas): capitalismo de livre mercado, direito à propriedade, comportamento moral e ético, decoro social, estrutura familiar tradicional, responsabilidade pessoal e financeira, soberania individual, justiça com base no mérito.
— Essas instituições promovem escravidão econômica e discriminação social.
— As pessoas são como crianças, não conseguindo gerenciar suas vidas adequadamente, e não têm culpa se sofrem.
— Os esquerdistas são sábios e compassivos – são os heróis que têm a missão de resgatar os que sofrem.
— É preciso um Estado Parental Moderno para se opor aos poderosos vilões e proteger as pessoas. Esse Estado tem então que ser também poderoso.
— O Estado Parental Moderno cuidará das pessoas, provendo todas as suas necessidades e desejos. Julgará e punirá os vilões exploradores. Tomará as riquezas dos vilões e a redistribuirá às vítimas.
— O Estado Parental Moderno diminuirá os padrões de conduta criados pelos exploradores. Criará uma nova arquitetura política para uma sociedade que, sob sua direção, vai funcionar como uma família amorosa.

Tudo isso é conhecido. Já foi tentado, na União Soviética, no Leste Europeu, na Alemanha Comunista, em Cuba, e mais recentemente, na Venezuela. As consequências são conhecidas. Mais sofrimento e mortes do que nas duas guerras mundiais juntas.

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Carlos Raimundo Lucas Batista

Parabéns, Dr. Irapuan. Seu artigos são irretocáveis. Não perco nenhum deles. Sobre o livro que fala acima, já o li. Excelente. Também o outro livro citado por Vossa Excelência: “Me enganaram sobre o desarmamento”. Muito bom.

Nilson Gomes Jaime

Caro doutor Irapuan, concordo que a reforma da previdência seja necessária. Porém devo estar como “Eremildo, o Idiota”, personagem de Elio Gaspari, pois não entendo porque todos os que defendem que as reformas são necessárias não julgam necessário incluir nelas os militares, políticos, juízes, promotores e desembargadores. Exatamente (as quatro últimas categorias) as que recebem os maiores salários. Se são tão essenciais, não deveria vigorar para todos?