Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Michel Temer não é Itamar Franco, mas defender seu governo é salvar o Brasil

Políticos não veem o quanto estão desacreditados perante a sociedade, que trabalha, paga impostos e sente a falta dos mais elementares serviços de educação, saúde e segurança

Michel Temer e Itamar Franco, o pai do Plano Real e um político íntegro. O presidente atual, se não é o que se tem de melhor, é a única alternativa ao caos absoluto  (atrás, pode-se ver Orestes Quércia, que não tinha o valor do político de Minas Gerais)

Michel Temer e Itamar Franco, o pai do Plano Real e um político íntegro. O presidente atual, se não é o que se tem de melhor, é a única alternativa ao caos absoluto
(atrás, pode-se ver Orestes Quércia, que não tinha o valor do político de Minas Gerais)

Dos ex-presidentes da Repú­bli­ca recentes, o menos falado é o engenheiro Itamar Franco. Por várias razões. Uma, evidente, é a de que, falecido, não se manifesta sobre os problemas atuais e não abre polêmicas na imprensa. Outra, a de que sempre foi discreto, mesmo sendo um tanto irritadiço. Essa discrição permitiu que Fernan­do Henrique Cardoso se apossasse do Plano Real, como se fosse projeto seu, quando foi imposto a ele, amedrontado e relutante, por um Itamar resoluto.

Mas a mais importante das razões reside no fato de ter sido um governante honesto, avesso às negociatas em cuja tentação caíram todos os seus sucessores. Não há o que falar dele. Não surgiu em nenhum escândalo, não comprou votos para uma reeleição, não protegeu empreiteiras ou amigos em concorrências fraudadas, empréstimos favorecidos, cargos a serem usados para obtenção de propinas. Não ficou rico com a atividade política, caso raro de ex-governador e ex-presidente da República.

A passagem de Itamar Franco pela Presidência se deu em circunstâncias muito semelhantes àquelas que hoje sufocam Michel Temer. Herdou um governo marcado pela corrupção e pela incompetência; uma economia em frangalhos; uma oposição tão combativa quanto desonesta; um Congresso de trato difícil, embora não tanto quanto o atual.

Henrique Santillo

Vivi de perto os dramas de governo sofridos por Itamar Franco. Tinha sido seu colega no Senado e dávamo-nos bem. Líder do Partido Progressista (PP) no Senado, vi que ele, na época tanto quanto hoje Temer, precisava do apoio dos de boa vontade para superar os enormes problemas que tinha pela frente. Tudo fiz ao meu alcance para ajudá-lo, como quando, formando sua equipe, contava com integrante do PP para o Ministério da Saúde, e pediu-me para coordenar a escolha com as bancadas do partido na Câmara e no Senado, recomendando: “Conduza essa escolha para alguém competente e honesto, adequado para o cargo, como nosso amigo Henrique Santillo. Se por um lado faço uma concessão política a um partido, por outro exijo que ele me indique alguém correto e com conhecimento na área”. Deu Henrique Santillo.

Se as circunstâncias de Itamar e Mi­chel Temer são semelhantes, algumas características são, contudo, diferentes. Itamar pouco tergiversava ou recuava, ao contrário de Temer. Tomava decisões rápidas e firmes, mas tinha pouca paciência com fa­lhas de auxiliares — era duro no tra­to, ao contrário de Temer, que é afável e cavalheiro. Como disse antes, Itamar enfrentava alguns problemas quanto a pedidos políticos, mas teve sabedoria para administrá-los.

Na verdade, os presidentes da Câmara dos Deputados com quem conviveu, Ibsen Pinheiro e Inocêncio de Oliveira, compreenderam melhor que o atual, Rodrigo Maia, a gravidade do momento político, e colaboraram mais com Itamar. Rodrigo Maia já tumultua a Câmara, ao forçar a barra para uma reeleição ilegal.

Mistério Renan

Mais ainda colaboraram com Itamar os presidentes do Senado, Mauro Benevides e Humberto Lucena, homens corretos, competentes e de elevado espírito público. Nisso, Itamar levou enorme vantagem sobre Temer, que se vê na obrigação da convivência e das exigências de Renan Calheiros, cuja permanência no cargo é um mistério, cujos desvãos só conhecem seus colegas de Senado, o procurador-geral da República e os ministros do Supremo.

Lembro-me bem de Hum­berto Lucena, já falecido, de uma ho­nestidade a toda prova, incapaz de aceitar um favor de algum em­pre­sário. Tinha duas filhas, belas por sinal, funcionárias concursadas do Senado, que lá compareciam re­ligiosamente ao trabalho, em seus fus­quinhas usados. Itamar chegou a iniciar namoro com uma delas, pouco antes de se tornar presidente. Que contraste com o atual, e o pagamento das despesas de sua filha com a jornalista Mônica Ve­lo­so por uma empreiteira beneficiada com favores governamentais…

Itamar, tal como Temer, compôs um ministério suprapartidário, onde entrou até Luiza Erundina, pelo PT (mas foi expulsa do partido, que adotou uma linha de oposição radical, e acabou se demitindo, por dificuldade de convivência com os colegas) e cercou-se de alguns poucos assessores competentes e de confiança. Diferente­mente de agora, porém, não pesavam suspeitas sobre os auxiliares de Itamar, todos mineiros, donde ter surgido, para nominar o grupo, a designação de “República do pão de queijo”. Eram os irmãos Hen­ri­que e Ruth Hargreaves, o professor Murílio Hingel, Mauro Du­ran­te e mais uns dois ou três companheiros. Cercavam, assessoravam e pro­tegiam Itamar, mais ou menos como faziam com Temer, o presidente atual, Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Eliseu Padilha e Mo­reira Franco, só que não arrastavam suspeitas e acusações atrás de si.

