Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A orfandade política dos brasileiros

Se Dilma Rousseff cair, o que se tem à vista para sucedê-la não é nada animador ao País

Os peemedebistas Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros: a linha de sucessão na Presidência da República

Os peemedebistas Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros: a linha de sucessão na Presidência da República

A profundidade da crise política (deixando de lado as outras crises, como a moral a e econômica) brasileira fica mais evidente se imaginarmos as consequências de um impedimento da presidente da República: o primeiro na linha sucessória é Michel Temer (PMDB-SP), na melhor das hipóteses — e muitos falam de hipóteses piores — um implicado por omissão em todos os descalabros com que os governos petistas brindaram a nação. Como entregar a ele o comando deste barco continental?

Admita-se que Temer acompanhe Dilma numa eventual queda; quem ocuparia então o trono? Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Gostemos ou não dele, é por demais evidente que ele deve explicações, muitas explicações, sobre alguns episódios de sua biografia, inclusive na buliçosa Operação Lava Jato.

Não assumindo Cunha, a quem caberia a Presidência da República? A Renan Calheiros (PMDB-AL). Sim, ele mesmo, presente em nove de cada dez escândalos nacionais. Impedido Renan de presidir esta desditosa (por agora) nação, o sucessor constitucional seria, andando a fila, o presidente do Supremo Tribunal Federal, que é Ricardo Lewandovsky. Paremos por aqui.

Estamos órfãos, como nunca, numa crise sem líderes que possam inspirar confiança e apontar rumos à nação. Não os há também na oposição. A opção de esperar 2018, aturando por mais de três anos um governo à matroca, um aprofundamento da crise, mais desemprego e violência, só afasta o problema, não o resolve.

E também não é um cenário animador, por duas razões: primeiro porque não se vê no rol de postulantes à sucessão de Dilma, como dissemos, alguém capaz de liderar o país num momento de crise – que será bem mais profunda daqui a três anos, mantida a malta petista no comando.

E em segundo, porque a provável alternância com o PSDB não seria a rigor uma alternância, mas um pouco mais do mesmo, com uma roupagem apenas um pouco diferente. Explico: a crise que estamos experimentando não tem explicações simplistas, como muitos pensam. Não basta, para entendê-la, falar na grossa corrupção que se implantou no organismo público.
Nem na incapacidade administrativa que sempre acompanhou as esquerdas mundo afora, e que agora transparece com todas as cores no petismo; muito menos vamos entendê-la se a atribuirmos à tolerância do povo brasileiro com seus governantes, tradicionalmente pouco dotados de qualidades cívicas.

Nem se resume o problema na cultura pátria de governos fortes, hipertrofiados, centralizadores e distribuidores de benesses. A rigor, há na crise atual, que é enorme, um pouco de tudo isso, mas há um fator mais importante, que reúne, aglutina e potencializa esses outros fatores, fazendo que ocorra o atraso que o país experimenta. Falo da ideologia. E é nela que vamos encontrar a explicação para o fosso onde fomos mergulhando, e hoje nos encontramos, com água — ou coisa pior — pelas narinas.

O Brasil de minha geração viveu dois momentos de franco desenvolvimento, de razoável respeito à coisa pública, de prestação de serviços sociais minimamente aceitáveis e de segurança: nos governos Juscelino e Médici. O primeiro, essencialmente democrático, foi combatido pela ideologia, que o taxava de entreguista, enquanto ele industrializava o país. O segundo, naturalmente um governo forte, mas muito diferente de uma ditadura, como hoje a ideologia consegue fazer crer, dotou o Brasil de uma infraestrutura que, ao invés de ser ampliada pelos governos mais recentes, foi deteriorada.

Esses dois momentos mostram que podemos desenvolver e viver numa sociedade segura, com um mínimo de serviços sociais aceitáveis, desde que haja competência e honestidade dos governos em níveis razoáveis. A tolerância do brasileiro e a cultura dos governos obesos são distorções com que podemos conviver ao longo de nosso aprendizado democrático, que acabará por corrigi-las como aconteceu em nações mais velhas. O que nos impingiu a ideologia ao longo dos últimos 20 anos foi o que nos levou ao estado atual de deterioração econômica e social. É fácil ver. Basta examinar os problemas mais sérios que hoje enfrentamos em nosso dia a dia.

Eles se evidenciam principalmente na corrupção, na segurança, na saúde, na educação e na infraestrutura. Em cada um está a digital da ideologia. Para manter no poder brasileiro o partido e na comunidade bolivariana o país, arrombaram-se os cofres públicos, e levou-se à lona a nossa maior empresa, a Petrobrás. A corrupção só chegou aos níveis bilionários e incríveis que atingiu porque a meta ideológica também é enorme: ganhar na América Latina o que o comunismo perdeu no Leste Europeu, como diz o Foro de São Paulo. A segurança pública deteriorou-se a partir do instante em que se inverteu, do ponto de vista ideológico, a equação bandido contra polícia e sociedade. O bandido passou a vítima da “sociedade burguesa”, isto é, do trabalhador e da polícia, que assumiram o papel de vilões. Intocável, principalmente quando menor, protegido pelos “direitos humanos” que só conhecem um lado, justamente o do marginal, promovido a “integrante da classe oprimida, a quem a sociedade capitalista não deu oportunidades”, o bandido é hoje confiante, enquanto a polícia é contida, sempre culpada de excessos, e o cidadão, desarmado, também acuado, vê crescer o tráfico de drogas, mais os roubos e assassinatos que o acompanham sem poder se defender.

