Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Dilma Rousseff preferiu sacrificar o labrador Nego. Eu não sacrifiquei nem vendi o burro Sabiá

Nego, presente de Zé Dirceu para a ex-presidente, estava velho e doente. Foi sacrificado. Sabiá, quando ficou velho, foi muito bem tratado

Nego, presente de Zé Dirceu para a ex-presidente, estava velho e doente. Foi sacrificado. Sabiá, quando ficou velho, foi muito bem tratado

Nego, presente de Zé Dirceu para a ex-presidente, estava velho e doente. Foi sacrificado. Sabiá, quando ficou velho, foi muito bem tratado

Lembrei-me, nesta semana, do Sabiá, que o leitor desconhece, mas que apresento em seguida. Sabiá era um burro de lida que eu tinha em uma fazenda no município de Ivolândia, nas décadas de 1970 a 1990. Comprei-o novinho de um criador de Jussara, o Faleiro, famoso pela qualidade dos animais que vendia. Não me arrependi do preço, elevado para a época, que paguei por ele. O Sabiá mostrou logo que cresceu e foi amansado todas as qualidades que um bom animal de trato com gado pode ter. Era resistente, e inteligente a ponto de se antecipar ao que desejava o cavaleiro quando precisava cercar, laçar ou derrubar uma rês. Além disso, manso a ponto de meus filhos e sobrinhos se acostumarem a dar uma volta nos pastos montados nele, quando havia uma pausa na sua lida.

O Zé Teófilo, gerente de minha fa­zenda, logo gostou dele, que quase ninguém mais montava. Juntos trabalharam por anos, e, pode-se dizer, juntos envelheceram na lida com o gado. Um burro vive cerca de 20 anos, às vezes um pouco mais. Quando comprei o Sabiá, o Zé Teófilo tinha trinta e muitos anos. Quase duas décadas depois, um Zé entristecido, beirando seus 60 anos, me abordou num belo dia em que vacinávamos uma vacada, para me dizer que o Sabiá já não servia para a lida. Estava muito velho, fraco, não suportava mais uma boa corrida perseguindo uma novilha desgarrada. Além disso, às vezes caía em meio a um galope, o que poderia ferir e até mesmo matar quem o montasse. Precisava de um burro novo, se possível do mesmo criador, o nosso amigo Faleiro.

Falei que iria providenciar naquela semana mesmo, e vi que o Zé me olhava, com algo mais para dizer. Pigarreou e prosseguiu: “Doutor, o que faço do Sabiá?” À medida que ouvia minha resposta, o Zé perdia o ar grave e abria um sorriso: “Zé, o Sabiá vai para o melhor pasto da fazenda, onde não pode faltar uma boa ração de milho no cocho, onde tenha uma boa aguada, e ali vai viver aposentado e bem tratado pelo resto de sua breve e útil vivência. Nós temos que agradecer a ele o trabalho que nos dedicou esses anos todos”.

Só quando o Zé prosseguiu na sua fa­la, compreendi a seriedade com que ha­via me abordado: “Graças a Deus, doutor. Eu estava com medo”. “Com me­do de que, homem de Deus?” — Perguntei. “Com medo de o senhor vender o Sabiá pros matungos” — respondeu.
Vou explicar quem eram os matungos: havia, naqueles anos, um frigorífico equino em Anápolis. Que enviava compradores às fazendas goianas em busca de animais velhos ou com algum defeito, que não servissem para a lida. Os vaqueiros, sempre afeiçoados aos animais que montavam, tinham verdadeira ojeriza desses compradores, encarregados de buscar os pobres animais que seriam abatidos e teriam sua carne comercializada pelo frigorífico.
Os compradores tinham esse apelido depreciativo: matungos (o que tanto pode significar cavalos imprestáveis quanto cavalos sem raça). A ojeriza era ainda maior pelo fato de que muitos fazendeiros, ingratos e insensíveis, em troca de uma pequena quantia, enviavam seus velhos cavalos e burros, que tanto haviam servido, para a morte no abatedouro anapolino. Eu não deixaria o Sabiá entregue a essa sina. Ele viveu ainda uns quatro anos, gordinho, em seu pasto.

Quando amanheceu morto, nu­ma manhã de setembro enfumaçada como as de agora, o Zé Teófilo abriu com o trator uma cova para sepultá-lo e livrar sua carcaça dos urubus. Uma semana depois caiam as primeiras chuvas da estação e se infiltravam no solo até seus restos. O capim cresceu fertilizado, vigoroso, sobre sua cova. O vegetal que nascia como que agradecia a dádiva do irmão animal morto, sob o olhar da mãe natureza.

“Por que essa pieguice? Por que essas lembranças de um pobre burro 40 anos depois?” — poderá inquirir o leitor. Elas têm razão de ser. Lembrei-me do Sabiá quando soube que o labrador Nego, companheiro de Zé Dirceu e presente deste a Dilma Rousseff, guardião de suas caminhadas nos parques de Brasília e depois de eleita, nos jardins do Palácio da Alvorada, foi morto a mando da dona. Certamente por estar velho e não ter lugar para ele no apartamento dela em Porto Alegre ou no de sua mãe no Rio de Janeiro.

Mas não faltariam bajuladores petistas em vários lugares do Brasil, a começar por Brasília mesmo, para cuidar de Nego, deixando que esperasse tranquilo a dignidade da morte natural. Bastaria uma fagulha de piedade ou sensibilidade por parte da dona. Quem teve ou tem um cão, conhece a dedicação, a amizade e o afeto desses companheiros do homem. Essa dedicação, essa amizade, esse afeto, perdem-se nos tempos imemoriais. Decidir dar a morte a um companheiro como esse, que seguiu fielmente a dona por anos, mostra a deficiência e a frieza de seu caráter, que aliás já eram de nosso conhecimento.

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