Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A história de um homem que celebrou a amizade e a gentileza

O “tio” Patrick era uma fortaleza, atendia a todos com educação e delicadeza; ele faleceu de um câncer

Patrick e Shirley com suas motocicletas: dois guerreiros que lutaram contra o câncer

Patrick e Shirley com suas motocicletas: dois guerreiros que lutaram contra o câncer

Anote, caro leitor, e não duvide. Você poderá chorar a morte de uma pessoa que nunca viu, ou que viu apenas uma ou duas vezes. Poderá sentir essa falta como se fosse a de um amigo muito próximo, ou de um parente bem chegado, daqueles com quem se convive de maneira agradável e fraterna por uma existência. Dou meu exemplo: tenho uma enteada, a Amanda — que é como se fosse filha —, há alguns anos vivendo em Ottawa, no Canadá. Lá estudou engenharia. Quem é mãe ou pai, sabe do que falo: se temos uma filha ou um filho distante, mesmo que em um país de primeiro mundo, preocupamo-nos. No primeiro mundo acontecem também as doenças, os acidentes, os infortúnios, e que farão nossos rebentos, se estão longe do colo da mãe e do ombro do pai? Como se sairão eles nos pequenos desconfortos do dia-a-dia, se não estamos ali para acudi-los, como sempre fizemos, e se para nós eles nunca crescem?

Amanda, vivendo a alguns milhares de quilômetros de nossos cuidados diretos, começou um namoro com um colega de faculdade, o Jacob — ou Jake, como é chamado em família — há coisa de uns três anos. Os pais de Jake vivem em uma cidade a duas centenas de quilômetros de Ottawa, próximos, pois, mas não presentes, também, no quotidiano do filho. Mas havia um tio de Jake, o Patrick, que morava em Ottawa. E os comentários da Amanda sobre o “tio” Patrick primeiro despertaram nossa curiosidade, logo admiração e ao fim nossa gratidão. Quem meus filhos beija, minha boca adoça, diz o provérbio.

O desvelo de tio-pai de Patrick para com Jake, era grande — e ele o estendeu a Amanda. Namorada do sobrinho, sobrinha era, na sua concepção responsável e carinhosa. De quem era o “tio” Patrick chegavam-nos as notícias aos fragmentos, nos comentários da Amanda, até que dele concebêssemos uma imagem: tio Patrick é analista de sistemas; tio Patrick trabalha muito; tio Patrick é divorciado, e tem duas filhas adolescentes; as filhas de tio Patrick vivem com ele, que delas cuida como se fosse a um só tempo pai e mãe; tio Patrick viaja muito a trabalho, algumas vezes aos Estados Unidos; tio Patrick tem uma namorada, a Shirley, e os dois praticam motociclismo, e assim por diante. Com toda essa atividade, “tio” Patrick sempre ia além: não descuidava do sobrinho Jake, suprindo a ausência dos pais, e agora também da “sobrinha” Amanda, cujos pais nem conhecia: Jake mudava do alojamento na faculdade para uma república de estudantes? Lá ia o tio Patrick com seu carro levar a mudança. Havia um defeito no aquecimento da casa de um dos “sobrinhos”? Adivinhe quem ia fazer o conserto. Amanda tinha uma crise de estômago? Tio Patrick descobria o médico certo, marcava a consulta e até levava ao consultório a “sobrinha”, além de providenciar os remédios. Jake tinha que tomar o trem para a casa dos pais? Tio Patrick o levava à estação.

Amanda vinha de férias ao Brasil? “Tio” Patrick a levava ao aeroporto, e na volta a buscava, com suas pesadas malas, que toda adolescente sempre as carrega. Um dos “sobrinhos” aniversariava? Tio Patrick fazia, ele mesmo, um jantar comemorativo em sua casa. Até nos arrufos de namorados, acabamos percebendo, tio Patrick era o mediador e respeitado conselheiro, ouvido por ambas as partes.

Já éramos repletos de gratidão, quando numa vinda ao Brasil, Amanda revelou: Patrick lutava, já passados dois anos, com um agressivo câncer do aparelho digestivo. Eu quis saber como ele conseguia manter essa atividade profissional, cuidar das filhas, namorar e ainda dar assistência ao sobrinho (e à namorada do sobrinho), arrastando consigo esse mal, esse “atroz, recôndito inimigo”, no dizer do poeta Raimundo Correia. Não se deixando abater, foi a resposta. — E com o apoio da namorada, a Shirley, uma americana de New Jersey, que esteve desenganada, também com um câncer de estômago, e que milagrosamente curou-se. Ele é forte, e ela, que também é, dá ainda mais força a ele — disse Amanda.

Fizemos uma carta de agradecimento pelos cuidados que ele dispensava a nossa filha distante, pelo simples fato de ser namorada de seu sobrinho, e dizendo o quanto gostaríamos de conhecê-lo. Sua resposta foi de que ficássemos tranquilos, mesmo aqui no Brasil. A “sobrinha Amanda” teria sempre à disposição os cuidados de um lar no Canadá: a casa dele e das filhas.

Há um ano e pouco, outra má notícia: o estado do tio Patrick se agravava, e, segundo os médicos, ele talvez não alcançasse o ano 2016. Mas alcançou, e quase viu o 2017, sempre ativo.
Fomos conhecê-lo e a Shirley em junho deste ano, em Ottawa, na formatura da Amanda. Estivemos juntos duas vezes, e em nada parecia um doente: alegre, aparentemente disposto, simpático, e a namorada tanto quanto ele. Na véspera de nossa vinda, quando nos encontrávamos pela segunda e última vez, num jantar festivo de formatura — soube depois pela Amanda —, ele vinha de uma penosa sessão de radioterapia, mas ninguém percebeu qualquer sinal do desconforto que sentia. Uma fortaleza.

Contou-nos Amanda, entre lágrimas, o desfecho: no dia primeiro deste mês, o “tio” pediu que fossem, Jake e ela, armar a árvore de natal que todos os anos ele erguia em casa. Sentia-se debilitado e não estava conseguindo fazê-lo sozinho. À noite, quando lá chegaram, não o encontraram — havia sido hospitalizado, numa crise. Foram visitá-lo no hospital, no dia seguinte. Encontraram-no de mãos dadas com Shirley.

“Tio” Patrick conversou com os “sobrinhos”, disse que estava exausto e que iria descansar um pouco. Fechou os olhos. Shirley sentiu que sua mão não mais palpitava. Havia morrido. Minha mulher e eu o pranteamos, agora, quando começam a se acender, nas ruas e vitrines de Goiânia, as luzes festivas de nosso natal. Um natal tropical, diferente do natal branco e gelado de Ottawa, mas cujo espírito, de fraternidade entre os homens, é o mesmo. E rendemos nossa homenagem a Patrick Stacey, o “tio” Patrick, alegre e prestativo, que carregava, o ano inteiro, o espírito de natal no coração. Não montará mais sua costumeira árvore de dezembro, mas certamente acenderá, todo final de ano, em nossa lembrança familiar, as luzes e as cores de sua enorme bondade.

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Carlos Spindula

Belo relato, Irapuan ! Obrigado por compartilha-lo aqui !