O linguista português Fernando Venâncio, 80 anos, autor de várias outras obras, publicou em 2022, em Portugal, o livro “O Português à Descoberta do Brasileiro” (Guerra & Paz), ainda não editado no Brasil. Enviado pelo autor ao jornalista Euler de França Belém, estou me deliciando com ele.

Uma breve apresentação do autor: Fernando Venâncio percorreu longa estrada intelectual: é alentejano, passou a infância em Lisboa, teve o ensino médio em Braga, estudou Filosofia na Beira, Teologia em Lisboa e terminou por estudar linguística na Holanda, em Amsterdam. Vive desde 1970 na Holanda, onde, professor universitário, leciona Português.

Fernando Venâncio colabora em vários jornais e revistas portugueses e acaba de lançar no Brasil um livro, publicado em Portugal em 2019, intitulado “Assim Nasceu uma Língua — Sobre as Origens do Português” (Tinta da China, 304 páginas). Nele pretende demonstrar, sobre a língua portuguesa, que não seria a rigor “a última flor do Lácio, inculta e bela”, como quis Olavo Bilac, mas um derivado do galego, língua pastoril do noroeste espanhol. Mas falemos do outro livro, “O Português à Descoberta do Brasileiro”.

O autor incorpora no texto algumas publicações suas das décadas de 1980 e 1990, em periódicos de que é colaborador, como o “Jornal das Letras” e a revista “Expresso”, ambos lisboetas, mas esse texto tem inegável sequência e unidade literárias, além de uma clareza de leitura associada a uma capacidade crítica bem-humorada.

Fernando Venâncio: um dos mais importantes linguistas de Portugal | Foto: Facebook

Como o leitor já terá deduzido, o livro trata da divergência entre as duas linguagens: o português falado em Portugal e português tal como o usamos aqui. Desfila uma rica coleção de comparativos entre situações sintáticas ou morfológicas, palavras e expressões idiomáticas como se usam aqui e do outro lado do Oceano, nessa nossa amada língua.

Seria utópico esperar que duas sociedades étnica e culturalmente bem diferentes, separadas por milhares de quilômetros de Oceano Atlântico, mantivessem idênticas morfologia, sintaxe e prosódia ao longo dos séculos. Diferenças existem, e são inevitáveis. Como são vistas essas diferenças é o que o livro de Fernando Venâncio aborda, com precisão, ilustração e humor.

O autor nos confia sua experiência pessoal nos anos 1950, quando teve contato com as histórias em quadrinhos brasileiras, que em Portugal se dizem bandas desenhadas, e foi aluno de Português em que o professor era um frei brasileiro.

O linguista fala ainda da notável influência das novelas brasileiras da década de 1970, de enorme divulgação em Portugal e de sua inevitável influência na linguagem local, dos jovens principalmente.

Venâncio menciona algo de que sou testemunha em minhas permanências em Portugal: os portugueses ou aceitam, com admirada alegria, nosso falar um tanto liberto da rigidez linguística, ou o censuram, com uma boa dose de acrimônia. “Olha como eles dizem! Tão queridos!” — comentam os primeiros. “Eles nem português falam!”, dizem os segundos — ilustra Venâncio.

Minha experiência o confirma. Após a permanência em Aveiro por um par de meses, ouvi de um amigo português: “Já estás quase a falar português. Quando aqui chegaste, só falavas brasileiro!”.  

Mas a virtude está no meio e nosso autor Venâncio é virtuoso. Não agrada e nem desagrada do inevitável acontecido, e sabe constatá-lo com mestria. “Seja sublinhado que, no fim de contas, essa influência brasileira não atingiu a pronúncia portuguesa e só muito ligeiramente a sintaxe. Pelo contrário, materiais lexicais e fraseológicos foram, com inesperada facilidade, integrados à expressão informal dos portugueses, tendo alguns deles sido objecto de curiosas transformações”, assinala.

Venâncio ilustra o seu escrito sobre o nosso falar — e escrever — e o dos portugueses, com numerosas citações de autores conhecidos, patrícios e portugueses, e artigos de jornais e revistas. Os brasileirismos são no seu entender algo inevitável na sua incorporação ao português de Portugal, nem sempre vantajosos, como quando se usa eu acho que em vez de julgo que ou creio que, e que dar-se-á uma aproximação entre as duas linguagens, sem que se atinja uma unidade linguística. Faz sentido.

Fernando Venâncio revela uma obra pouco conhecida, ainda que publicada no Brasil, sem dúvida de interesse para quem trabalha com a escrita ou a fala: “O Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro” (Editora Guanabara).

A obra, de 1989, foi escrita pelo filólogo brasileiro Mauro de Salles Villar, mais conhecido por outro trabalho: a coautoria dos dicionários Houaiss.

Venâncio comenta o livro de Mauro Villar sem depreciá-la — ainda que faça alguns reparos, na verdade completando-a. Como quando mostra que a expressão portuguesa de contrário que segundo Villar corresponderia ao nosso ao contrário, equivalente à pelo contrário, a rigor significa senão, em Portugal. E que as outras duas expressões também lá existem, embora não equivalentes.

O Acordo Ortográfico problemático

Venâncio faz de passagem menção ao AO90 — o Acordo Ortográfico de 1990, assinado pelos países lusófonos em Lisboa, em dezembro daquele ano de 1990, pretendendo uma unidade ortográfica em todos os países signatários.

Veladamente, Venâncio deixa entrever sua descrença com tal Acordo, no que lhe darão razão muitos linguistas experimentados. Seria um tanto utópica uma unificação como essa, envolvendo países de três diferentes continentes, e considerando que a língua é um elemento vivo, que sofre alterações naturais ao longo do tempo, se usada por diferentes etnias, em diversas condições geográficas e de vizinhanças linguísticas também diferentes, para dizer o mínimo.

Mas não desejo mais me alongar para não tirar dos futuros leitores do ilustrativo e inteligente livro de Fernando Venâncio as muitas informações, até surpreendentes com que ele nos brinda. E seu vaticínio sobre o futuro do português português na sua relação com o português brasileiro. Quem ler, gostará.

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