Euler de França Belém
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Linguista garante que Camões não criou “uma Língua Portuguesa”

Fernando Venâncio, professor da Universidade de Amsterdã, afirma que Luís de Camões “não acreditou numa Língua Portuguesa de perfil autônomo” e que o léxico de sua obra poética deriva muito do castelhano

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Luís Vaz de Camões, que queria iberizar o português, inovou muito pouco; “as exclusividades portuguesas introduzidas pela obra” do escritor “foram residuais”

A jornalista Isabel Salema publicou uma reportagem interessantíssima — “O português como língua de Camões é um mito” — na edição de 20 de abril do jornal “Público”, de Portugal. Os apaixonados por “citações”, quase sempre desconectadas do contexto, têm o hábito de sugerir que Luís Vaz de Camões (1524-1579 ou 1580) e o padre Antônio Vieira — “o imperador da Língua Portuguesa”, segundo o poeta Fernando Pessoa — são os inventores ou reinventores da Língua Portuguesa. Não é bem assim, pelo menos não é o caso do autor de “Os Lusíadas”.

O linguista, ensaísta e tradutor Fernando Venâncio, de 72 anos, professor da Universidade de Amsterdã, depois de ter estudado detidamente a obra do escritor português, afirma que de “735 adjetivos usados por Luís de Camões n’‘Os Lusíadas’ apenas um é uma criação nova do poeta, uma estreia na história da Língua Portuguesa. É a palavra ‘insofrido’, que quer dizer impaciente”.

Fernando Venâncio fez uma pesquisa exaustiva para produzir uma história do léxico português. “O uso que Camões faz do léxico exclusivo do português já conhecido é extremamente moderado e, mais do que tudo, as exclusividades portuguesas introduzidas pela obra foram residuais. Dir-se-ia que Camões não acreditou numa língua portuguesa de perfil autônomo”, afirma o linguista.

Deixando de lado “Os Lusíadas”, Fernando Venâncio “encontrou apenas outro adjetivo novo de origem autóctone na lírica camoniana, desta vez ‘famulento’, que significa ‘faminto’”.

Em “Os Lusíadas” — o poema épico de 1572 versa sobre a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama —, o linguista detectou “criações castelhanas”: alvoroçado, disfarçado, enamorado, rebelde e sotoposto. O autor disse a Isabel Salema que está contando “só adjetivos, palavras normalmente utilizadas para testar a inovação da língua”.

Em seguida, o mestre da Universidade de Amsterdã, fixa os “adjetivos latinos exclusivos do português, que atingem o número de 13 (abominoso, cintilante, celso, fulvo, humílimo, longínquo, piscoso, crástino, equório, estelante, frondente, inconcesso, prisco). Entre estes, só dois — longínquo e cintilante — são realmente importantes, ‘o resto é extravagante e os adjetivos não voltam praticamente a ser usados’”.
Fernando Venâncio ressalva que “os adjetivos latinos já correntes em castelhano estreados” pelo livro, obra-prima da literatura renascentista, “sobem até aos 54 (aéreo, aquoso, árido, aspérrimo, áureo, belígero, canino, canoro, cerúleo, ciente, cônsono, diáfano, dissonante, espumante, estipulante, estupendo, famélico, ferino, fétido, fraudulento, fugaz, fulgente, fulminante, furibundo, hispano, impudico, inerme, inerte, infido, inúmero, inusitado, lácteo, malévolo, náutico, pirático, plácido, plúmbeo, preeminente, prestante, proceloso, pudibundo, radiante, rapace, régio, rotundo, rutilante, salso, sanguinoso, sitibundo, sonoroso, truculento, vasto, vendível, virgíneo)”. Extensa, a lista indica que “Camões transportou para a escrita portuguesa ‘o que de melhor, mais sólido e mais expressivo já circulava em castelhano em matéria de latinismos’. Metade destes adjetivos ‘revelaram-se aquisições felizes e definitivas’, tão duradouras como os outros que o poeta utiliza e que já vêm desde” a “Idade Média”.

Na opinião do linguista, faltava estudar a Língua Portuguesa “numa perspectiva histórica” — “comparando-a com a dos contemporâneos e a de épocas anteriores”. Ao investigá-la, neste sentido, Fernando Venâncio afirma que é possível que “a inovação está lá, ‘mas não é portuguesa’”.

“Os cultismos que Camões utiliza são já correntes em castellano”, anota o professor. Qualquer português, se instruído, conhecia-os. “Camões não parece acreditar num português castiço, autônomo, irredutível”, destaca o doutor em Linguística. O poeta estava empenhado, conscientemente, “numa modernização do português culto”, porém “com recurso a criações castelhanas e ao latim do castelhano”. Trata-se de uma novidade? Sim. “Uma absoluta novidade”, mas “que desautoriza os nossos mitos criados à volta duma ‘língua de Camões, um mantra sem base material”, sustenta o pesquisador.

