Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Esquerdismo de Boric pode destruir a estabilidade política e econômica do Chile?

Falta preparo a Gabriel Boric. E está à vista a destruição de um legado de reformas de sucesso, respeitado por esquerda e direita chilenas até agora

O continente americano, uma extensão de terras que vai do Ártico à Antártida, e cobre 42 milhões de quilômetros quadrados, abriga 1 bilhão de habitantes e compreende 34 países e duas dezenas de possessões territoriais. A chamada América Latina abrange cerca da metade desse conjunto de países, os colonizados pela Península Ibérica: o Brasil, de Língua Portuguesa, e 18 outras nações, de língua predominantemente espanhola.

A região tem história recente, se comparada aos continentes europeu e asiático, tem uma economia baseada em exportação de commodities e viveu, mormente ao longo dos últimos cem anos, uma instabilidade política generalizada, com raríssimas exceções.

Há quem ligue os dois fenômenos (instabilidade política e exportação de matérias primas), como os pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas(FGV) Daniella Campello e Cesar Zucco. O ciclo natural de variação do valor das commodities faz com que as arrecadações dos governos passem por períodos alternados de abundância e escassez, e na escassez a pressão popular por melhores serviços causa desestabilização política.

Dois fatos são indiscutíveis: as economias das nações latino-americanas estão longe de ter sua base na indústria, principalmente a de ponta, como ocorre com países asiáticos e europeus de mesmo porte; e a instabilidade política é uma constante, principalmente nas américas Central e do Sul. E há o agravante para a instabilidade de ser esta a única região do mundo onde ainda existem contingentes eleitorais defendendo um sistema de governo à moda soviética, como mostra o Foro de São Paulo. Nos últimos cinquenta anos, porém, vemos que há um ponto fora da curva: o Chile. Recordemos alguns fatos.

Gabriel Boric: presidente do Chile | Foto: Reprodução

O Chile é um país de 750.000 quilômetros quadrados e tem cerca de 19 milhões de habitantes. Tem uma conformação geopolítica desfavorável: aproximadamente retangular, com mais de 4.000 quilômetros no sentido norte sul, e uma largura média inferior a 180 quilômetros, constrangido entre os contrafortes dos Andes e o Oceano Pacífico. Sofre clima rigoroso, principalmente ao sul, e abriga uma área desértica (o Atacama); experimenta seca na sua região central, e não estão ausentes os terremotos (o maior terremoto já registrado no mundo ocorreu no Chile, em 1960). Além disso, não ostenta muitas riquezas naturais. Possui o cobre, seu principal produto de exportação (quase metade das exportações, nas últimas décadas) e produtos agrícolas. Em que pese tudo isso, o Chile tomou, desde os anos 1980, a dianteira econômica da América Latina, a ponto de ostentar a maior renda per capita entre todas as nações da região, mesmo as mais dotadas de recursos naturais, como o Brasil e a Argentina. E tem, desde a queda do regime militar do general Augusto Pinochet, na década de 1990, mantido estabilidade política, ainda que se sucedendo governos conservadores e de esquerda, e até de esquerda mais radical, como o da presidente (por duas vezes) Michele Bachelet.

O que se passou com o Chile? Tentemos interpretar, sem muitos devaneios, nos atendo aos fatos comprovados.

Desde a Independência, em 1823, até a constituinte presidencialista de 1925, o país buscou uma configuração política mais estável, tendo passado por uma experiência parlamentarista (1891-1925) pouco satisfatória. Sofreu intensa depressão com a crise mundial de 1929, e viu os embates políticos internos, principalmente após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), se voltarem para o campo ideológico, com a Guerra Fria. As eleições presidenciais de 1970 se feriram sob as vistas da CIA e do KGB (que chegou a enviar dinheiro para os comunistas chilenos) e deram uma vitória minoritária para o comunista Salvador Allende (36% dos votos), já que inexistia segundo turno e o centro-direita estava dividido.

Allende tentou um governo inteiramente à moda marxista, nacionalizando as minas de cobre, o setor financeiro e as principais indústrias, além de dar início a uma reforma agrária radical. Chegou mesmo a receber uma insólita visita de Fidel Castro, em novembro de 1971, que por quase um mês permaneceu no Chile, interferindo no governo e açulando sua radicalização.

As medidas adotadas por Allende na economia logo levaram o país à inflação, ao desabastecimento, à recessão e às greves (uma greve dos caminhoneiros durou 26 dias), gerando o caos e uma revolta popular.

