Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O cinismo do “politicamente correto”

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Milhares de venezuelanos cruzam fronteira com Colômbia em busca de alimentos: PT quer o mesmo para os brasileiros?

O desarmamento da parte boa da sociedade é uma excrescência aguardando banimento. Foi imposto por uma lei aprovada por acordo de lideranças, no apagar das luzes da sessão legislativa de 2003 (Lei 10826/2003). Era a época de votos comprados pelas propinas do mensalão, e a aprovação foi manejada pelas mais finórias figuras do legislativo (Renan Calheiros, Luiz Eduardo Greenhalg, Laura Carneiro, etc.). Não houve maiores debates nem dentro do Congresso, e a tal lei só viria a ser discutida (e rejeitada) pela sociedade no referendo de 2005. Apesar da rejeição por dois terços da população, e de inúmeras manifestações de repúdio por parte da sociedade via meios de comunicação, a lei continua em vigor, guardada ideologicamente pelas esquerdas ligadas a Lula, Dilma e Fernando Henrique Cardoso, e economicamente por parte da imprensa, premida pelos credores internacionais interessados em nos desarmar. O desarmamento, ineficaz em todas as partes do mundo em que foi implantado, deu no Brasil mais confiança aos criminosos e responde pela enorme insegurança e pela grande violência, que desde a promulgação da lei só fizeram aumentar.

Absurdos e paradoxos pululam, em consequência desse desarmamento, e cinismo ainda mais. Tomemos dois exemplos recentes desse cinismo: O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em tempos recentes manifestou-se integralmente a favor da manutenção da lei, também chamada Estatuto do Desarmamento. Em outras palavras, afirmou que os cidadãos de bem, cumpridores da lei e de boa convivência social, como o caro leitor, não podem ter armas. Sua segurança e de sua família devem ser providas pelo Estado. Não disse, evidentemente, e já vai aí boa dose de cinismo, que o Estado não tem como prover a segurança de todos, em todos os lugares e a qualquer hora. Mas declarou ao jornal norte americano “The Washington Post” que mantém, à cabeceira, uma pistola municiada e dois carregadores de reserva. Não importa que ele tenha – como tem – porte de arma. Nem que tenha – como tem – segurança armada. Aí vai o enorme cinismo: você, leitor, não pode andar armado. Para comprar uma arma e mantê-la em casa, tem que enfrentar uma burocracia que exige uma paciência chinesa. Posso afirmar com toda tranquilidade, pois conheço várias pessoas na situação do leitor, honestas, corretas, que tiveram seu pedido de porte de arma (ou a simples renovação dele) negado, sem explicação alguma, e são pelo menos tão diligentes e responsáveis quanto o sr. Janot para portar uma arma. Têm, além disso, com toda certeza, muito mais conhecimento e preparo que o sr. Janot, pois muitos são aficionados e atiradores esportivos. Por que eles não podem, mas pode o sr. Janot? Por que não dá o exemplo, sr. Janot? Entregue sua arma à Polícia Federal, já que o cidadão, em sua opinião, deve confiar apenas na ação policial. Outro exemplo absurdo vem lá do Rio Grande do Sul: um traficante, preso em flagrante de delito, quando vendia pedras de crack, portava na cintura uma arma e na mochila munição extra. Lavrado boletim de ocorrência, oferecida denúncia ao juízo, o processo, em apelação, chegou ao magistrado Diógenes Vicente Hassan Ribeiro, do Tribunal de Justiça daquele Estado. Que exarou a sentença que será para sempre lembrada entre as incríveis: condenando o bandido por tráfico de entorpecentes, e o absolvendo do crime de porte ilegal de armas, vez que “Porte de arma destinado à proteção pessoal em razão do comércio de entorpecentes praticado e ao guarnecimento da atividade ilícita. Corolário lógico é absolvição por atipicidade”. Isso mesmo, leitor, o traficante foi absolvido do crime de porte ilegal por ser sua atividade de risco. Ele precisa se proteger pessoalmente, segundo o meritíssimo. Por certo de outros traficantes, mas também da ação policial. Na prática, o traficante recebeu da Justiça uma autorização de porte de arma, que você, leitor honesto, não consegue. Como se dizia antigamente: durma-se com um barulho desses!

