Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Governo do PT gastou 400 bilhões fora do país e com campeões nacionais. Mesmo gasto do Plano Marshall

Todos os procurados são encontrados pela polícia, menos Luciano Coutinho. É espantoso
que a gravação feita por Joesley Batista tenha sido aceita pelo procurador-geral da República

ula da Silva e Dilma Rousseff: financiaram governos marxistas da América do Sul e da África e os chamados campeões nacionais, como Eike Batista e Joesley Batista | Foto: Roberto Stuckert Filho/PRO mais ambicioso plano internacional de financiamento conhecido surgiu logo após a Segunda Guerra Mundial. Os Es­tados Unidos, empenhados na preservação da democracia e do capitalismo, enfrentando o ímpeto de Stálin de ampliar a área de domínio comunista na Europa, elaboraram e aplicaram o chamado Plano Marshall. As principais nações europeias estavam devastadas por seis anos de guerra. Além disso, os partidos comunistas desses países (como na Itália e na França) tinham crescido, com a vitória da União Soviética.

Resumia o plano em empréstimos aos Estados mais atingidos pela guerra, para reativação de sua agricultura, sua indústria e sua infraestrutura, possibilitando a sua recuperação econômica e os aproximando dos EUA. O plano, batizado como Euro­pean Recovery Program (Programa de Recuperação Europeia), acabou por ficar na história com o nome de seu criador e aplicador, o secretário de Estado do governo Truman, George Catlett Marshall.

A cifra de 13 bilhões de dólares, dispendida à época (segunda metade dos anos 1940), equivaleria, a preços de hoje, a 130 bilhões de dólares, ou 400 bilhões de reais. Os Estados mais beneficiados foram Inglaterra (33 bilhões de dólares), França (23 bilhões), Alemanha (15 bilhões), Itália (12 bilhões) e Holanda (11 bilhões), tudo a preços de hoje.

O economista Samuel Pessoa, em interessante artigo publicado na edição do dia 14 da “Folha de S. Paulo”, chama a atenção para o fato do BNDES ter aplicado, nos governos petistas, cerca de 400 bilhões de reais, em recursos que lhe foram transferidos do Tesouro. Ou seja, o BNDES, presidido por Luciano Coutinho e comandado pelo governo do PT, aplicou o equivalente ao gigantesco Plano Marshall. É triste constatar que fica apenas no volume a semelhança entre o Plano Marshall e o plano PT-BNDES.

Os recursos do Plano Marshall vinham de uma economia forte, de uma sociedade afluente, onde os problemas de educação, saúde, segurança e infraestrutura estavam equacionados. Os do BNDES foram subtraídos de uma economia deficiente, de uma sociedade desesperadamente carente de dinheiro para todos esses setores.

Os dólares do Plano Marshall foram aplicados de maneira criteriosa, em Estados arruinados pela guerra, mas capazes, todos eles, de pronta recuperação, dotados de recursos humanos do mais elevado preparo. Era dinheiro na mão de gente honesta. Cada centavo de dólar do programa europeu foi aplicado na finalidade para a qual era dirigido, sem desvios de qualquer espécie. Os reais do BNDES foram entregues a governos marxistas sul-americanos ou africanos, cada qual mais despreparado que o outro, a economia em frangalhos, com elevado grau de risco, ou a empresários espertalhões que se aproximaram dos governos petistas, numa invenção chamada de “campeões nacionais”, não por competência já demonstrada na carreira empresarial, mas pela audácia se aproveitar do capital público para auferir lucros privados. Era dinheiro em mãos corruptas e despreparadas, o que vinha do BNDES.

A resposta ao Plano Marshall foi pronta e vigorosa, e as economias beneficiadas logo geravam superávits capazes de fazer frente às dívidas contraídas. A Alemanha, por exemplo, nos primeiros cinco anos do pós-guerra, havia dobrado seu Produto Interno Bruto. Nos dez anos, de 1946 a 1956, o triplicaria. Já os recursos do BNDES aplicados dos Estados “bolivarianos” ou nas empresas dos “campeões” têm tudo para não voltar à origem. A menos que se acredite, como faz a esquerdalha, que as economias venezuelana e cubana sejam mais sadias que as economias alemã e holandesa. Ou que as empresas de Eike Batista, a Oi e a JBS gerem tantos lucros quanto as alemãs Volkswagen e Mercedes Benz ou quanto a Phillips holandesa.