Quando o Congresso chileno já preparava um impedimento de Allende, este foi deposto por um movimento militar liderado pelo chefe das forças armadas, o general Augusto Pinochet, em setembro de 1973.

Allende morreu de maneira até hoje não clara: teria suicidado, conforme anunciou que faria? Foi morto pelo exército de Pinochet? Ou foi morto por sua guarda pessoal, composta de cubanos, sendo que a Fidel Castro interessava transformar Allende (como conseguiu), de rematado incompetente que era, em um mártir?

Pinochet assumiu a Presidência do Chile, onde ficaria até 1990. Não seria um fato isolado. Governos militares surgiram por toda a América Latina, como anteparo ao avanço comunista, num reflexo regional da Guerra Fria. Foi o caso do Brasil, Argentina, Peru, Bolívia, Uruguai, Paraguai, Guatemala e República Dominicana.

Mas o Chile apresentaria uma diferença fundamental dos outros regimes militares: enquanto esses regimes mostravam uma face nacionalista e até estatizante na maioria dos países, no Chile uma série de reformas liberais seria implantada pelo governo Pinochet. A mais importante delas, uma reforma econômica, fiscal e previdenciária dirigida por um grupo de economistas jovens, apelidados “chicago-boys”. Eram jovens economistas chilenos (cerca de 30), que haviam se formado nos EUA, beneficiados por um convênio de 1964 entre a Universidade Católica do Chile e a Universidade de Chicago. De volta ao Chile, buscavam aplicar as teorias que haviam aprendido.

Pinochet se convenceu das teorias liberais destes economistas e implantou as reformas, o que dificilmente se conseguiria fora de um governo forte. Além disso, Pinochet implantou uma reforma política e outorgou em 1980 uma nova Constituição, aprovada em plebiscito.

As teorias liberais também influenciaram o ensino chileno. As universidades passaram a ser todas pagas, e o ensino privado foi muito incentivado. Apesar de apontado como elitista, o ensino chileno se colocou à frente dos demais na América Latina nas avaliações internacionais, em particular no Pisa. Um programa de valorização do professor foi implantado ao fim do regime militar, e persiste até hoje.

É importante observar que os resultados na economia chilena das reformas mencionadas foram persistentes, e o crescimento do PIB per capita colocou o Chile no topo das nações latino-americanas na década de 1990, onde ainda se encontra.

Todos os governos que sucederam ao de Pinochet, fossem de esquerda ou conservadores, preservaram essas reformas, até mesmo os de esquerda mais radical, como os de Michele Bachelet. Esses os segredos do sucesso chileno: reformas feitas no momento certo e esquerdas inteligentes, que mantiveram o que o regime militar fez de positivo na economia, ao invés de demoli-lo por razões ideológicas.

Até a constituição de Pinochet foi preservada. O PIB per capita do Chile (Paridade do Poder de Compra) está hoje na casa dos 27 mil dólares, enquanto o da Argentina está pelos 23 mil, o do Brasil em 16 mil e o da Venezuela em 10 mil (Fonte: FMI). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Chile é o maior da América Latina, e a mortalidade infantil a menor.

Mas duas ameaças graves pesam hoje sobre o país: uma Assembleia Constituinte predominantemente de esquerda está redigindo uma nova constituição. É de se prever uma carta estatizante, onde sobrem direitos e faltem deveres, onde estejam previstas benesses às custas do Estado e onde abundem privilégios às custas dos mais pobres. E foi eleito presidente do Chile para o mandato 2022-2028, Gabriel Boric, um ex-líder estudantil de apenas 36 anos, cuja única experiência profissional foi a de dois mandatos de deputado. Iniciou seus estudos de Direito, que nunca terminou: algo típico do “estudante profissional”. Já no seu discurso de posse teceu vários elogios a Salvador Allende, que não pode, por várias razões, ser exemplo de governança para nenhum país do mundo. Falta preparo a Boric. E está à vista a destruição de um legado de reformas de sucesso, respeitado por esquerda e direita chilenas até agora.

8 respostas para “Esquerdismo de Boric pode destruir a estabilidade política e econômica do Chile?”

  1. Avatar Alcinei Rodrigues disse:

    Parabéns pela matéria.
    Tenho certeza que o Chile caminha para um desastre econômico social.

