Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Números e fatos sobre a Covid que é preciso debater

O enorme bombardeio de notícias funéreas a que estamos submetidos não tem razão de ser, se observarmos a lógica indesmentível dos números

Fenômenos da natureza podem, muito frequentemente, se traduzir em quantidades mensuráveis, isto é, em números. São os fatos mais passíveis de interpretação cognitiva, isto é, são os que, com maior confiabilidade, podemos conceber em nossa mente. É evidente que essa mensuração deve, ela também, ser confiável. Os métodos de medida devem ser precisos e deve existir uma ética no apresentá-los a quem deles vai fazer uso ou ao público geral. Medidas grosseiras ou falseadas levam a concepções errôneas. Como todo conhecimento é comparativo, mais fácil e preciso é comparar — logo, conhecer — o que se pode medir com números. Tudo isso é dito para comentar, uma vez mais, a pandemia do coronavírus, agora com um ligeiro olhar sobre a Europa do final do ano. Observe a tabela abaixo, que iremos comentar. Ela contempla os efeitos da pandemia em vários países europeus, de diferentes situações geográficas e populações, e é complementada com dados do Brasil e dos EUA. Um micro balanço pandêmico europeu. Vamos examiná-la.

A primeira coluna mostra a população de cada país, a segunda o número de infectados pela Covid-19, a terceira o número de mortos pela doença. As outras três colunas medem, respectivamente: como cada país foi afetado pela doença (porcentagem da população que foi contagiada), como cada país foi impactado pelas mortes por Covid (mortos por 100.000 habitantes) e a porcentagem de doentes por Covid que vieram a falecer. Com isso, e como se trata de dados colhidos por uma universidade americana conceituada junto a governos de países democráticos amadurecidos, podemos tirar algumas conclusões confiáveis. E levantar algumas dúvidas válidas. Não podemos nos esquecer que as várias nações relacionadas adotaram procedimentos diversos quando se instalou a pandemia. O Reino Unido, por exemplo, adotou políticas rígidas de fechamento, encerrando comércio, indústria e ensino, já em 18 de março do ano passado. Portugal seguiu mais ou menos o mesmo caminho, fechando o comércio, proibindo circulação interna entre regiões e adotando toque de recolher nos fins de semana e feriados. Outros países adotaram políticas mais rígidas, como Turquia e Itália, outros menos rígidas, como a Bélgica e a França, e finalmente a Suécia, repeliu completamente qualquer medida de restrição, deixando livre sua economia e mantendo em funcionamento indústria, comércio e suas escolas.

A observação da tabela acima revela
1

As medidas coercitivas dos governos não se mostraram efetivas e não aparentam ter efeito maior que a orientação pura e simples das populações quanto a cuidados de profilaxia. Levadas em conta, claro, a consciência e a disciplina das populações em adotar essas medidas. Se compararmos a Suécia, onde não houve “lockdown”, com Portugal e Suíça, que adotaram medidas bastante restritivas, vemos que o número proporcional de infectados suecos foi equivalente ao de Portugal e menor do que o da Suíça (e também equivalente aos de Espanha, Itália e França — e bem inferior ao da Bélgica), enquanto o número de mortos proporcionalmente à população foi equivalente ao da Suíça, embora um pouco maior que o de Portugal, e bem inferior, proporcionalmente, aos mortos de Bélgica, Espanha, França, Itália e Reino Unido.

2

Os impactos de contágio e mortes foram menores, no grupo indicado, na Dinamarca, na Alemanha e na Turquia e muito maiores na Bélgica, Espanha, Itália e Reino Unido.

3

Os Estados Unidos, se comparados aos países europeus, estariam entre os mais atingidos, quer pelo número de infectados, quer pelo número de mortos, em relação à população, embora estejam numa posição ligeiramente melhor, quando se fala da mortalidade entre os infectados.

4

O Brasil, se comparado aos países da Europa, ao contrário do que toda “grande imprensa” nacional quer fazer acreditar, não se encontra em desvantagem. O enorme bombardeio de notícias funéreas a que estamos submetidos não tem razão de ser, se observarmos a lógica indesmentível dos números. Fomos bastante impactados, sim. Mas a porcentagem de brasileiros infectados por Covid foi inferior àquela da maioria dos países desenvolvidos da Europa, aí incluídos Bélgica, Espanha, França, Portugal, Suécia e Suíça. Os nossos mortos, proporcionalmente à população, também ficaram abaixo daqueles dos países mais desenvolvidos da Europa. E, levando em conta a excelência dos serviços de saúde de países como Bélgica, Espanha, Itália e Reino Unido, perdemos proporcionalmente menos doentes do que esses países (e outros países europeus desenvolvidos). Um estardalhaço que nossa imprensa vem fazendo quanto a um possível atraso na vacinação dos brasileiros também não se justifica. O início da vacinação já se dá em alguns países europeus, como Alemanha, Itália e Portugal. Mas em número reduzido, visando principalmente os profissionais de saúde. O único país que, neste momento em que escrevo, promove uma vacinação maciça é Israel. Em praticamente todos os países da Europa ainda estão pendentes registros de várias vacinas e há dificuldades com fornecimento de seringas e agulhas. Isso é o que os números dizem. Como acreditar neles é uma questão ideológica.

4 respostas para “Números e fatos sobre a Covid que é preciso debater”

  1. Avatar Alvaro Castro disse:

    Artigo excelente, parabéns ao Ex Governador Irapuan .

    Deveria ser matéria de página inteira no jornal e não um artigo . São com dados reais que se informa a população

  2. Avatar Caio Maior disse:

    O Brasil tem 10% das mortes por Covid-19 e 2,7% da população global. Qual a explicação?

  3. Avatar Luiz Rassi Jr disse:

    Como tudo que escreve, Irapuã da Costa Jr dá um show de interpretação dos dados que nos são jogados goela abaixo pela imprensa que está moribunda após o fechamento das torneiras da corrupção dos governos anteriores.
    Obrigado governador!

  4. Avatar Luiz Chein disse:

    Excelente análise, séria, isenta de paixões ideológicas, mostrando o que muita gente não enxerga e o que a “grande mídia” ignora e não divulga.

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