Imagine-se, nessa cifra de R$ 400 bilhões de nosso dinheiro, quanto terá ido para bolsos indevidos. Tome-se apenas um exemplo: numa só delação premiada, tornada pública nos últimos dias, um dos donos da JBS confessa ter financiado mais de 1800 políticos! E continua estranho, sendo mesmo cada vez mais estranho que não se bata de vez às portas do BNDES para que se descubra, para conhecimento da sociedade brasileira, o que se passou no caminhamento dos financiamentos que somaram tão fabulosa quantia. Afinal, essa dinheirama, aplicada na saúde, pouparia muitas vidas e muito sofrimento; na educação, resultaria em melhores cidadãos e votantes e em melhores profissionais em todos os ramos do trabalho; na segurança, por certo reduziria nossos índices de criminalidade, os maiores do mundo; na infraestrutura, daria melhores condições de escoamento da riqueza que ainda sustenta nossa balança — a safra de grãos — e melhoraria nossa combalida economia, diminuindo o desemprego.

É de se estranhar que até hoje nada tenha vindo à luz sobre essas inusitadas operações do BNDES, embora tudo leve a crer que se encontrem ali escândalos capazes de empalidecer mensalão e petrolão. Parecia que, com a Operação Bullish, desencadeada pela Polícia Federal no dia 12 deste mês, a sociedade brasileira saberia enfim o que ocorreu no seu banco de fomento. Mas tudo que diz respeito ao BNDES é estranho, diferente, escondido.
Sabe-se hoje que essa operação foi autorizada pelo juiz Ricardo Leite, da décima vara federal de Brasília, desde março, mas só agora desfechada. Nesses dois meses, quanto terá vazado? Quantas provas foram escamoteadas? Quanto dinheiro não desapareceu?

Luciano Coutinho

Luciano Coutinho: o ex-presidente do BNDES tem muito a esclarecer| Foto: Marcello Casal Jr./Abr

No correr da operação, o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho, que deveria ser ouvido coercitivamente, não foi encontrado. Estaria no exterior. Mas não mais se falou nele. Já a irmã de Aécio Aécio, Andrea Neves, também não encontrada por se achar no interior de Minas Gerais, viu a Interpol ser imediatamente acionada para localizá-la. Aliás, acionar a Interpol valeu para todos procurados e não encontrados até agora pelo Ministério Público e Polícia Federal, menos para Luciano Coutinho. Fernando Baiano, não encontrado em 2014, teve a Interpol em seu encalço. O mesmo aconteceu com o executivo da Odebrecht Luiz Eduardo da Rocha Soares, o dito operador de Renan Calheiros, Marcio André, o também falado operador de Eduardo Cunha, Ricardo Magro, em 2016. E neste ano, também foi acionada a Interpol contra Eike Batista, João Santana e Monica Moura. Mas Luciano Coutinho é deixado em paz.
E continuam as coisas diferentes quando se trata de BNDES. A delação de Joesley Batista fugiu completamente ao figurino das delações anteriores. Quer no seu desempenho tentando incriminar o presidente da República em uma gravação clandestina, aceita (pasme!) pelo procurador-geral da República, quer na sua liberação para se homiziar no exterior, sem sequer uma tornozeleira eletrônica, mediante uma multa pequena, coberta aliás por uma especulação em bolsa, provocada por ele mesmo, ao que se diz.

Rose Noronha

O afastamento de Aécio Neves do Senado também intriga. O procurador-geral Rodrigo Janot já teve mil motivos para pedir o afastamento do senador Renan Calheiros, mas nunca o fez. E prender Andrea Neves e nunca incomodar Rose Noronha não parece equilibrado. Embora na gravação feita por Joesley Batista com o presidente, este possa ter sido condescendente, em sã consciência ninguém pode dizer que houve cumplicidade, a menos que se seja esquerdista de seita. E é estranho também o esforço da imprensa em ampliar a crise, martelando o presidente, ignorando a clandestinidade e a adulteração das gravações e ampliando os magros movimentos de rua pelas diretas já, que só beneficiam os petistas apeados do governo. É tudo mesmo muito estranho quando se trata de BNDES.

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