Conclamação e alerta

Toda essa longa introdução tem a finalidade de servir para uma conclamação e um alerta. A conclamação é para que todos façamos o que cada um puder para au­xiliar o governo na superação dessa crise, que desemprega milhões, asfixia empresários, afasta investidores e espalha desesperança. Ne­nhum outro caminho se vislumbra no momento, senão o da paciente, sofrida e trabalhosa reconstrução nacional. Para isso, Temer precisa de apoio. Mais trabalhosa ainda é a reconstrução porque tem que enfrentar uma oposição raivosa, composta justamente dos responsáveis pelo desastre instalado no país. E que ainda usam dinheiro público para suas patranhas. Deixaram muitos furos nas arcas, justamente para isso.

Já o alerta vem de um fato recente, em que Temer não se espelhou na correção de Itamar, como deveria. Em 1993, estourava no Congresso a CPI do Orçamento. Descobria-se um esquema de desvio de verbas orçamentárias, envolvendo empreiteiras e congressistas. Muitas cassações, como se viu na época, cairiam sobre deputados, principalmente, que ficaram conhecidos como “anões do orçamento”, dado a baixa estatura física (além da moral) daqueles deputados.

Um funcionário da Comissão de Orçamento da Câmara, partícipe da rou­balheira, que mais tarde se descobriu ser um verdadeiro facínora (planejou e executou o assassinato a sangue frio de sua mulher) lançou uma sus­peita sobre Henrique Hargreaves, que era funcionário concursado da Câ­mara, antes de se tornar ministro de Itamar.

No início do escândalo, Har­greaves foi chamado por Itamar (ou compareceu por vontade própria) e apresentou uma carta de demissão, mesmo protestando inocência. Itamar prontamente aceitou a demissão, dizendo que sob suspeita não poderia ser ministro. Que provasse sua inocência, e seria readmitido. O que aconteceu três meses depois.
O acusador tentara o golpe de arrastar o possivelmente mais forte ministro do governo para a investigação, pensando assim em minimizá-la. Assim agiu Itamar: afastou seu mais próximo ministro, e, além disso, seu amigo de longa data, só o recebendo de volta no governo com a inocência demonstrada.

Agora, o que ocorre com Temer: o ministro Geddel Vieira Lima, comprovadamente para se beneficiar em um empreendimento imobiliário, exerce pressão sobre outro ministro, tentando obter favores indevidos. O ministro se sente tão pressionado que se demite. O caso vai para os jornais. Geddel, em vez de pedir demissão, se agarra ao cargo, e nem sequer se desculpa. Mesmo com todo o desconforto, Temer não o demite. Pelo contrário, parece ter manobrado, ou no mínimo se omitido numa desastrada ação de solidariedade de líderes da situação no Congresso a Geddel, ação amparada por Renan (não é de se admirar) e Rodrigo Maia.

A demissão inevitável de Geddel só veio depois de um desgaste enorme e desnecessário. O bom exemplo de Itamar não foi seguido. E a classe política brasileira parece não ver o quanto está desgastada, como está desacreditada perante o brasileiro comum, que trabalha, paga impostos, sente a falta dos mais elementares serviços de educação, saúde e segurança.

O harém viúvo de Stálin e a morte de Fidel Castro

Quem ama, ainda que pouco, a democracia e a liberdade sofreu uma crise de engulhos ao ver na televisão a cobertura da morte do ditador (que a imprensa xinga de presidente) Fidel Castro. Os jornalistas, que na sua maioria se embeveciam com os arroubos em vida do barbudo tirano, em sua morte só faltam lançar, como dizia Nelson Rodrigues, lágrimas de esguicho. Desconfio que elas tenham jorrado no escurinho dos quartos e no quentinho das camas desses apaixonados.

O historiador Daniel Aarão Reis, em um programa global, falava extasiado sobre Fidel. Até as mortes covardes, os “paredons”, assumem para ele ares de heroísmo: Fidel fuzilou os torturadores e assassinos cúmplices do ditador Fulgencio Batista — proclamava, grandiloquente. Deixe­mos de lado o cinismo, Aarão.

Fidel fuzilou os policiais de Batista, torturadores ou não (os processos sumários nada esclareciam), os dissidentes, alguns velhos companheiros que ameaçavam sua liderança, e matou, por pressão, os que tentavam beijar a liberdade fugindo em suas embarcações improvisadas pelo mar do Caribe, e se afogavam, ou eram devorados pelos tubarões. Morte, sofrimento e miséria compõem o legado do ditador. Mais nada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.