  2. Avatar Salatiel Soares Correia disse:

    O titular da coluna Contraponto deste semanário, Engenheiro Irapuan Costa Júnior, analisa o processo de desenvolvimento de um país considerado exemplar nesta América Latina: o Chile.
    A terra do Prêmio Nobel de Literatura — Pablo Neruda — é encantadora. Nesse sentido, faço minhas as palavras de apresentação dessa nação inteligentemente elaboradas pelo articulista– e acrescento:
    Por quatro vezes, visitei esse país localizado nas encostas da Cordilheira dos Andes. Meu interesse ia além do óbvio que a terra de outro Nobel de Literatura, Gabriela Mistral, tem a oferecer a quem por lá passa: vinhos de qualidade europeia, inúmeras atrações que a bela capital do país, com 6 milhões de habitantes, Santiago, tem a oferecer a quem por lá passa ou até mesmo se deliciar com a rica culinária chilena ou com os encantos dos balneários de Viña del Mar ou Valparaiso.
    O que de fato me atraiu no Chile foi, com os olhos do sociólogo, observar a maneira de pensar e agir de uma população que me levou a entender o porquê de o Chile ter-se tornado um caso de sucesso na América Latina. Falo da elevada consciência política da sociedade daquele Estado. Um chileno é um cidadão de verdade, consciente de seus direitos e deveres.
    Além disso, ao conhecer duas das melhores universidades chilenas, a Católica e do Chile, pude entender a razão de esses templos do pensamento chileno obterem reconhecimento em qualidade de ensino e pesquisa mais elevadas que as duas mais importantes universidades do Brasil — USP e UNICAMP. Nessas universidades, integradas no mundo, as aulas são ministradas em inglês; a USP e a Unicamp não conseguiram ainda chegar a esse patamar de exigência.
    Outra instituição que me deu um prazer danado de conhecer foi aquela agência das Nações Unidas que reuniu, sob a liderança do grande economista argentino — Raúl Prebish — os mais brilhantes intelectuais latino-americanos com objetivo de pensar e implementar políticas públicas nos países da região. Falo da Comissão para o Desenvolvimento da América Latina —CEPAL. Organização esta que tanto se fez presente no governo mais imaginativo da história do Brasil. Falo dos anos dourados do governo do presidente Juscelino Kubitschek.
    Posto isso, volto a referir-me ao temor do articulista titular da coluna Contraponto. Prezado Doutor Irapuan Costa Júnior, acho pouco provável que, num país com alto nível de educação como o Chile, constituído de uma sociedade crítica e atuante, esse Estado vergar-se-á a qualquer desvio de rumo que o levou a ser o único país da América Latina com os pés no Primeiro Mundo. Não tenho dúvidas de que, se o presidente eleito mudar, as fortes instituições chilenas servirão de contrapeso. Creia: no Chile, é democraticamente possível surfar nas ondas das ideologias — seja à direita, seja à esquerda. O que não é possível suceder é a elevação do ciclo político prejudicar o que está dando certo no país, desde os anos de 1990. A maturidade da sociedade jamais permitirá que isso venha a ocorrer

  3. Avatar Elmo disse:

    Meu caro Arapa, jogaram seu sapo n’agua. Excelente aula política com o feliz exemplo; o CHILE.continua firme nesses temas que são de grande valia para a cultura da juventude brasileira ,principalmente, para enfrentar à esquerda burra ( como dizia o Walter).
    Parabéns e um grande abraço do seu amigo
    BARUDE.

  4. Avatar Maria Teresa F. Garrido Santos disse:

    Quem esteve no Chile, como eu, na fase da então recente implantação das reformas liberais em sua economia, encontrou um povo com a autoestima bem elevada, beirando o exibicionismo. E tinha razões para isso, como bem colocado na matéria do ex-governador Irapuan Costa Junior. Não diferentemente, pelas razões que expõe, parece que lhe sobram motivos para se preocupar qto a uma ameaçadora possibilidade de retrocesso e deformação na realidade política e econômica daquela Nação.

