Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Max Hasting relata histórias “miúdas” da Segunda Guerra Mundial que outros historiadores ignoram

O brilhante pesquisador britânico registra histórias de bravura de soldados, oficiais e pessoas comuns, não apenas as decisões dos governantes e dos generais

Este livro notável vasculha a vida cotidiana dos que lutaram e dos que sofreram com as batalhas na Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945

Este livro notável vasculha a vida cotidiana dos que lutaram e dos que sofreram com as batalhas na Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945

O jornalista e historiador inglês Max Hastings, de 70 anos, é autor de uma vintena de livros sobre temas militares. Publicou recentemente um livro sobre a Segunda Guerra Mundial — “Inferno — O Mundo em Guerra: 1939 -1945” (Intrínseca, 816 páginas, tradução de Berilo Vargas).

Quando publicado em língua inglesa, em 2011, o livro mereceu um comentário do “New York Times” que começava com uma afirmação e passava a uma pergunta: com tantas publicações já aparecidas sobre o tema — praticamente um livro sobre o conflito global sai a cada semana —, precisamos de mais essa? A resposta vinha a seguir, no próprio artigo: “Sim, enfaticamente sim”.

Quem leu ou lê sobre a Segunda Guerra e abre esse livro, vê desde as primeiras páginas que está diante de uma narrativa diferente. Sir Max Hastings avisa, na introdução: “Este livro trata, principalmente, de experiências humanas”. Mesmo os melhores livros já saídos sobre o tema, e talvez pela sua extensão no espaço, no tempo e nas populações atingidas ou simplesmente envolvidas, são limitados às grandes personagens políticas ou militares e às grandes batalhas.

Os personagens são os grandes chefes (Hitler, Stálin, Churchill, Roosevelt) e seu entourage mais próximo, ou os generais e almirantes mais graduados, mais ou menos capazes, que atuaram nos vários teatros de operações. Raramente os atores dessas ações têm a patente inferior a coronel ou a major.

Os historiadores produzem seus livros como se contemplassem a história de um avião a dez mil pés de altura, donde enxergam as grandes decisões estratégicas das chefias ou as grandes movimentações táticas dos exércitos. Raramente descem a uma trincheira onde um soldado sofre com o frio e a fome ou com a expectativa (quando não a certeza) da morte próxima. Não baixam a um convés de navio que recebeu um torpedo e está prestes a ir ao fundo, logo não vê a tripulação que espera o afogamento ou a morte por intermação no mar gelado.

Não tem contato com a velha aldeã da estepe russa que foi saqueada pelos soldados que por ali passaram (primeiro alemães, e depois os próprios compatriotas) e que está prestes a morrer de inanição.

Max Hastings fez diferente: sem deixar de examinar com precisão as decisões estratégicas e os grandes movimentos de tropas, documentou-se com o soldado comum, a dona de casa, os velhos e crianças que sentiram as privações e viram a face da morte. Cartas de trincheira, diários de combatentes mortos ou sobreviventes, depoimentos das vítimas de bombardeios, relatórios civis esquecidos e muitos outros documentos, menos importantes, mas mais pungentes que os oficiais, foram exumados por ele para compor seu livro.

Ufanismo patriótico e marketing não o influenciaram quando falou dos comandantes, pondo no seu verdadeiro pedestal cada um deles, por mais “monstros sagrados” que sejam.

Por exemplo: o general americano Douglas MacArthur (1880-1964) era um comandante egoísta, vaidoso, autopromovido, mas beirando a incompetência, enquanto Lucian Truscott (1895-1965) era muito superior. O general russo Gueorgui Zhukov (1896-1974), que havia sido brilhante nas ofensivas de 1944, nada fez para conter a brutalidade das tropas soviéticas na Alemanha. Montgomery era um bom general, mas sem qualquer genialidade. Rommel, ainda que competente, descuidava-se da logística.

Por outro lado, desmentindo as “realidades” presentes nos filmes de Hollywood, em que americanos e britânicos são sempre heróis impecáveis, os combatentes, infantes principalmente, alemães e japoneses eram superiores aos americanos e britânicos, enquanto os russos eram os que mais duramente podiam suportar as piores condições de luta, mesmo porque não lhes sobrava alternativa senão a morte: nas mãos alemãs, se avançavam, nas soviéticas de Stálin, se tentassem recuar.