Fernando Venâncio, linguista português: o castelhano é dominante no léxico da obra poética do escritor Luís Vaz de Camões, autor de “Os Lusíadas”

Fernando Venâncio, linguista português: o castelhano é dominante no léxico da obra poética do escritor Luís Vaz de Camões, autor de “Os Lusíadas”

O linguista frisa que, enquanto “o português era a língua dos marinheiros e dos comerciantes, o castelhano era a grande língua internacional da classe culta portuguesa e europeia”. Fernando Venâncio frisa que “os portugueses estavam muito familiarizados com o castelhano. Isso vale para todo o português com contatos na corte, nas universidades. A língua culta, aquela em que as classes instruídas se exprimem, é muito devedora do castelhano”.

Catarina de Áustria reinou em Portugal durante 53 anos, mas “nunca escreveu uma linha” em português. “A verdade é que a língua da corte era o castelhano. Depois havia muitos professores, pregadores, confessores que vinham de Castela e isso obrigava muita gente, ativamente ou passivamente, a exprimir-se ou a dominar o castelhano. Portanto a presença do castelhano é imensa. Vemos isso naquilo que ficou, nos livros de piedade, nos dicionários. Tudo é castelhano ou traduzido do castelhano com muitos castelhanismos.” O primeiro dicionário em português surgiu apenas em 1562, quando Camões tinha 38 anos.

A língua erudita e moderna era o castelhano. Fernando Venâncio sublinha que Camões trabalhou para “iberizar o português”, com o objetivo de “que a língua funcionasse internacionalmente”. O linguista destaca que o bardo “modernizou o português e fê-lo, inteligentemente, segundo o modelo castelhano para poder ser lido por espanhóis e pela Europa culta da época”.

A influência do castelhano na poesia de Camões já foi estudada por Vieira de Lemos, Martínez Almoyna e Nicolás Extremera Tapiá, mas não, assegura Fernando Venâncio, como fez agora, de maneira exaustiva. Na lírica de Camões é possível identificar a influência de poetas castelhanos, como Juan de Mena, Garcilaso de la Veja, de Juán Boscán. “Mas essa é uma parte ínfima do aproveitamento lexical que Camões fez do que já estava disponível em castelhano. Esta minha investigação é realmente o Camões todo. A novidade é a espetacular extensão do fenômeno”, anota o linguista. O estudioso apresentou parte de sua pesquisa, em abril, no curso de Estudos Camonianos da Universidade Nova de Lisboa.
Jesuíta Luís Fróis

A “modernização” linguística não era um projeto solitário. Fernando Venâncio assinala que o jesuíta Luís Fróis é “um duplo linguístico de Camões”. O religioso “transpôs para” o “português toda a riqueza latina que os castelhanos já usavam”. O missionário saiu de Lisboa em direção à Ásia, em 1548, aos 16 anos, e nunca mais voltou a Portugal. O pesquisador garante que se trata de “o mais dotado ‘jornalista’ português no Oriente”. “Suas cartas sobre a Índia e sobre o Japão foram durante décadas ‘lidas, relidas e disputadas logo que chegavam a Portugal’.” Luís Fróis, como Camões, também “investia numa ‘iberização’ da língua”.

Camões e Luís Fróis viveram em Goa — “um centro cultural fortíssimo” — “por volta de meados do século 16. “De certeza que absorvem um clima cultural, a que eu chamei ‘movida’, que já não havia em Portugal. Uma imensa liberdade criativa e mundana que contrasta com o controle social da época de D. João III e que durou até a chegada da Inquisição”, relata Fernando Venâncio.

Camões e Luís Fróis moraram em Goa entre 1554 e 1562 e, homens cultos, possivelmente se encontraram e se influenciaram. É “impensável” que não tenham dialogado, postula Fernando Venâncio.
Fernando Venâncio mostrou seu projeto linguístico ao escritor, tradutor e crítico Vasco Graça Moura (1942-2014). Segundo o linguista, o poeta e camonista teria ficado “assombrado” com suas descobertas. O professor revela que sua história do léxico português deve ser publicada este ano no Brasil, mas não menciona a editora.

Se não há inovação lexical em Camões, em termos do “português autóctone”, isto quer dizer que se trata de um escritor menor? Pelo contrário, afirma Fernando Venâncio. “Camões é, sem a menor dúvida, um grande artista”, admite o linguista. Se Antônio Vieira é o imperador da Língua Portuguesa, na avaliação puramente poética de Fernando Pessoa, Camões é, por certo, o príncipe.

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