O “politicamente correto” encampou em nosso país a indulgência com os criminosos e a severidade com os policiais, que tem resultado em graves prejuízos para a sociedade e para quem tem o dever de protegê-la. Vimos, há poucos dias, o que ocorreu na localidade de Itacaiú, Britânia, aqui em Goiás: um desordeiro violento, Brunno Vieira, resistiu a uma ação policial, desrespeitou a ordem de detenção, entrou em luta com os policiais encarregados de prendê-lo. Estes, temerosos de usar mais força para manter a ordem, acabaram baleados por Ismael, pai de Brunno, que covardemente, subtraiu a arma do sargento Uires, o atingiu mortalmente pelas costas e ainda atingiu o seu colega, o soldado Helio Bezerra. Foi morto também, completando a tragédia. Brunno e outra pessoa resultaram, ainda, feridos. Para completar os desacertos, Brunno, que havia sido preso, foi liberado no outro dia, por ordem do juiz da comarca, Luiz Henrique Lins Galvão. Houvessem os policiais imobilizado Brunno com um disparo, por exemplo, na perna, como fazem os policiais de qualquer lugar do mundo, evitar-se-ia a tragédia. Mas não o fizeram, temerosos – com razão – da reação dos “politicamente corretos”. Seriam acusados de excessos, de violência desnecessária, e tantas outras acusações que vemos todos os dias nos jornais recaírem sobre policiais que estão cumprindo seu dever e nos protegendo. O resultado foi o mais funesto possível: Um policial morto, deixando oito filhos na orfandade, o agressor também morto e outro policial gravemente ferido. E mais duas pessoas também feridas, com menor gravidade. Para coroar, o pivô de todo o acontecido foi liberado pela Justiça. Moralmente correto o sr. secretário de Segurança e vice-governador José Eliton: compareceu ao enterro de seu policial, apoiou o seu colega ferido e censurou a decisão judicial equivocada, além de determinar que Brunno fosse preso novamente, corresponsável, logo cumplice que é, por todo o acontecimento.

O “politicamente correto” chegou ao cume na vizinha e socialista Venezuela. Não há comida, e nem existem produtos de higiene. Multidões correm às cidades fronteiriças da Colômbia e do Brasil para comprar alimentos. Os infelizes vizinhos viajam centenas de quilômetros para conseguir um pouco de arroz, feijão e óleo de cozinha. Paracaima, em Roraima, é uma dessas cidades buscadas pelos venezuelanos ameaçados pela fome. E há notícias de que já escasseiam tecidos e roupas no país vizinho. Esse o destino que os petistas nos reservavam, caso não caíssem: nos fazer esfomeados e seminus. E o “politicamente correto” encobre também – e muito bem – a compra de votos. A jornalista Miriam Leitão revela que em Brasília, 45 mil “pescadores artesanais” recebem o seguro defeso, aquele salário mínimo que o governo dá, cinco meses por ano, aos pescadores, pretensamente para que respeitem a época reprodutiva dos peixes. Há algumas coisas estranhas nesse fato: o período reprodutivo não é tão extenso, e se o fosse, outra fonte de renda teria que ter o pescador no período do defeso.

Ou estaria o governo estimulando o ócio e a vadiagem. E é difícil conceber 45 mil pessoas vivendo da pesca em Brasília. Se assim fosse, o lago Paranoá estaria cercado de gente pescando. E quantas pessoas há, no Brasil inteiro, se só em Brasília há essa multidão, recebendo auxílio por quase metade do ano, para cruzar os braços? Finalmente, levantamento sobre o Bolsa Família só na região de Ribeirão Preto, no interior paulista, mostrou milhares de fraudes, com até políticos e empresários recebendo o auxílio. É de se perguntar: houve alguma atividade petista em que tudo ocorresse dentro da correção e da honestidade? l

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