Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O capitalismo desenvolveu a Alemanha (ex-)comunista

Stuttgart, a cidade berço do marxismo-leninismo é um desmentido cabal da teoria comunista como solução | Foto: Wikiédia Commons

Stuttgart, a cidade berço do marxismo-leninismo é um desmentido cabal da teoria comunista como solução | Foto: Wikipédia Commons

De Stuttgart: Se o leitor for religioso, poderá dizer que se trata de uma demonstração divina; se não o for, poderá afirmar que é uma ironia do destino. Nesta cidade no sudoeste alemão, capital do Estado de Baden-Württemberg, surgiu a aliança entre Karl Marx e Friedrich Engels. Aqui foi publicado o primeiro trabalho conjunto da dupla, “A Santa Família”, em 1845, um livreto filosófico-satírico dirigido contra os irmãos Bauer (Bruno e Edgar), divulgadores do pensamento de Hegel, muito em voga na época e na Alemanha.

Passaram-se mais de três anos até que surgisse o trabalho de maior impacto da dupla: “Manifesto do Partido Comu­nista”, impresso em Londres em 1848. Stuttgart foi, pode-se então dizer, o berço da cooperação dos dois teóricos comunistas, e aí surge a ironia do destino, o riso dos deuses, a manifestação divina.

Terminada a Segunda Guer­ra, a cidade, no lado alemão ocidental, não comunista, seriamente danificada pelos bombardeios aliados, foi completamente restaurada em menos de duas décadas, inclusive em seus monumentos e edificações históricas. Logo passou a ostentar elevada qualidade de vida, enquanto suas congêneres do lado alemão oriental, sob regime comunista, nem sequer conseguiam se livrar completamente dos escombros que a guerra havia deixado.

A renda per capita do habitante de Stuttgart era, uma década antes da queda do muro de Berlim, mais que duas vezes a de um habitante de Dresden, cidade do mesmo porte (meio milhão de habitantes) na Ale­ma­nha comunista. Isto para nos atermos ao menos importante, a economia, que só tem valor relativo perante as liberdades democráticas.

Em resumo, a cidade berço do marxismo-leninismo foi e é um desmentido cabal da teoria comunista como solução dos problemas econômicos e sociais da humanidade. O paraíso do proletariado sob o regime comunista nunca foi sequer vislumbrado em lugar algum onde se implantou a doutrina marxista.

Ao contrário, o que se viu foi sempre um nível de vida precário, com baixa opção material, algo bem próximo da fome e da miséria, e um sufoco brutal nas liberdades de conhecimento, de expressão, de ir e vir, como se constata até hoje nos regimes que ainda gastam o resto da herança comunista, como Cuba e Coreia do Norte.

Stuttgart, onde nasceu a cooperação de Marx e Engels, é hoje um dos maiores centros democráticos e capitalistas não só da Alemanha, como da Europa. O operariado aqui não só tem afluência material, como educação e cultura de primeira ordem, além da liberdade, com informação abundante para fazer suas opções políticas com segurança.

Se em algum lugar foi ouvida a conclamação do Manifesto Comunista: “Operários, uni-vos”, foi aqui na Alemanha, quando caiu o muro de Berlim, e a antiga RDA, a Alemanha Oriental, mostrou necessitar de ajuda para se erguer do descompasso que o regime comunista lhe havia imposto em relação à Alemanha capitalista, descompasso esse agravado pela devastação da Segunda Guerra, já superada na outra Alemanha.

As folhas de pagamento, no Estado e na iniciativa privada, no lado ocidental, sofreram cortes, e os recursos arrecadados do operariado democrático alemão foram dirigidos à reconstrução da parte infeliz do país, agora reunificado. Nenhum operário livre protestou por se ver obrigado a ajudar outro operário necessitado, por ter até ontem carregado nas costas o desastre comunista.

Os protestos só agora estão surgindo, com um argumento irrespondível: “Depois de mais de 20 anos, a antiga Alemanha Oriental já se recuperou, tem infraestrutura melhor até que a Ocidental, não há mais desemprego, então pode cessar a ajuda” — dizem os antigos alemães ocidentais, para os antigos alemães orientais.

Karl Marx e Friedrich Engels, autores  do “Manifesto do Partido Comunista: a ironia do destino quis que a cidade em que a obra foi elaborada tivesse o capitalismo como sua salvação | Fotos: Wikipédia Commons/

Karl Marx e Friedrich Engels, autores do “Manifesto do Partido Comunista: a ironia do destino quis que a cidade em que a obra foi elaborada tivesse o capitalismo como sua salvação | Fotos: Wikipédia Commons/

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