E o aumento do tráfico tem outro fermento ideológico, além do rebaixamento do aparelho policial, incapaz de fechar as fronteiras: o da tolerância para com os presidentes “bolivarianos”, como Evo Morales e Nicolás Maduro, incentivadores do plantio e do tráfico de coca. Ou seja, vem da ideologia a grave situação vivida na segurança.

Reforma penal e penitenciária não existem nos planos das esquerdas. Na saúde, é evidente a falta de hospitais, equipamentos e profissionais. Faltam recursos, alega-se. Uma das poucas providências válidas que tomou o governo, a implantação do programa Mais Médicos, foi também manchada pela ideologia, quando os profissionais vindos de Cuba, o fizeram em regime de semiescravidão, com quase 90% de seu salário confiscado pela ditadura comunista. Isto é, a medida visou mais beneficiar a ditadura cubana do que a população brasileira.

A educação, tomada pelos sindicatos a serviço dos partidos de base marxista, pelos acadêmicos que não ensinam, mas propagam chavões ideológicos, tornou-se vergonha nacional, desnudada em qualquer avaliação internacional, onde nossos estudantes sempre ocupam os últimos lugares. Também aqui fala-se na falta de recursos, como se fala nessa falta quando se menciona a sofrível infraestrutura urbana, rodoviária, portuária, aeroportuária e energética, que tanto encarece o que produzimos quando o transportamos para o exterior ou para outras regiões do país.

Mas é incompreensível que o governo alegue essa carência de recursos, principalmente em infraestrutura, enquanto financia via BNDES países com que simpatiza pela ideologia, em bilhões e bilhões de dólares, para que eles construam ou modernizem seus hospitais, portos, aeroportos, estradas, ferrovias, usinas hidroelétricas, vias urbanas e metrôs que precisamos construir ou modernizar aqui. Isso foi feito no Equador, em Cuba, em Angola, na Nicarágua, na Venezuela, na Bolívia e em outros países governados por ditadores ou semiditadores “companheiros”. Imagine-se essa fortuna bem aplicada em nossa saúde, educação ou infraestrutura. Ou mesmo, parte dela, no sistema prisional sórdido que temos.

Essa inexplicável prodigalidade tem uma só finalidade: “solidificar a integração latino-americana”, pregada pelo Foro de São Paulo, que em bom português significa ressuscitar o comunismo por aqui. Não há no espectro político dos partidos sinais de que possam surgir mudanças tão cedo. Marina Silva já se declarou contrária ao impedimento de Dilma. É comprometida, como sabemos, com a ideologia.

O principal partido de oposição, o PSDB, como foi dito acima é mais do mesmo. Não propiciará, pode-se depreender da maioria de suas lideranças, mudanças necessárias, afastando a ideologia. Para quem duvida, uma lembrança: à época do mensalão, Lula escapou do impedimento por ação de FHC, que foi procurado pelo então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, a mando do então presidente. Prontamente, FHC saiu a campo, dando total cobertura a Lula. Hoje, está sendo procurado para que dê igual cobertura a Dilma, e só não o faz porque a rejeição popular à presidente é gigantesca.

Mas o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes, já se declarou contra o impeachment de Dilma. Seria de se estranhar, em se tratando do líder do maior partido de oposição no Congresso. Mas uma lembrança faz com que desapareça a estranheza: Aloysio foi motorista de Marighella, ou seja, terrorista como Dilma, e está comprometido, pelo resto da vida, com a ideologia. José Serra, outro comprometido, está calado. Fosse presidente, como sempre quis, mas não consegue, dificilmente deixaria de lado a solidariedade “bolivariana”. Duvido que deixasse de fazer alguns agrados a Cuba.

Aécio Neves é despido de crença ideológica, e imaturo. O líder menos comprometido no PSDB com a ideologia é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Se chegasse à Presidência da República, para governar como o país precisa, teria, contudo, que domar seu partido ou sair dele. Conseguiria? Vivemos uma triste orfandade.

2 respostas para “A orfandade política dos brasileiros”

  1. Geraldo Alckmin, sem dúvida, é um dos políticos mais
    experientes e de maior destaque do país. Dirige o principal Estado da nação
    pela quarta vez. Foi reeleito no primeiro turno com uma votação muito expressiva.
    Perdeu em apenas um município dos 645. Foi também vereador, prefeito, Deputado
    Estadual e Federal. Sua trajetória o credencia a disputar qualquer cargo. Se
    Alckmin for o candidato PSDB em 2018 terá meu apoio e meu voto.

  2. Geraldo Alckmin, sem dúvida, é um dos políticos mais
    experientes e de maior destaque do país. Dirige o principal Estado da nação
    pela quarta vez. Foi reeleito no primeiro turno com uma votação muito
    expressiva. Perdeu em apenas um município dos 645. Foi também vereador,
    prefeito, Deputado Estadual e Federal. Sua trajetória o credencia a disputar
    qualquer cargo. Se Alckmin for o candidato PSDB em 2018 terá meu apoio e meu
    voto.

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