Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Dez estranhezas do Covid-19, que não se explicam inteiramente

Em resumo: do vírus pouco se sabe até o presente. E das consequências econômicas futuras até agora nada se sabe

1 — A maciça incidência viral se deu nas regiões situadas entre os paralelos 30ºN e 50ºN, isto é, muito predominantemente mais ao norte do hemisfério norte.

2 — O número de contagiados na China (cerca de 80.000) é extremamente baixo para um país tão populoso (1,4 bilhão de habitantes), bem como o número de óbitos (cerca de 3.000). E tudo começou por lá. Pequim e Xangai, próximos do centro de irradiação do vírus não entraram sequer em quarentena rigorosa.

3 — Países asiáticos (Taiwan, Hong-Kong, Japão, Singapura, Coréia do Sul e a própria China) experimentaram contaminação e mortalidade percentualmente bem menor do que os países não asiáticos.

Duas pessoas se abraçam na China | Foto: Reprodução

4 — Em Wuhan, China, onde teve início a pandemia, o vírus, aparentemente, já desapareceu.

5 — A Índia, superpopulosa (mesma população da China), pobre, território propício ao contágio em grande escala, apresenta índices ínfimos de contaminação (cerca de 12.000 casos) e apenas cerca de 400 mortes.

6 — Em nenhuma região, a velocidade de contaminação e o número de óbitos foram tão grandes quanto nos Estados Unidos.

7 — Há nesta data (16/4/2020) discrepâncias enormes entre vários países do mundo desenvolvido quanto à contaminação e letalidade. Por exemplo:

Alemanha e França têm número de infectados bastante próximos, na casa dos 134.000. Mas na França ocorreram mais de 17.000 óbitos, enquanto na Alemanha os mortos não chegam a 3.900.

Os EUA têm cerca de 640.000 infectados. Quatro vezes mais que a Itália (165.000). O número de mortos nos dois países é, porém, da mesma ordem de grandeza (22.000 na Itália e 30.000 nos EUA).

Portugal e Espanha, apesar de vizinhos geográficos, têm comportamentos muito discrepantes em relação ao vírus. Embora a população da Espanha seja quatro vezes a de Portugal, os infectados são dez vezes mais. E os mortos, trinta vezes mais.

Enquanto a taxa de mortalidade pelo vírus é, na média europeia, de 8,5%, em Portugal está em 3,3%. O país já começa, na próxima semana, gradualmente, a relaxar suas regras de isolamento.

Essa taxa está próxima dos 13% na Bélgica, na Itália, na França e no Reino Unido. Na Alemanha, está em 2,8%.

Tedros Adhnom: dirigente da Organização Mundial de Saúde | Foto: Reprodução

8 — Os EUA resolveram retirar seu apoio financeiro à Organização Mundial da Saúde (OMS), e suas justificativas foram bastante vagas. É bem verdade que a atuação da OMS foi errática desde o início da pandemia, mas isso pode ser devido ao completo desconhecimento do vírus e de seu mecanismo de propagação. Mas é verdade que os organismos da ONU costumam ser aparelhados e atuar politicamente. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), como nos lembramos, acolheu pedido de Cuba (com assentimento de Dilma Rousseff, então na Presidência do Brasil) e fraudou o programa Mais Médicos, de maneira a confiscar a maior parte do salário dos médicos cubanos e entregá-la à ditadura castrista. Teriam os EUA (país mais atingido até agora) descoberto alguma manobra do secretário da OMS, Tedros Adhanom, aliás conhecido ativista comunista em seu país (Etiópia)? É fato que Adhanom em nenhum momento quis se indispor com a China, origem do vírus. Sequer enviou médicos da OMS para avaliar a situação no local, quando se revelou a gravidade do caso. É uma praxe da OMS que não se cumpriu, aparentemente para não desagradar os “companheiros” chineses.

9 — Enquanto na maioria dos países há uma união nacional em torno dos governos para combater a pandemia, no Brasil ela está se prestando a um embate político. A oposição, principalmente a esquerda apeada do governo, se aliou à grande imprensa sedenta por verbas, à parte mais fisiológica do Congresso, saudosa do toma lá, dá cá e à parcela mais política do judiciário, numa tentativa de usar a crise para depor o presidente Bolsonaro. Não faltou a quinta coluna, representada pelo ex-ministro da Saúde, que, encantado com a popularidade, resolveu desafiar o presidente, elogiar a imprensa que antes combatia, apelar a traficantes e milicianos e tentar implodir a linha de frente do ministério, promovendo demissão em massa dos auxiliares, caso demitido. Profunda deslealdade e enorme descompromisso. Os líderes da oposição portuguesa, por exemplo, declararam inteiro apoio ao seu governo nas medidas de combate à praga, e colaboram no Parlamento. Apesar desses desacertos, nossa curva de contaminação segue muito próxima à do Reino Unido, que tem muito boa infraestrutura médica.

10 — Em Portugal, as forças políticas de situação e oposição fizeram um apelo aos bancos para um auxílio no combate às consequências econômicas da pandemia, pedindo que 2020 seja um ano de “lucro zero”, o que significaria um empenho em negociações com empresas em dificuldade, expansão do crédito, redução de juros e outras medidas de auxílio, necessárias no momento, mas redutoras da lucratividade. Algo impensável no Brasil de hoje. Os grandes bancos, no Brasil, que sempre contaram com a leniência do Banco Central, são os campeões de lucro — e de reclamações no Procon. Usaram a crescente automação bancária para economizar em mão de obra, à custa de atendimento cada vez pior. Não é provável que deem razoável contribuição ao esforço de guerra que estamos empreendendo. Sequer devem usar inteiramente a liberação dos compulsórios para a expansão do crédito. Estarão mais preocupados com o caixa num momento de crise. A única demonstração de boa vontade foi do banco Itaú-Unibanco que fez uma doação substancial (1 bilhão de reais) para o combate ao coronavírus. Mas lembremos que essa contribuição significa menos de 4% de seu lucro do ano passado, e parece ser algo feito para que nada mais lhe seja exigido. Uma minha conhecida, preocupada com um possível desabastecimento, e querendo se munir de alimentos, máscaras, luvas e medicamentos, solicitou ao Bradesco a baixa de uma aplicação que detinha no Banco. Embora tenha feito o pedido no dia 10 de março passado, o Banco só o liberou no dia 2 deste mês, depois de muitos e-mails ameaçadores. E nada de conseguir uma explicação dos gerentes, que são inaccessíveis nessas horas, e raramente atendem telefones. Além disso não têm nenhuma alçada. Banco fazendo caixa com dinheiro alheio? Parece.

Em resumo: do vírus pouco se sabe até o presente. E das consequências econômicas futuras até agora nada se sabe.

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