Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O que a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos tem a dizer ao Festival de Cinema de Gramado

Festa de São Paulo é bancada pela iniciativa privada e 1 milhão de pessoas participam dela. A festa do Rio Grande do Sul é bancada pelo governo

A festa de Barretos é um exemplo de eficiência da iniciativa privada e um sucesso de público; já a festa de Gramado é bancada pela Viúva e é elitista | Fotos: Divulgação

Duas festividades nacionais — e anuais — receberam cobertura equivalente da grande imprensa em agosto: o Festival de Cinema de Gramado (45º realizado, em 2017) e a Festa do Peão de Boiadeiro em Barretos (62ª edição, neste ano). Se a cobertura da grande mídia é a mesma para os dois eventos, para por aí qualquer semelhança entre eles. Traçar um paralelo entre os dois nesta conversa com o leitor não muda em nada as coisas, mas serve como meditação sobre quanto o Brasil precisa de mudanças.

Comparemos o público que comparece a uma e outra festa: à Festa do Peão estiveram presentes, neste ano, mais de 1 milhão de espectadores. Um milhão de pessoas democraticamente distribuídas entre todos os extratos sociais, níveis de renda e cultura. Um milhão de brasileiros comuns, gente nossa e boa, que trabalha bem, vota (nem sempre bem, pois falta informação), sofre e sonha.

Ao Festival de Cinema de Gramado talvez tenham comparecido 80 mil pessoas, embora os organizadores falem em três ou quatro vezes esse número; e com exceção dos moradores locais, eram componentes de uma elite bastante privilegiada nos últimos anos: diretores, produtores, artistas de cinema ou TV nacionais, jornalistas, amantes da chamada sétima arte, além de meia dúzia de gatos pingados estrangeiros, convidados pelo festival, fazendo um turismo por aqui, que ninguém é de ferro.

Já vai aí uma grande e inegável diferença: um evento é popular, e o outro, elitista. Com uma particularidade, e essa é uma segunda e grande diferença: à festa elitista de Gramado, comparecem justamente aqueles que, em grande parte, talvez na sua maioria, compõem, no Brasil e alhures, um segmento que demoniza as elites: os artistas da mídia — do cinema, da TV e da imprensa em geral —, mas que inegavelmente compõem uma elite. E à festa popular compareceram os que não se preocupam com o que pensam os artistas — aliás são os que os aplaudem.

Talvez os adeptos da Festa do Peão nem saibam o que muitos destes artistas pensam de seu evento: uma invenção dos latifundiários exploradores para anestesiar o campesinato explorado. E não se importariam, se soubessem. Conhecem a realidade, e ela não é essa. Outra grande diferença, e nela reside um grande paradoxo, está em quem patrocina uma festa e quem banca a outra. A festa popular tem patrocínio público, e a festa da elite patrocínio privado, certo, caro leitor? Errado — totalmente errado. A Festa do Peão de Boiadeiro, promovida por um grupo da cidade de Barretos — Os Independentes — conta com patrocínio de: Cervejaria Brahma, Sky, Unimed, e mais uma dezena de empresas privadas. Verba pública é o que há de raro por lá.

Já o Festival de Cinema de Gramado conta sempre com o di­nheiro do BNDES, da Petrobrás, do Ministério da Cultura, embora existam também empresas que contribuam com alguns caraminguás. Para o festival de Gramado, o grosso patrocínio sempre foi arrancado — sem muito esforço, aliás — dos cofres públicos.

As diferenças continuam: a Festa do Peão é algo grandioso, mesmo para a escala mundial. Dizem os entendidos que só há, nos Estados Unidos, um rodeio de sua envergadura: o Professional Bull Riders de Las Vegas. E que só um evento semelhante é maior que nossa festa: a Calgary Stampede, no Canadá.

Já o Festival de Cinema de Gra­mado, embora por vezes encerre coisas importantes do ponto de vista nacional (este ano apresentou um filme homenageando o grande maestro João Carlos Martins), não tem qualquer expressão internacional. Desapa­rece quando se fala no mais famoso evento do cinema, o Oscar americano, ou no europeu Festival de Veneza.