Atrocidades — inseparáveis das guerras — foram cometidas por todos os exércitos combatentes, e Max Hastings não esconde o fato de que não só os perdedores foram covardes e cruéis. Soviéticos matavam inocentes inermes apenas por serem alemães, e estupravam todas as mulheres que encontravam pela frente, sem que os oficiais os coibissem. Americanos fuzilavam alemães aos magotes, depois de terem sido feitos prisioneiros e desarmados. Britânicos não ficavam atrás. A selvageria maior ficou, contudo na frente leste. Se 90% das perdas alemãs ocorreram na frente oriental, para cada baixa alemã, ocorriam quatro baixas soviéticas.

Max Hastings discorre com clareza, e prende a atenção. Episódios desconhecidos chamam a atenção pelo inusitado e pelo pitoresco que coabitam com a tragédia. Dois exemplos.

A invasão da Noruega pela Alemanha, em abril de 1940, foi uma operação rápida e quase indolor. A surpresa, a superioridade militar alemã, o detalhado planejamento do estado maior invasor anulou qualquer reação das forças armadas norueguesas. Contudo, no seu veloz passeio Noruega adentro, uma brigada paraquedista nazista foi detida e posta em retirada em Elverum, a uma centena de quilômetros de Oslo. Só que não pelo exército, mas por integrantes de um clube de tiro local, que, entrincheirados, abatiam os alemães com disparos certeiros, fazendo com que recuassem para evitar maiores baixas. (Isso me fez lembrar a idiotice do narrador Galvão Bueno, da TV Globo, que em 2004 propunha a eliminação do esporte de tiro dos Jogos Olímpicos, por ser um esporte inútil, e que instigava a violência. Em meus sessenta anos de convivência com essa modalidade esportiva jamais presenciei ou mesmo tive notícia de uma violência praticada por um atirador. Conheço várias violências pesadas no meio futebolístico — ambiente de Galvão Bueno — e no meio jornalístico, onde trabalha.)

Outro episodio extraordinário, nos alvores da guerra, diz respeito à Finlândia e à União Soviética. Em novembro de 1939, Stálin, confiante na desproporção militar entre seu império comunista e a pequena Finlândia, resolveu tomar parte do território finlandês, objeto de uma antiga disputa de fronteiras.

A Finlândia tinha cerca de 3,5 milhões de habitantes, e a União Soviética tinha mais soldados que isso. Stálin desconhecia o quanto eram os finlandeses aguerridos, uma nação de esquiadores e caçadores. Mandou que Molotov, seu chanceler, convocasse o embaixador finlandês e apresentasse a ele um ultimatum: ou a Finlândia cedia as áreas exigidas ou seria invadida. Molotov, ao apresentar o ultimatum, acrescentou: “Vocês são uma nação pequena, e temos 4 milhões de soldados prontos para uma invasão”.

A resposta do embaixador logo seria repetida em toda a Finlândia: “Vocês nos criarão um grande problema. Se somos um país pequeno, onde vamos enterrar tantos soldados russos?” Não era brincadeira e nem jactância. A invasão ordenada por Stálin foi um fiasco. Tão grandes foram as perdas em soldados e material, infligidas por um exército finlandês extremamente móvel e combativo, que Stálin suspendeu as hostilidades e propôs um armistício, com apenas três meses de guerra.

A Finlândia havia sofrido cerca de 50.000 baixas; Stálin, um número que nunca revelou, mas certamente próximo das 300.000.

Ficou famoso, a partir da invasão soviética, por ter sido o franco atirador mais letal da Segunda Guerra, o finlandês Simo Häyhä, apelidado “Morte Branca”. Sempre camuflado na neve (daí o apelido), com seu fuzil de precisão, que por sua escolha não era equipado com luneta (a luneta o tornaria mais visível), abateu sozinho 505 soviéticos confirmados, na maioria oficiais.

Possivelmente atingiu uma centena a mais. E não era um soldado de carreira, mas um fazendeiro e caçador recrutado diante da ameaça stalinista. Os bravos atiradores noruegueses que enfrentaram os nazistas, os caçadores finlandeses mobilizados na invasão comunista, e o próprio Simo Häyä são anti-heróis no entender dos desarmamentistas. São homens que não deveriam existir, no entender curto de um Galvão Bueno.

2 respostas para “Max Hasting relata histórias “miúdas” da Segunda Guerra Mundial que outros historiadores ignoram”

  1. Avatar Carlos Spindula disse:

    Obrigado pela resenha, Irapuan ! Leio sua coluna toda semana, parabéns !

  2. Avatar Carlos Spindula disse:

    Irapuan, comprei o livro ! O Original em inglês, já o tenho em minhas mãos e estou lendo avidamente e com gosto ! Obrigado pela indicação !!

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