  5. Avatar Salatiel Soares Correia disse:

    Salatiel Soares Correia
    O titular da coluna Contraponto deste semanário, Engenheiro Irapuan Costa Júnior, analisa o processo de desenvolvimento de um país considerado exemplar nesta América Latina: o Chile.
    A terra do Prêmio Nobel de Literatura — Pablo Neruda — é encantadora. Nesse sentido, faço minhas as palavras de apresentação dessa nação inteligentemente elaboradas pelo articulista– e acrescento:
    Por quatro vezes, visitei esse país localizado nas encostas da Cordilheira dos Andes. Meu interesse ia além do óbvio que a terra de outro Nobel de Literatura, Gabriela Mistral, tem a oferecer a quem por lá passa: vinhos de qualidade europeia, inúmeras atrações que a bela capital do país, com 6 milhões de habitantes, Santiago, tem a oferecer a quem por lá passa ou até mesmo se deliciar com a rica culinária chilena ou com os encantos dos balneários de Viña del Mar ou Valparaiso.
    O que de fato me atraiu no Chile foi, com os olhos do sociólogo, observar a maneira de pensar e agir de uma população que me levou a entender o porquê de o Chile ter-se tornado um caso de sucesso na América Latina. Falo da elevada consciência política da sociedade daquele Estado. Um chileno é um cidadão de verdade, consciente de seus direitos e deveres.
    Além disso, ao conhecer duas das melhores universidades chilenas, a Católica e do Chile, pude entender a razão de esses templos do pensamento chileno obterem reconhecimento em qualidade de ensino e pesquisa mais elevadas que as duas mais importantes universidades do Brasil — USP e UNICAMP. Nessas universidades, integradas no mundo, as aulas são ministradas em inglês; a USP e a Unicamp não conseguiram ainda chegar a esse patamar de exigência.
    Outra instituição que me deu um prazer danado de conhecer foi aquela agência das Nações Unidas que reuniu, sob a liderança do grande economista argentino — Raúl Prebish — os mais brilhantes intelectuais latino-americanos com objetivo de pensar e implementar políticas públicas nos países da região. Falo da Comissão para o Desenvolvimento da América Latina —CEPAL. Organização esta que tanto se fez presente no governo mais imaginativo da história do Brasil. Falo dos anos dourados do governo do presidente Juscelino Kubitschek.
    Posto isso, volto a referir-me ao temor do articulista titular da coluna Contraponto. Prezado Doutor Irapuan Costa Júnior, acho pouco provável que, num país com alto nível de educação como o Chile, constituído de uma sociedade crítica e atuante, esse Estado vergar-se-á a qualquer desvio de rumo que o levou a ser o único país da América Latina com os pés no Primeiro Mundo. Não tenho dúvidas de que, se o presidente eleito mudar, as fortes instituições chilenas servirão de contrapeso. Creia: no Chile, é democraticamente possível surfar nas ondas das ideologias — seja à direita, seja à esquerda. O que não é possível suceder é a elevação do ciclo político prejudicar o que está dando certo no país, desde os anos de 1990. A maturidade da sociedade jamais permitirá que isso venha a ocorrer.

  6. Avatar Pedro Brito disse:

    Vamos lá, Irapuan.
    Você diz que está trazendo “fatos”, mas você está trazendo uma interpretação absolutamente SUA, recheada de ideologia, alienada e deturpada da realidade chilena.
    Bem, primeiramente não foi um “movimento” militar que colocou Pinochet no comando, mas um GOLPE militar.
    Essas revoltas que aconteceram no Chile em 2020 são uma reflexo desse liberalismo fajuto que já caiu por terra na década de 90 entre os principais países desenvolvidos. O Chile continua sendo um país subdesenvolvido. Possui indicadores melhores que outros países latino americanos (que passaram quase todos por GOLPES militares.)? SIM. Claro, mas os indicadores chilenos já eram melhores que os dos colegas latino americanos antes mesmo do regime ditatorial de Pinochet. Então você apenas pegou um dado e o deturpou (o que é típico de esquerdistas e direitistas defensores de ditaduras).
    Você diz que nenhum governo no Chile pós-Pinochet mudou o jeito de governar o país. Claro, porque nem mesmo a Bachelet ou qualquer outro governo chileno desde 1990 conseguiu resolver as heranças da ditadura privatizante de Pinochet, como alto custo de serviços e fim da proteção social. O início dessa solução é realmente uma NOVA constituição, sem o viés ditatorial da constituição da ditadura militar de Pinochet. Isso sem falar da desigualdadade social chilena. De acordo com o Gini Index, O Chile tem o índice de desiguldade mais alto entre os 30 países mais ricos da OECD. Ou seja, é fácil ser o mais “rico” na América do Sul ou mesmo na América Latina, mas o Chile não é rico comparado aos países verdadeiramente desenvolvidos (e repito, países verdadeiramente desenvolvidos já rejeitaram essas teorias liberais fajutas que pessoas como você acreditam e que deram errado no Chile). Quer um fato? 85% da população chilena não pode pagar pela saúde.
    Ou seja, em um mundo onde a mitologia e a mentira imperam, esse mito do milagre econômico e liberal chileno é mais um entre vários.

  7. Avatar JOAO PAULO DE PAULA SILVEIRA disse:

    Sujeito caquético, esse mundo não ter pertence!

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