E se tomarmos os protagonistas, os artistas centrais de uma festa e de outra, a diferença fica ainda mais gritante: os peões brasileiros, em 20 anos foram vencedores da metade dos rodeios de Las Vegas. Dos dez melhores peões do mundo, seis são daqui. Filmes brasileiros e artistas brasileiros jamais conquistaram um mísero Oscar americano sequer, a despeito dos rios de dinheiro público derramados pelo governo no cinema nacional e do barulho que fazem todos os anos os cineastas patrícios que concorrem ao prêmio de melhor filme estrangeiro. O filme brasileiro não vale o celuloide —dizia Paulo Francis. Isso sem falar na corrupção que sempre surge quando se trata do dinheiro público. Recentemente, dois artistas famosos (Guilherme Fontes e a falecida Norma Benguell), que resolveram produzir filmes, tiveram, por desvio de verba, suas complicações com a Polícia Federal e com a Justiça, para não falar em casos menores.

A Festa do Peão de Boiadeiro, de Barretos, é uma festa do homem do agronegócio, seja ele o grande plantador ou o sitiante; seja ele o invernista ou o peão. Seja ele o caminhoneiro que transporta a soja ou a boiada, o vendedor de tratores ou colheitadeiras, o veterinário, o agrônomo, o comerciante de vacinas, adubos ou defensivos. Ou ainda o granjeiro, o criador de gado ou montarias puro sangue ou o simples criador de alguns animais de lida. É a festa do homem voltado para um trabalho que começa antes do raiar do dia e vai ao anoitecer. E esse trabalho tem sido responsável por duas grandes conquistas nossas: o alimento barato que o brasileiro consome e os sucessivos superávits comerciais que sustentam nossa balança comercial. Tal como faz sua festa sozinho, sem recorrer ao governo, esse homem também trabalha com independência, sem ajuda, e é mesmo acossado por um batalhão de inutilidades. Ora são os fiscais do Trabalho, para quem qualquer deslize de um empreendedor representa exploração de trabalho escravo, ora são os do meio ambiente cujas exigências só não são maiores que sua enorme burocracia, ora são os desocupados do MST a invadir, a depredar e até matar. Ou são os bandidos bem armados, ladrões de gado e equipamentos, a que ele não pode fazer frente, pois o governo o desarmou. Quando não são as estradas intransitáveis, é a energia elétrica deficiente, ou são os portos sem calado e atravancados a atanazá-lo, enquanto dinheiro brasileiro financia infraestrutura de Cuba e Venezuela. Com tudo isso, cumpriu e cumpre, bem, nosso homem do campo, seu dever.

Quanto a nossos artistas, os festeiros de Gramado, grande parte deles deveria pôr os pés em terra. Nem digo na terra, algo impensável para quem vive só nos grandes centros e quando muito põe os pés na areia das praias da zona sul carioca. Falo daqueles que não veem a grossa roubalheira de que estamos saindo. Que não percebem que a esquerdalha quase quebrou a Petrobrás que os financia. Arautos de uma ideologia inepta e corrupta, vivem voltados para o passado. São artistas, mas não tão bons assim, pois só fazem sucesso aqui dentro. Lá fora, quando muito são coadjuvantes. Em vez de se aprimorarem na sua arte, se arvoram em políticos, mas retrógrados, ultrapassados, que nem exemplos sabem buscar, pois se espelham em Cuba e na Venezuela, quando deveriam se espelhar na Alemanha ou na França. Defendem os que perderam o poder pela incompetência e pela roubalheira e querem sua volta. São cegos quando não veem, como dizia o padre Vieira, e quando veem, muito mais cegos. Para vivermos todos como empregados do governo, como defendem, só se o governo for totalitário. Aí vão acabar as três coisas que os artistas adoram, como dizia Roberto Campos: cachê em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. E pior: já terá acabado a liberdade, e não só para eles. Para nós também.

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